18/08/09

ÁFRICA MINHA

No meio de tantas notícias más e sérias e depois dos últimos posts mais pessimistas, hoje vou esquecer os problemas do mundo e partilhar convosco outra coisa.
Finalmente encontrei o que tanto ansiava. É difícil de explicar, é algo que se sente. Basicamente é aquilo que me faz querer voltar a África quando estou longe. Estou muito mais feliz!
A viagem de Nairobi para Kisumu durou umas 7h. Éramos 4 mulheres num Rav4 pois vim de boleia com 3 freiras do convento onde estou hospedada (a residência da minha primeira melhor amiga, que conheci nas aulas de Swahili) e entre muito boa disposição e risota fomos parando vezes sem conta pelo caminho, para comprar queijo (queijo, no Quénia, imaginem!!!), para comprar frutas, hortaliças e sei lá que mais aos vendedores de beira de estrada, que colam a mercadoria e a cara aos vidros do carro impedindo-nos de sair para fazer as compras. É preciso lutar com determinação e querer muito os produtos para se conseguir sair e comprar qualquer coisa. Foi portanto, com 4 mulheres, muitas malas e comida que atravessamos uma das partes mais belas do país. A viagem é emocionante! Passamos pelo Rift Valley, por parte da floresta Mau, por quilómetros e quilómetros de plantações de chá, por outros tantos de plantações de cana de açúcar e de arroz, por montes e montanhas e vales até que, chegamos finalmente ao lago. Se bem que Kisumu é geograficamente uma baia é possível, mesmo assim ter uma ideia da dimensão. Parece mar, sem fim e a janela do meu quarto está virada para lá.
Hoje foi o primeiro dia de trabalho. Era preciso começar a visitar as organizações de Comércio Justo locais. Na internet nenhuma delas tinha endereço físico e resolvi ir ao mercado de artesanato a ver se alguma banca pertencia a estas organizações para me indicarem onde ficavam as instalações e oficinas. Foi logo à primeira. Uma chamada telefónica da menina da banca e meia hora depois tenho a directora de uma delas a chegar de carro para me levar em visita. Resumindo o que a trabalho diz respeito, a coisa correu tão bem que esta vai ser um dos meus casos de estudo e já está tudo organizado para a minha estadia.
Mas a forma como cheguei a esta organização foi apenas o prelúdio daquilo que o dia me reservava. Na primeira viagem que fiz de matatu, duas raparigas que iam no banco atrás de mim, batem-me no ombros, tocam-me no cabelo e entre rizinhos perguntam-me se os meus caracóis são verdadeiros… podia ter levado a mal, é verdade! Mas não, antes ri-me com elas, apresentamo-nos e nunca mais pararam de me fazer perguntas, ao ponto de dar por mim a explicar a toda a gente dentro do matatu o que era o Comércio Justo e a distribuir abraços à saída, para além de ter ficado com o telefone das moças e prometer visitar a casa delas qd tiver oportunidade. Entretanto, porque precisava de voltar á mesma organização de tarde, resolvi apanhar um tuk tuk que se perdeu no meio da cidade porque cismou que ele, e não eu, é que sabia como chegar ao local. Típico! O que não é típico é ele chegar ao destino perdido de riso por eu saber o caminho e ele não e fazer um desconto no preço pela incompetência dele e pela simpatia minha.
Já pelo fim da tarde, a chover torrencialmente, e a caminho do convento que fica uns quilómetros fora da cidade e requer matatus interurbanos, pergunto a uma rapariga qual o matatu certo para o meu destino e ela resolve levar-me lá, contra a direcção da viagem dela e oferece-se para me pagar a viagem. (Dizia ela que sempre que vai a Nairobi fica tão perdida e ninguém a ajuda, que quando pode dá sempre uma mãozinha a quem vem de fora) Estes matatus interurbanos, não têm controlo de lotação e além de mim viajavam lá dentro mais 19 pessoas, ao que somavam dois sofás no tejadilho e as almofadas dos mesmos distribuídas pelos passageiros. Só hoje conheci mais gente, falei com mais estranhos e tive mais demonstrações de generosidade e simpatia do que ao longo dos últimos meses em Nairobi, onde as pessoas só se aproximam para mendigar ou para tentar extorquir dinheiro. Para além do factor humano fundamental, em Kisumu parece Verão, com 30º de calor húmido e está sol. Foi o dia mais produtivo e provavelmente mais feliz que tive desde que cá estou!

14/08/09

AS MUDANÇAS À MINHA PORTA

Ultimamente parece que o mundo está a mudar a uma velocidade alucinante, à frente dos meus olhos, enquanto eu estou sossegadamente sentada no meu sofá, como se estivesse a ver um filme em modo acelerado.
Uma grande parte das coisas que tenho lido e aprendido sobre as mudanças climáticas, a pressão demográfica e o desenvolvimento parece que teimam ultimamente em sair dos livros e materializar-se aqui. Em alguns casos é fascinante, noutros é assustador, mas em ambos os casos fico com a sensação de viver num laboratório.
Por exemplo, apesar de as mudanças climáticas serem evidentes em todo o mundo e de termos acesso a informação sobre o que se se passa por todo o lado, nesta região de África começam a sentir-se consequências ambientais, económicas e sociais que ainda não se sentem na Europa, pelo menos de forma tão óbvia. No corno de África e na região dos grandes lagos, o aquecimento global traduz-se numa enorme redução da precipitação anual, que se tem vindo a sentir há alguns anos e que agora resulta numa seca intensa. A seca origina perda de colheitas, redução do caudal dos rios, baixa do nível dos lagos ou mesmo desaparecimento de alguns e isso põe em perigo o equilíbrio dos ecossistemas, a segurança alimentar, a biodiversidade e a paz social. Agora que a seca também se sente intensamente na capital, onde a electricidade é racionada e a água também, multiplicam-se as notícias sobre o impacto económico daí resultante (com negócios e empresas afectados e aumento do desemprego) e outros, que me pareciam ainda mais distantes como o facto de numa região de forte implementação da pastorícia, a perda de pasto levar os pastores a invadir terrenos agrícolas para alimentar os animais. Ora sendo a divisão das actividades laborais muito marcada etnicamente (entre pastores e agricultores) estas tensões sociais podem acender o rastilho do sempre latente conflito étnico.
A fome é um facto em muitas regiões do Quénia e nos países vizinhos. As lutas internacionais, regionais e étnicas pelo acesso e domínio da água também. As novas doenças e epidemias, como a gripe suína já chegaram e atingiram crianças de uma escola primária isolada, sem ninguém perceber como. Por entre um não acabar mais de problemas e consequências nefastas, multiplicam-se também os esforços para os solucionar e atenuar. O governo do Quénia criou um programa de emergência para apoio alimentar às regiões mais afectadas e isoladas, com a ajuda dos militares. A Cruz Vermelha do Quénia e outras organizações locais fazem recolha de alimentos nos supermercados e apelam à solidariedade nacional. Apesar de todas as organizações internacionais e do Apoio do Programa Alimentar Mundial (muito insuficiente) é bom ver os quenianos a tentar resolver os seus problemas.
A reflorestação e protecção dos ecossistemas está na boca do mundo, é tema de conversas de café e título de todos os jornais. O Presidente resolveu ontem promulgar a prisão imediata de todos os "settlers" da floresta Mau que não abandonem os seus terrenos (há um esquema de compensação para quem provar a propriedade das terras), mesmo sabendo que muitos são familiares e amigos de Membros do Parlamento e de gente muito importante. Claro que a transição para a reflorestação da floresta deveria ter sido feita com tempo e ter uma forte componente educacional (os agricultores habituados à técnica do "cortar e queimar" floresta para cultivar vão continuar a faze-lo noutro lugar) mas de alguma forma está a ser feita e isso já é positivo.
E num contexto de profunda injustiça social e económica onde a consciência social e de cidadania quase não existe, onde as pessoas fazem muito pouco para se defender a si próprias e parecem preferir esperar pela intervenção divina, foi lindo, ontem ligar a televisão e ouvir centenas de trabalhadores da Kenya Airways, a horas de iniciarem uma greve nacional depois de falhadas as negociações do sindicato com a companhia, a cantar "the people united cannot be defeated".
O Quénia é um belo lugar para assistir de camarote ao bom e ao mau dos nossos tempos. É como ver o mundo a mudar mesmo à minha porta.