11/08/09

BANCO DAS MULHERES

Inaugurou há cerca de quinze dias, em Dar-es-Saleem, na Tanzania, e já é um sucesso. É sabido e vem nos livros que um dos entraves ao desenvolvimento em África é o facto de a banca ser pouco flexível, estar mergulhada em burocracia e não dispôr de produtos financeiros inovadores de acordo com o contexto local para promover o investimento e a poupança dos cidadãos africanos. O Banco das Mulheres (literalmente Women's Bank) vem preencher esta lacuna e tem por objectivo alargar a sua presença a outro países africanos. Após anos de espera pelo licenciamento e apoio público, um grupo de mulheres, cientes das suas especificidades e necessidades, conseguiu finalmente concretizar este projecto. Porque as mulheres têm geralmente menos capacidade de oferecer garantias bancarias, uma vez que raramente detêm a propriedade da terra ou possuem empregos assalariados com remuneração regular, mas possuem uma enorme capacidade de trabalho e oferecem mais confiança no pagamento de crédito (demonstrado por vários estudos sobretudo relativos ao micro-crédito), assim como uma maior capacidade de gestão da riqueza (afinal são elas que de muito pouco fazem muito para alimentar as suas famílias), o Banco das Mulheres nasceu para elas. Para abrir uma conta basta apresentar um documento de identidade e depositar 2USD, para financiar os seus projectos basta apresentar ao banco as suas ideias e necessidades e negociar, caso a caso, cada pedido de crédito para o qual o banco dispõe de uma série de produtos de micro-crédito inovadores. Uma vez que as mulheres que mais necessitam destes serviços à medida, são as que vivem em meios rurais e mais isoladas, o Banco das Mulheres prevê a abertura de inúmeras pequenas filiais nas localidades mais pequenas assim como a criação de um serviço de apoio ao cliente e de operações bancárias disponível por telefone, a baixo custo e abrangendo todo o país numa primeira fase.
O Banco das Mulheres, existe já em muitos países onde, à semelhança do que aconteceu com o Gramen Bank, disponibiliza uma série de produtos inovadores e adaptados às realidades locais, com resultados excelentes, como no caso do Sri Lanka ou da Índia. Em África esta é a primeira experiência.

06/08/09

Breves do Burgo

Seca A seca está a atingir proporções alarmantes no Quénia e a fazer-se sentir no dia-a-dia da grande cidade. Há muito que no norte, mais árido e desértico, as pessoas e os animais morrem de fome. Aparecia uma notícia ou outra sobre o assunto, mas ninguém parecia preocupar-se muito... era longe, o norte é como se fosse outro país.
O problema começou a ser levado a sério quando as consequência chegaram a Nairobi. O nível de água nas barragens é muito baixo e estamos a ter água e electricidade racionada, alternadamente em diferentes zonas da cidade. Os pobres, nos bairros de lata, não têm água hà muito tempo e poucos tinham electricidade, mas nas zonas mais ricas começaram a cortar a electricidade 2 dias por semana e a água 3 dias por semana. Entretanto, já se assiste a um dinâmico negócio de venda de água nos bairros mais pobres, caríssima e preveniente não se sabe bem de onde. Os animais selvagens, como o hipopótamo estão em perigo em muitas zonas, as colheitas e a segurança alimentar também. Eu estou a viver num condomínio bom onde fico regularmente sem água e energia mas mesmo assim há quem continue a ter campos de golfe e jardins verdejantes e há quem esteja a ganhar dinheiro ilícito com os problemas dos outros.

Pena de morte Está em discussão a nível nacional, desde que o Presidente resolveu intervir e suspender o cumprimento da pena aos cerca de 4000 condenados. Ainda me custa acreditar que é preciso ter esta discussão e fico sempre triste quando vejo a população a favorecer tal barbaridade. Eu, há que dize-lo, é a primeira vez que vejo o senhor Kibaki a fazer algo de jeito.

Hillary Clinton A senhora esteve cá ontem para discursar numa conferência da AGOA. Foi uma emoção. A cidade parou. As mordomias foram muitas. Na falta de visita oficial do Filho Pródigo (ou seja, o Obama, que é tão visto como um queniano, que o outro dia um taxista me dizia "Eu sou de perto de Kisumu, da mesma terra do Obama!"), a visita da senhora foi o mais perto que os quenianos tiveram de reconhecimento por parte dos EUA. Estava tudo a correr muito bem, a fogueira de vaidades no seu auge, até a senhora subir ao palco para discursar e criticar o Quénia e o governo queniano. As críticas dispararam em todas as direcções, desde a falta de vontade política em levar a tribunal os responsáveis, já identificados, pelos massacres na crise pós-eleitoral, passando pela corrupção gritante do país. Foi um discurso prepotente, à americana, mas foi bem feito! Não que lhe reconheça autoridade moral para o fazer, mas porque já não aguento com esta Obamite, a doença que alastrou no país e que levou os quenianos ao absurdo. Pode ser que agora a coisa lhes passe!

A Floresta MAU. É um caso bicudo. Uma das maiores florestas do país, um dos pulmões do Quénia, fundamental para o equilíbrio ecológico de uma grande região, está praticamente destruída devido à ocupação (legal e na maior parte das vezes ilegal) de terras para exploração agrícola. A discussão nacional é acesa: é preciso proteger e reflorestar MAU para acautelar os efeitos do aquecimento global e para tal expropriar os ocupantes. Claro que os maiores proprietários de terra florestal são membros do parlamentos e das famílias reais. Obviamente quem está em vias de perder as terras são os pequenos agricultores. E no meio disto a discussão esvazia-se de sentido e a educação ambiental que poderia ter aqui um mote perfeito esmorece.