(Continuação) Este conto começa em Mar de Morte I, no post anterior.
O barco tombado permitia-nos usufruir de um pouco de sombra. Voltei a arrastar-me para dentro dele em busca de protecção e aí fiquei a tentar ordenar as ideias. Via o José, a irlandesa e os outros homens a discutir violentamente mas nem ouvia o que diziam tal era o barulho dos meus pensamentos. Nasci na Ilha, numa casinha cor-de-rosa com um alpendre aberto para o mar. Todas as memórias da minha infância estão presas a esse cenário. O meu pai era mergulhador e caçador de tesouros. Há centenas de navios naufragados nos recifes costeiros, sobretudo dos séculos XV a XVII quando o comércio com a Índia florescia e estes transportavam ouro, prata, porcelanas Ming e jóias. Mesmo durante a guerra ele mergulhava e comercializava os achados com coleccionadores de todo o mundo. Era uma actividade ilegal, corrupta, mas acho que apesar de tudo o meu pai gostava mesmo do que fazia. Gostava tanto que acabou por centrar toda a sua vida no trabalho e a família foi descendo níveis de prioridade na sua lista de preocupações. Um dia a minha mãe pôs um ponto final naquela situação e foi embora. Levou-me muito jovem para a Europa e nunca mais voltei à Ilha.
Um dia o José apareceu. Conhecia-o desde que me lembro pois fora sempre o ajudante preferido do meu pai. Disse-me que ele tinha morrido e que sempre lhe falara num tesouro que nunca chegou a vender e que escondera na sua casa da Ilha. O José queria encontra-lo e precisava da minha ajuda. Por qualquer motivo o meu pai associava sempre o meu nome ao tal tesouro. Eu disse-lhe que não voltaria à Ilha, que não me interessava tesouro algum, que devia ter sido um delírio do meu pai. Ele lançou-me um olhar gelado e com incrível violência deixou cair a mão direita na minha face e atirou-me ao chão. Ainda atordoada com tudo aquilo, com os lábios a sangrar e o rosto a arder tentei levantar-me quando José me agarrou pelo cabelo, me ergueu no ar e murmurou ao meu ouvido, cheio de raiva, que se não o ajudasse a encontrar o tesouro me matava. Fiquei refém dele desde esse dia e sem um único momento de paz, de solidão. O José era uma presença constante, seguia-me por todo o lado, não tirava os olhos de mim… e eu fui perdendo vontade própria e coragem.
E agora estávamos ali, a caminho da Ilha, no meio do mar. Estava perdida nestes pensamentos quando o Mar se aproximou e se sentou ao meu lado.
- Moça bonita está triste – disse-me ele com um ar doce.
- Um bocadinho Mar, mas já passa. Estou com medo desta viagem que nunca mais acaba.
- A moça não precisa ter medo. O mar do canal só mata quem não tem chão à espera – respondeu ele enigmático com os olhos fixos em mim.
- Estou a ver que sabes muitas coisas – disse-lhe eu a sorrir enquanto lhe afagava a cabeleira farta.
- Confia em mim moça e não sai deste barco – continuou Mar com a sua vozinha calma, quando de repente José chega.
- Vamos! Pega nas tuas coisas e vamos embora. A Ilha não pode estar a mais de duas ou três horas de distância a pé e não ficamos aqui nem mais um minuto com este bando de atrasados mentais – gritou ele enquanto me agarrava pelo braço e me levantava.
Entretanto a nossa companheira de viagem irlandesa aproximou-se para pegar nas coisas dela.
- Meu Deus, não aguento mais esta gente ignorante cheia de mitos e fantasmas… vamos embora que eu não atravessei o continente inteiro para morrer à sede aqui – disse ela exaltada com o seu sotaque irritante.
- Eu não saio daqui – disse eu de repente, quase num sussurro, enquanto olhava para o Mar.
- Mas você não percebe o risco que está a correr? Estamos no meio de um mangal enorme que rodeia as ilhas, onde as marés são intensas e a água chega a desaparecer. Se esperarmos que volte a haver água para navegar ficamos aqui horas ao sol e se não voltar vento continuamos aqui parados e voltamos a encalhar na próxima maré. Se formos a pé chegamos à Ilha antes de o mar subir – explicou quase cientificamente a irlandesa.
- Tu estás parva! Pega nas coisas já e vamos embora daqui! – gritou o José irado enquanto me agarrava novamente no braço e me sacudia como se eu fosse uma boneca.
- Eu não vou! – repeti eu, agora num tom decidido. – Estou cansada, sem forças e fico aqui à espera da maré. Encontramo-nos depois na Ilha.
O José puxou da arma que trazia sempre escondida nas calças, apontou-a à minha cabeça e obrigou-me a ir com ele. A irlandesa ficou paralisada com a cena mas rapidamente recuperou e veio atrás de nós. Quando nos afastávamos do barco o Mar veio a correr juntar-se a nós. Disse a José que sem ele nunca mais encontrariam o caminho para a Ilha no meio do mar. Sem tirar os olhos de mim e com a arma sempre apontada José ignorou-o e ele veio connosco. Eu, sem saber porquê senti-me mais tranquila, mais protegida. Algum tempo depois estávamos todos desesperados com o calor, a sede, a fome e mal nos conseguíamos manter em pé. Todos menos o Mar que seguia tranquilamente como se se tratasse de um passeio. A dada altura eu tropecei e caí. Sentia uma fraqueza letal no corpo, tudo girava à minha volta e sentia-me flutuar, leve, lentamente a deixar de sentir os efeitos daquela viagem brutal. À distância vejo a irlandesa a discutir com o José e ele a apontar-lhe a arma e a disparar directamente no peito. Ela tinha-se tornado num empecilho e ele eliminou-a. Depois vejo o Mar a aproximar-se lentamente do José, a parar à frente dele e a abrir os braços. O José lança-lhe um olhar assassino e de repente quando vai a levantar o braço para atirar no Mar começa a tremer, a contorcer-se violentamente com os olhos muito abertos cheios de desespero. A arma cai e ele leva as mãos ao pescoço numa tentativa desesperada para respirar até que acaba por cair asfixiado. Entretanto começa a sair um fio de água da boca e do nariz do cadáver que rapidamente se torna num pequeno lago que o rodeia e começa a cobrir.
- Moça, acorda. Bebe um pouco de água – disse-me ternamente o Mar estendendo-me uma caneca.
- Mas… estamos no barco?... o que aconteceu? – perguntei confusa, tentando ordenar as ideias.
- O seu José matou a senhora estrangeira… se enervaram, discutiram e ele disparou nela – disse o Mar.
- E ele, o que lhe aconteceu a ele – perguntei eu confusa, com as lágrimas nos olhos, olhando em volta a tentar ver onde ele estava.
- Ele morreu afogado que o mar não gosta de sangue a manchar suas águas. O mar matou ele e depois de tratar dos seus assuntos voltou para nos levar. Não chora mais que daqui a pouco a moça vai chegar a casa – disse o Mar para me confortar.
Os outros homens e Mestre Josenias estavam atarefados manobrando o barco. A maré trouxe com ela o vento e o barco galgou as ondas até vermos a Ilha no horizonte. O Sol começava a desaparecer e espelhava no mar um tumulto de laranjas que pareciam labaredas. Ao longe, no lado direito da Ilha vi de repente um ponto cor-de-rosa no meio do verde luxuriante da vegetação. Senti como se estivesse a atravessar um mar de chamas, o próprio Inferno para chegar àquele lugar.
- Olha moça, a Ilha está a ficar famosa – disse o Mar entrando de rompante no alpendre, com uma revista aberta nas mãos.
- Ei! Calma – disse-lhe eu a sorrir lançando um olhar de cumplicidade. – Já estamos habituados. Desde que descobrimos aqueles documentos antigos do meu pai que a Ilha é famosa em todo o mundo.
- Nada! Olha aqui foto da Pousada Cor-de-Rosa… e eu, olha eu ao lado do Mestre no barco cheio de turistas – disse Mar todo entusiasmado com esta fama súbita.
E ali ficamos o resto da tarde, embalados pelo som das ondas no alpendre, em frente ao mar, a ler a reportagem sobre a pousada e as maravilhas da Ilha como se nunca tivesse havido vida para além do canal.
13/08/07
09/08/07
Mar de Morte I
Já não conseguia abrir os olhos. O Sol do meio do dia a reflectir-se no mar criava um efeito de luz difusa tão intenso que diluía as cores da paisagem e cobria tudo com um véu leitoso, ofuscante, como se a estrela se incorporasse em tudo à nossa volta emitindo luz. O calor e a humidade há já muito que me tinham despojado da energia e da vontade mas agora sentia-me cegar. Mesmo com um enorme pano de algodão a cobrir-me o corpo e a cabeça e os olhos fechados era capaz de ver aquela luz uniformizadora como se ela estivesse dentro de mim. Estava aninhada no chão do barco, com as costas amparadas por dois enormes sacos de arroz a tentar abstrair-me da hora da canícula. O barco deveria levar-nos para a Ilha. Tínhamos enfrentado oito horas de picada, em plena época das chuvas, pelo meio da floresta tropical, para chegar ao lugar de onde partem os barcos para a Ilha. Tínhamos passado a noite no jipe, sem posição de dormir à espera que o dia nascesse para embarcarmos no primeiro barco que se fizesse ao mar. Mas a noite foi crescendo agreste e logo os relâmpagos nos deixavam ver o dia por entre trovejos assustadores. Era um presságio de chuva e má sorte. Quando o dia acordou deste pesadelo tivemos muita dificuldade em encontrar um barco que atravessasse o canal. Os homens tinham constatado mil e um sinais de má fortuna e fazendo fé nas suas crenças recusavam-se a contrariar a natureza.
Depois de uma acesa negociação, Mestre Josenias aceitou o serviço exigindo apenas que deixássemos vir connosco o pequeno Mardemorte, um miúdo órfão, lá do bairro dos pescadores. Enquanto esperávamos que a maré ficasse de feição para a viagem chegou uma mulher que nos pediu para a levarmos à Ilha. Viajava sozinha, era irlandesa e não tinha medo dos presságios de má sorte. Saíra da Irlanda para ir à África do Sul há anos mas ainda não chegara lá. Perdera-se no continente e deambulava de país em país na ânsia de encontrar sentido para a viagem. Nós éramos apenas dois e portanto havia muito espaço no barco para partilhar. A meio da manhã a chuva cortante amansou e acabou por desaparecer levando com ela o vento. Ao barco, parado no meio do mar, só lhe restava aguardar que novo sopro o encaminhasse. Era um barco tosco, construído por mãos hábeis mas sem grandes ferramentas, com uma vela de remendos e madeira bichada, talhado para a pesca e para viver ao ritmo das marés do canal.
A única preocupação de todos era protegermo-nos do sol e guardar as poucas energias que restassem. Cada um de nós estava coberto com o que podia, sem ousar movimentos, e um silêncio de morte tinha-se instalado no barco. Todos não… que Mar (o diminutivo que usavam para chamar Mardemorte) continuava desperto e vigilante, sentado na proa, de olhos bem abertos a perscrutar o horizonte. Há horas que não nos movíamos nem um milímetro e José, o meu companheiro de viagem começou a exaltar-se e quebrou o silêncio com agressividade, questionando Mestre Josenias sobre a necessidade de fazer alguma coisa, querendo saber onde paravam os remos e sobretudo muito enervado com a passividade de todos.
- Não tem remos no barco. A gente não rema contra a vontade do mar… a gente espera… - disse calmamente o Mestre deitado junto ao leme, sem abrir os olhos.
- Mas que merda é esta? Assim vamos morrer todos! Estamos aqui há horas parados, quase sem água, sem comida e eu preciso chegar esta tarde à Ilha – continuou o José cada vez mais exaltado, enquanto eu me mantinha imóvel, agora com a cabeça descoberta mas quase sem respirar.
- Nada! Aqui só vão morrer dois e tem muito tempo ainda – disse subitamente Mar, desviando os olhos do horizonte e voltando-se para trás.
- Que raio…? Mas… ouviram isto? Tu não me enerves fedelho! – disse o José lançando-se na direcção do Mar como se o fosse atirar borda fora.
- Calma! – Disse-lhe a irlandesa num português cheio de sotaque, agarrando-lhe o pulso e fazendo sinal com a cabeça para olhar em volta pois os três ajudantes de Mestre Josenias tinham despertado da sua hibernação e fitavam o José com ar ameaçador.
- Sossegue patrão, que o tempo já não está nas nossas mãos. Gente agora tem de esperar, que o mar tem seus caprichos e suas razões. E não toque no Mar, que ele é nosso leme e nosso mapa nesta viagem. Ele nasceu no mar e nessa mesma noite o barco onde ia afundou levando todos os outros para o outro mundo. Só ficou Mardemorte, filho do mar e filho de toda a gente, como são as crianças na nossa terra – continuou sereno Mestre Josenias.
Contrariado José voltou a sentar-se ao meu lado. A irlandesa cobriu a cabeça com uma capulana e encostou-se no fundo do barco. Os homens voltaram a deitar-se. Mar contemplou novamente o horizonte. E eu vo
ltei a cobrir-me e a chorar baixinho como era meu hábito desde o dia em que decidi matar o José. De repente sentimos um movimento, a madeira rangeu ruidosa e o barco tombou e ficou deitado como se tivesse chegado exausto a um destino e não aguentasse nem mais um minuto em pé. Caíram-nos em cima as mochilas, os sacos de arroz, as cordas, caímos uns em cima dos outros e quando nos conseguimos levantar olhamos em volta e vimos areia até perder de vista. O mar tinha desaparecido e o velho barco estava agora encalhado no meio de um infinito deserto.
(continua)
Depois de uma acesa negociação, Mestre Josenias aceitou o serviço exigindo apenas que deixássemos vir connosco o pequeno Mardemorte, um miúdo órfão, lá do bairro dos pescadores. Enquanto esperávamos que a maré ficasse de feição para a viagem chegou uma mulher que nos pediu para a levarmos à Ilha. Viajava sozinha, era irlandesa e não tinha medo dos presságios de má sorte. Saíra da Irlanda para ir à África do Sul há anos mas ainda não chegara lá. Perdera-se no continente e deambulava de país em país na ânsia de encontrar sentido para a viagem. Nós éramos apenas dois e portanto havia muito espaço no barco para partilhar. A meio da manhã a chuva cortante amansou e acabou por desaparecer levando com ela o vento. Ao barco, parado no meio do mar, só lhe restava aguardar que novo sopro o encaminhasse. Era um barco tosco, construído por mãos hábeis mas sem grandes ferramentas, com uma vela de remendos e madeira bichada, talhado para a pesca e para viver ao ritmo das marés do canal.
A única preocupação de todos era protegermo-nos do sol e guardar as poucas energias que restassem. Cada um de nós estava coberto com o que podia, sem ousar movimentos, e um silêncio de morte tinha-se instalado no barco. Todos não… que Mar (o diminutivo que usavam para chamar Mardemorte) continuava desperto e vigilante, sentado na proa, de olhos bem abertos a perscrutar o horizonte. Há horas que não nos movíamos nem um milímetro e José, o meu companheiro de viagem começou a exaltar-se e quebrou o silêncio com agressividade, questionando Mestre Josenias sobre a necessidade de fazer alguma coisa, querendo saber onde paravam os remos e sobretudo muito enervado com a passividade de todos.
- Não tem remos no barco. A gente não rema contra a vontade do mar… a gente espera… - disse calmamente o Mestre deitado junto ao leme, sem abrir os olhos.
- Mas que merda é esta? Assim vamos morrer todos! Estamos aqui há horas parados, quase sem água, sem comida e eu preciso chegar esta tarde à Ilha – continuou o José cada vez mais exaltado, enquanto eu me mantinha imóvel, agora com a cabeça descoberta mas quase sem respirar.
- Nada! Aqui só vão morrer dois e tem muito tempo ainda – disse subitamente Mar, desviando os olhos do horizonte e voltando-se para trás.
- Que raio…? Mas… ouviram isto? Tu não me enerves fedelho! – disse o José lançando-se na direcção do Mar como se o fosse atirar borda fora.
- Calma! – Disse-lhe a irlandesa num português cheio de sotaque, agarrando-lhe o pulso e fazendo sinal com a cabeça para olhar em volta pois os três ajudantes de Mestre Josenias tinham despertado da sua hibernação e fitavam o José com ar ameaçador.
- Sossegue patrão, que o tempo já não está nas nossas mãos. Gente agora tem de esperar, que o mar tem seus caprichos e suas razões. E não toque no Mar, que ele é nosso leme e nosso mapa nesta viagem. Ele nasceu no mar e nessa mesma noite o barco onde ia afundou levando todos os outros para o outro mundo. Só ficou Mardemorte, filho do mar e filho de toda a gente, como são as crianças na nossa terra – continuou sereno Mestre Josenias.
Contrariado José voltou a sentar-se ao meu lado. A irlandesa cobriu a cabeça com uma capulana e encostou-se no fundo do barco. Os homens voltaram a deitar-se. Mar contemplou novamente o horizonte. E eu vo
ltei a cobrir-me e a chorar baixinho como era meu hábito desde o dia em que decidi matar o José. De repente sentimos um movimento, a madeira rangeu ruidosa e o barco tombou e ficou deitado como se tivesse chegado exausto a um destino e não aguentasse nem mais um minuto em pé. Caíram-nos em cima as mochilas, os sacos de arroz, as cordas, caímos uns em cima dos outros e quando nos conseguimos levantar olhamos em volta e vimos areia até perder de vista. O mar tinha desaparecido e o velho barco estava agora encalhado no meio de um infinito deserto.(continua)
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