12/03/09

CONTRASTES E SINTONIAS


Não é fácil chegar completamente sozinha a um sítio desconhecido. É estranho e às vezes ainda acordo a pensar onde estou porque não reconheço nada à minha volta (e também porque acordo muito cedo e o meu cérebro ainda está parado, é verdade). De qualquer forma, há uma coisa que eu acho extraordinária: ficamos totalmente alerta e disponíveis. Absorvemos tudo o que acontece à nossa volta com voragem e damos conta de pormenores em que jamais repararíamos se tivéssemos a nossa atenção dispersa.
Uma das coisas que mais me tem chamado a atenção nestes dias de alerta é a diversidade. São coisas que todos sabemos na teoria, que eu me farto de ensinar em formações sobre interculturalidade mas nas quais raramente nos detemos a sério.
Estou feliz por ter escolhido o Quénia para o meu trabalho de campo. Da África subsariana só conhecia países lusófonos e ficaria para sempre com uma imagem distorcida do continente se não experimentasse outras realidades. Claro que os países lusófonos são todos diferentes, muito diferentes, mas partilham uma herança colonial e referências que os aproximam e que nos aproximam, a nós portugueses deles. Aqui tenho encontrado uma realidade muito diferente, desde a arquitectura (em Nairobi pelo menos, que é uma cidade com cerca de 100 anos apenas - em Mombassa e na costa já nos sentimos mais familiarizados), à língua, que é inglesa e dominada por uma mestiçagem que me tira do sério, aos pequenos hábitos quotidianos, aos códigos de comportamento. Mas hoje vi outra coisa… assim como se tivesse mudado de lentes e pudesse ver outras dimensões da realidade.
Já tenho um lugar de eleição no centro da cidade, o Centro Cultural da Alliance Française, que além de actividades excelentes tem um restaurante com esplanada num pequeno jardim encantador, resguardado do correrio do resto da cidade, ok! e tem café expresso e paninis e croissants e tartes de framboesa… adiante, e vou lá às vezes para ler, trabalhar e descansar. Hoje parei lá um par de horas pela tarde enquanto revia as últimas aulas de swahili e apercebi-me da música (que não costuma haver). Num canto do jardim um grupo de adolescentes tinha colocado colunas de som num computador portátil e presenteavam toda a gente com o último álbum do Justin Timberlake, ao mesmo tempo que ensaiavam uma coreografia do mais fiel hip hop e se divertiam com jogos de sedução próprios da idade. Desde o vestuário, ao comportamento, à música, tudo neles me fazia lembrar outros miúdos da mesma idade, portugueses e de outros lugares. Era uma banda sonora adequada (what goes around, goes around, goes around…) Noutro recanto mais afastado do jardim e mais resguardados e tímidos estavam outros miúdos a tocar violino e guitarra. Mais tímidos e recatados mas igualmente iguais a tantos outros miúdos de tantos lugares. Eu a estudar Swahili, eles a ser adolescentes. E que contraste com outros miúdos que encontrei ontem quando me perdi a pé numa zona menos “recomendável” da cidade. Miúdos maltrapilhos, que escolhiam objectos no meio de uma lixeira durante o horário em que deviam estar na escola e outros que carregavam mercadorias pesadas para os carros de gente grande que podia melhor com elas mas que não queriam sujar a roupa, e que olhavam com desconfiança para mim, que seguia segura e determinada como se soubesse exactamente para onde ia. Estes não devem conhecer o Timberlake, e não têm computador, nem roupas da moda, nem violinos. Os outros provavelmente não sabem que a alguns quarteirões de distância há uma lixeira nauseabunda que serve de mercado e parque de diversões. Uns pode pensar-se à primeira vista que saíram de qualquer grande cidade ocidental, os outros que poderiam ser de qualquer país africano. Na verdade são todos quenianos, vizinhos mesmo. Na verdade também há lixeiras no meu país.

10/03/09

NAIROBI... FINALMENTE!

Primeiras impressões

Depois de uma série de atrasos e atribulações ainda em Portugal, lá consegui chegar à capital do Quénia. Confesso que nunca viajei para nenhum lugar sobre o qual tivesse tão poucas referências e portanto, não sabia que a cidade ficava a apenas uns 150km do Monte Quénia, a segunda maior montanha de África, com mais de 5000m, uma das poucas situada junto à linha do Equador com glaciares permanentes. Foi com espanto e encantamento que ao chegar vi o Sol nascer sob a montanha, colada à janela do avião.

E esta foi apenas a primeira surpresa boa da viagem. A cidade conquistou-me desde a primeira hora. O trânsito intenso e a poluição rodoviária são atenuados por uma camada de verde difícil de comparar. A cidade está cheia de parques e jardins com árvores magníficas e flores por todo o lado e está rodeada por floresta, o Parque Nacional de Nairobi. As ruas e avenidas estão ladeadas por árvores também, o que torna qualquer passeio agradável e menos penoso com os mais de 30º que se fazem sentir durante o dia. E quando os jacarandás florirem a cidade vai explodir de azul e eu não saio daqui até ver esse fenómeno! A cidade até tem um “Beautification Program” e campanhas ecológicas e de reciclagem o que demonstra uma séria preocupação com a preservação e embelezamento do espaço urbano. Está-se muito bem aqui! E dizem que a época da chuva está muito atrasada e que ainda vai chegar. Eu, sinceramente, não consigo imaginar o que vai acontecer. Se isto é assim com a seca… Por outro lado Nairobi é também uma cidade cosmopolita, com uma grande concentração de estrangeiros de toda a África e de outros continentes, o que significa que somos todos cidadãos anónimos no meio da multidão multicultural. Há restaurantes da Etiópia e do México, há o centro cultural da Aliance Française e o centro cultural do Irão, há multiplexes de cinema, teatros, salas de espectáculos e lugares de diversão para todos os gostos. Até há o Cristinao Ronaldo em outdoors por toda a cidade a fazer publicidade à Rádio Jambo. Enfim… há um mundo de coisas a explorar. As deslocações também são fáceis pois há muitos transportes, para todos os gostos.
Quanto ao meu alojamento, não poderia estar melhor, pelo menos nesta fase inicial em que não conheço nada nem ninguém. O Albergue é uma espécie de oásis na cidade, rodeado de jardins e tranquilidade, na zona do “Hill” junto aos ministérios e embaixadas, a apenas 20min a pé do centro da cidade. Perfeito!
As pessoas são, na sua maioria, simpáticas e muito prestáveis. O meu único problema, por enquanto, é o facto de me custar imenso compreender a pronúncia local do inglês e estou a ficar preocupada com o risco de apanhar este sotaque, em que “warm” soa a “one”, “hope” soa a “hópi” e por aí em diante. Ok, o café também é muito mau (café aqui é Nescafé) e alguns hábitos britânicos que subtilmente se entranharam no quotidiano são esquisitos, como a mania de meter leite em tudo. Mas são apenas pequenos pormenores.


Primeira aula de Kiswahili

Foi hoje, e a partir de agora tenho 4h diárias de aulas de língua e cultura swahili, logo pela manhã e durante as próximas semanas. Começo a perceber de onde vem a pronúncia que me soa tão estranha do inglês. O swahili é uma língua banto e a mais falada na África oriental, sendo língua nacional no Quénia e na Tanzânia e falada por vários grupos étnicos em toda a região. Decidi aprender a língua por vários motivos: primeiro porque me vai ajudar imenso a comunicar quando estiver em zonas rurais a fazer trabalho de campo, em segundo lugar porque é uma boa maneira de começar a conhecer pessoas, a ter rotinas diárias e a conhecer a cultura local. E depois também porque é uma língua encantadora… tão diferente de todas as que conheço, com imensas influências árabes e de todos os povos colonizadores da região, inclusive até alguma influência do português. “Visuri sana!” (é muito fixe!). Foneticamente tem palavras e expressões fantásticas como “Mimi ni Mreno” (Sou portuguesa) ou “ Tutaonana” (Até logo!). Vai ser uma aventura!
Kwareri tutaonana
(Adeus e até breve!)