29/11/07

Catwomen

A noite caía rapidamente sobre a cidade. Em poucos minutos a luz amarela dos candeeiros de ferro substituiria o sol e as sombras tomariam o lugar das árvores, dos edifícios, dos vultos, das estátuas de anjos e das lápides do cemitério. Dentro de pouco tempo apenas as velas a arder, com as chamas intermitentes e açoitadas pelo vento frio do Inverno pareceriam ter vida naquele lugar.
O guarda fazia a ronda habitual para se certificar que todos tinham saído e que podia fechar o cemitério. Só se ouviam os passos dele a percorrer o labirinto de caminhos sem saída. Sem um único ruído e sem aviso, algo saiu de traz de uma lápide lançando-se no ar mesmo à frente do guarda, para cair do outro lado do caminho e desaparecer de imediato por entre as sombras do mar de velas que se abria do lado esquerdo.
- Aghhh! Raios… malditos gatos! – gritou e praguejou o homem, tentando recompor-se do susto – Não admira que andem a envenenar esta bicharada toda. Parece uma praga!
E apressou-se na ronda para sair dali o mais rapidamente possível.

- Pretinha! Onde estás? Anda comer… olha as coisas boas que te trouxe hoje – chamou a D. Cininha baixinho, a sussurrar, enquanto abria um saco de plástico e retirava uma lata de comida para gatos.
- Linda… isso… anda papar que a Cininha não te faz mal. Isso, linda menina… é bom, não é? Vocês não podem comer sempre comida seca, têm de papar desta também… hummmm tem um cheirinho… papa tudo Pretinha, tudo, que estás muito magrinha.
A Pretinha era a grande preocupação da D. Cininha. Há muitos anos que diariamente alimentava e protegia todos os gatos do bairro. À sua passagem os pequenos felinos saíam dos seus esconderijos para a cumprimentar, para lhe roçarem as pernas, para lhe seguirem os passos na esperança dela lhes dar petiscos e mimos. Todos, menos a Pretinha. Essa nunca se aproximava, só vinha comer depois de todos terem desaparecido e a D. Cininha tinha desenvolvido uma teoria para justificar este estranho comportamento. Ela achava que a gatinha tinha sido muito maltratada por alguém, de forma tão vil que ficou traumatizada e se recusava a aproximar-se das pessoas. Era uma mulher doce, a D. Cininha, muito serena, franzina, com o cabelo todo branco e o rosto bem sulcado pelo tempo, que passou por ela sem generosidade.
- Então e os outros meninos, onde andam eles, pequenina? – perguntou curiosa, enquanto observava a gata a comer mantendo alguma distância respeitosa. – Os da rua de traz já comeram, passei por lá antes de vir para casa. Havias de ter visto a Malhada! Já está boa da operação. Está linda, com o pêlo brilhante, parece uma rainha… que foi? Não queres mais? Paraste de comer… que se passa, meu amor?
Num ápice, a gata desapareceu na noite e a D. Cininha começou a ver outros gatos a aproximarem-se.
- Ai, Valha Deus que aquela bichinha é tão medrosa… Vá lá que comeu quase tudo hoje – inquietou-se. – Venham meus queridos, venham à mamã, olhem as coisas boas que vos trouxe hoje para o jantar – disse ela para os gatos que lhe rodeavam as pernas e que a olhavam expectantes.

- Bom dia D. Cininha! Como estão os seus meninos?
- Ó D. Aninhas, ando tão preocupada com a minha Pretinha… ela anda tão magrinha. Tenho medo que se não comer bem depois acabe por comer porcarias e tocar em alguma coisa envenenada.
- Pois é… já viu que coisa medonha. Quem é que tem coragem de matar assim os bichinhos. Eu também ando com o coração nas mãos por causa dos meus D. Cininha. É certo que a minha zona ainda é longe do cemitério, mas vá-se lá saber… com um criminoso desses à solta. Olhe quem vem lá… - interrompeu - … D. Tininha, então a senhora está boazinha? Vem para a nossa beira hoje?
- Bom dia senhoras. Vim saber desse assassino dos bichos. Há dois bichanos que não me aparecem há que tempos e não foram às gatas senão já tinham voltado.
- Ai D. Tininha, que até se me dá um aperto no peito só de pensar nesse malvado – disse a D. Aninhas muito perturbada.
- Hoje até vinha a notícia no jornal – afirmou a D. Cininha – quase todos os dias têm encontrado gatos mortos aqui no cemitério. Ninguém imagina quem andará a fazer tamanha maldade, mas eu vou descobrir… ai se vou!
- Olhem, vem aí o Sr. Freitas, o guarda… será que ele sabe de mais alguma coisa? – perguntou a D. Aninhas, encaminhando-se rapidamente para ele.
- Bom dia, minhas senhoras – cumprimentou o guarda a sorrir -, como está a Comissão de Defesa dos Gatos?
- Lá está o senhor Freitas a brincar com a gente. Olhe que andamos bem aflitas com esta história dos gatos envenenados. Não há direito! Até pode não se gostar dos bichos, mas não é preciso fazer-lhes mal, meu Deus – disse a D. Aninhas indignada. – Já sabem de mais alguma coisa?
- Olhem, eu estou convencido que o assassino dos gatos mora cá no cemitério – afirmou peremptório o guarda, enquanto se benzia; – têm acontecido para aqui umas coisas muito estranhas, barulhos na noite, restos de comida, coisas partidas e fora do sítio… Só vos digo que tem de ser uma alma do outro mundo, que eu não saio daqui sem vasculhar o cemitério todo e nunca cá vi ninguém.
As três mulheres ficaram em alvoroço, incrédulas com tamanha insanidade e depois de tentarem chamar o guarda à razão, de lhe fazerem ver o disparate daquela ideia, lá voltaram costas e seguiram pela rua principal do cemitério, de braço dado.

- Pretinha, onde estás? Anda, minha pequenina… anda papar – gritava a D. Cininha, para fazer-se ouvir no meio daquele temporal.
A chuva e o vento cortante a salpicar a lama dos caminhos, a curvar as copas das árvores e a fazer voar jarras, lamparinas e flores tornavam aquela tarefa muito mais difícil. A pobre mulher, coberta por um poncho impermeável, mas completamente encharcada, de saúde débil, percorria o cemitério com a ajuda de uma pequena lanterna que mal lhe iluminava os passos. O vento silvava com fúria e não havia sinais dos gatos, nem de vivalma nas redondezas. A D. Cininha, dando-se por vencida, atou o saco plástico da comida ao pulso, apertou com mais força o poncho junto ao pescoço, para se aconchegar, e seguiu a custo para casa, curvada, a tentar iluminar o caminho e a respirar com dificuldade.
Depois de atravessar a avenida, onde ainda havia alguma luz, dirigiu-se para o caminho estreito e escuro que levava ao pequeno beco onde morava. A chuva intensificou-se e não deixava ver nem um palmo à sua frente quando de repente, ouviu miar e sentiu o desconforto do pêlo molhado a roçar-lhe as pernas. Era a Malhada, que seguia à sua frente a miar para lhe mostrar o caminho de casa. Quando chegou ao fim do beco onde morava subiu o primeiro degrau e apoiou-se numa saliência da parede granítica, escorregadia, para abrir o ferrolho do portão de ferro. Um relâmpago iluminava as trevas da noite quando a D. Cininha conseguiu a custo abrir o portão e arrastar-se ofegante para dentro. Cambaleou um pouco e acabou por cair no chão, encostada a uma das paredes. Tirou a custo o poncho encharcado, puxou uma manta para se aquecer e esticou o braço para alcançar um retrato do filho que abraçou junto ao peito, ao mesmo tempo que fechava os olhos e tentava superar a dor que sentia e a dificuldade em respirar.

- Bom dia Sr. Freitas – disse a D. Tininha ao entrar no cemitério de braço dado com a D. Aninhas. – Já se sabe mais alguma coisa sobre o assassino dos gatos?
- Ó minhas senhoras! Ó valha-me Deus, nem imaginam o que por aqui se passou! Eu nem estou em mim…. Isto tem estado uma desgraça desde que aqui cheguei hoje cedo – afirmou o guarda muito agitado e nervoso. – Já sabemos quem envenenava os gatos! As senhoras nem imaginam… nem imaginam!
- Credo, você está a deixar-me nervosa também. Diga lá de uma vez por todas… mas… o que é que aconteceu por aqui? – perguntou a D. Aninhas.
- A outra senhora que costuma andar com vocês, que mora aqui perto e que tem o hábito de dar de comer aos gatos… apareceu morta, dentro do cemitério esta manhã.
- Ai valha-me Deus, pobre D. Cininha, como é que pode ter acontecido uma coisa dessas? Como é que ela ficou aqui dentro a noite toda, ainda por cima, com aquele temporal de ontem… ai coitada da pobre… como é que isto foi acontecer? – interrogou-se a D. Tininha enquanto amparava a D. Aninhas e a ajudava a sentar-se num banco.
- Já veio a judiciária e tudo… ele há coisas que ninguém imagina! Então não é que a D. Cininha vivia aqui dentro do cemitério? É verdade! É verdade – repetiu ele perante o olhar incrédulo das duas mulheres. - Descobriu-se que ela vivia no seu jazigo de família, um dos mais imponentes do cemitério, que fica na ala este, num canto afastado e escondido. Foi um dos coveiros que descobriu o corpo dela de manhã cedo. Viu o portão do jazigo aberto, foi espreitar e deu com o corpo da senhora estendido no chão, já sem vida – explicou o guarda.
- Mas Sr. Freitas ela vinha visitar o jazigo todos os dias. Era lá que estavam o marido e o filho, deve ter acontecido alguma coisa para ela ter ficado presa lá dentro… mas por amor de Deus, daí a viver lá… - afirmou a D. Aninhas muito consternada.
- Pois é minha senhora, mas a sua amiga tinha dentro do jazigo tudo o que precisava para viver: cobertores, lanterna, comida, objectos pessoais e um armazenamento de comida para gatos que nem imaginam… só não percebo porque é que ela os envenenava.
- Ai, não posso crer! A D. Cininha era incapaz de fazer mal aos bichos. Era tudo o que ela tinha desde que o filho morreu há uns anos. Era a única companhia dela e ficou completamente sozinha… os gatos eram a sua família, Sr. Freitas, pode lá ser uma coisa dessas? – explicou a D. Tininha.
- Não sou eu que digo, minhas senhoras, é a polícia. Chegaram à conclusão que a senhora devia estar mal da cabeça e que lhe deu para isto… Encerraram o caso – afirmou o guarda. – E olhem, por falar neles, vêm aí com o corpo… deixem-me ver se precisam de alguma coisa… ai que dia, minhas senhoras… que dia!

Ficaram as duas muito chocadas a olhar a cena. Um grupo de polícias a aproximar-se, com um cadáver coberto numa maca, uma pequena multidão a juntar-se, um dos coveiros a avançar na direcção deles com uma sachola ao ombro e um saco de lixo cheio na mão e a Pretinha a saltar de traz de uma lápide para a Avenida e a Malhada a saltar de uma árvore e os gatos a aparecerem todos, um por um, vindos dos quatro cantos do cemitério… e ainda ninguém tinha dado pela presença deles, além das mulheres que observavam de mais longe, quando de repente, como se um maestro comandasse na perfeição uma orquestra de dezenas de gatos, estes se lançaram em uníssono sobre o coveiro, que entretanto estava no meio da pequena multidão. As pessoas fugiram aos gritos enquanto o homem rolava pelo chão e tentava tapar a cara para se proteger do ataque dos gatos. Os polícias deixaram cair a maca com o cadáver e ficaram perplexos a ver aquela cena. Ninguém podia aproximar-se para ajudar o pobre homem que estava completamente ensanguentado, sem ser atacado também. Quando o homem perdeu as forças para se mexer, os gatos pararam repentinamente, mas as pessoas, perplexas, continuaram imobilizadas a olhar e então, a Pretinha saiu de cima dele e atirou-se ao saco do lixo com as unhas até o conseguir rasgar. Quando o saco se desfez podia ver-se lá dentro comida para gatos suficiente para alimentar toda a comunidade do cemitério e um saco de veneno para ratos, que entretanto escorregou para fora e ficou à vista de toda a gente. Nessa altura, a Pretinha e os outros gatos abandonaram o homem em farrapos, aproximaram-se da D. Cininha e deitaram-se sobre ela e a toda a volta como se estivessem a velar o corpo.

- Podia lá ser, D. Aninhas? É que não lembrava ao Diabo, a pobre da nossa amiga andar para aí a matar os gatos! – disse muito séria a D. Tininha.
- Que disparate! Nunca tinha ouvido nada mais estúpido. Mas viu o que os pequeninos fizeram? Como desmascararam o traste do coveiro? Ai, D. Tininha estou tão comovida… a Cininha, onde quer que esteja, deve estar cheia de orgulho nos meninos dela.
- Vamos, minha amiga, vamos embora que aqui, já não há mais nada para ver… vamos embora que a partir de hoje temos muito mais trabalho… vamos ter de nos organizar para dar de comer aos gatos do cemitério – disse a D. Aninhas, enquanto se levantava e dava o braço à amiga para saírem juntas e voltarem as costas àquela cena trágica.

29/10/07

Super Catarina

Para a Catarina que faz seis anos hoje

A festa de aniversário acabou e estava na hora de ir dormir. Tinha sido um dia cheio de surpresas e coisas boas. Mal a Catarina deitou a cabeça na almofada adormeceu, de tão cansada que estava depois de passar o dia a correr, a brincar, a abrir prendas e a comer coisas boas. Mas passado pouco tempo e apesar do cansaço, começou a sentir frio e acordou. Os cobertores tinham levantado voo e esvoaçavam de um lado para o outro do quarto. Ela não achou piada nenhuma. Tinha sono e frio e queria dormir e por isso mal um dos cobertores passou perto dela, agarrou-o com força para o obrigar a voltar para a cama. Mas qual quê? O cobertor ganhou ainda mais velocidade e quando a Catarina deu fé voava também pelo quarto fora sem conseguir pôr os pés no chão até que, de repente, o cobertor pairou sobre a cama e caiu atirando com ela para o colchão.
- Cobertor, pára quieto! Quero dormir! – disse-lhe a Catarina muito séria a ver se ele se deixava de brincadeiras.
“Parabéns a você! Parabéns a você!…” Alguém cantava no quarto com uma voz linda, muito suave e alegre. Mas, estranhamente não se via ninguém. A Catarina, sentada no meio da cama, olhava de um lado para o outro a tentar perceber de onde vinha aquela vozinha, mas não via nada.
- Ei! Estou aqui em baixo, sentada no teu joelho, olha para mim! – gritou a vozinha.
Era uma linda fada, das que voam e são pequeninas, com um vestido azul comprido que esvoaçava quando ela voava e os cabelos loiros muito compridos.
- Catarina, sou a tua fada dos sonhos e hoje estou aqui por um motivo muito especial – disse ela com ar divertido.
- Uma fada! Que fixe!... Onde está a tua varinha de condão? – perguntou a Catarina intrigada.
- Isso já não se usa, miúda! Andas a ler contos de fadas muito antigos. Agora o que está na moda são os sopros de estrelas. Eu sopro na tua direcção e atiro-te com milhares de estrelinhas à cara para fazer cumprir os teus desejos – informou a fada.
- E posso pedir o que eu quiser!? – diz a Catarina a bater palmas de contente.
- Não! Nada disso! Hoje é um dia muito especial, fizeste seis anos. E todos os meninos, na noite em que fazem seis anos são visitados pela sua fada dos sonhos para escolherem um super poder.
- E posso escolher o que eu quiser?
- Não! Nada disso! Hoje vais experimentar cinco super poderes durante a noite e de manhã, antes de acordares, vais ter de escolher um que vai ficar contigo para sempre e fazer de ti uma menina muito especial – disse a fada enquanto batia as asinhas delicadas e puxava os cobertores para cima da Catarina para ela adormecer.
A fada dos sonhos soprou e atirou com milhares de estrelinhas para o ar. A Catarina fechou os olhos e começou a ver-se no recreio da escola a brincar com os amigos. A fada segredou-lhe ao ouvido que o primeiro super poder que ela ia experimentar era a super força. Ia ficar tão forte que podia levantar as árvores só com uma mão. Então, ao fundo, começaram uma zaragata. Um grupo de meninos começou a empurrar e a bater em outros meninos que brincavam sossegados. Era hora de a super Catarina entrar em acção. Atravessou o recreio a correr e quando chegou perto do grupo agarrou nos braços dos dois meninos mais fortes que estavam a bater nos outros e muito zangada começou a girar com eles à volta e atirou-os ao chão. Só que ela tinha mesmo muita força e não estava habituada por isso quando os largou, os infelizes meninos voaram para tão longe que quando caíram no chão partiram três costelas, dois dedos, quatro dentes e não paravam de chorar. Enquanto todos batiam palmas à Catarina por ela ter sido tão forte e corajosa e por os ter defendido ela correu para os dois miúdos e começou a chorar quando viu que os tinha magoado tanto.
Nessa altura chegou a fada dos sonhos, voltou a soprar-lhe estrelinhas e segredou-lhe ao ouvido que o segundo poder ia transformá-la na menina mais inteligente do mundo. A Catarina estava então na sala de aula e a professora, mais à frente, ensinava muitas coisas novas. Sempre que ela tentava ensinar algo novo, enquanto todos os meninos ficavam entusiasmados por aprender, a Catarina dizia logo “Eu sei, eu sei, posso ir mostrar como se faz?” e passado pouco tempo os colegas já não a suportavam. Ela sabia tudo, não os deixava aprender, mais ninguém falava na aula e a professora já não sabia o que lhe havia de fazer. No fim do dia, a própria Catarina estava muito triste. Os outros meninos já não gostavam dela e ela já não gostava da escola porque era aborrecido não haver nada para aprender, não haver nada de novo.
Então a fada dos sonhos chegou, soprou-lhe estrelas mais uma vez e disse-lhe que o terceiro super poder ia permitir-lhe voar. Desta vez, na praia, a Catarina feliz da vida abre os braços, corre e levanta voo. As pessoas que a viam nem queriam acreditar. Como era possível uma menina voar assim? Que maravilha! E ela ria e ganhava cada vez mais velocidade com os cabelos a esvoaçar ao vento e acenava para as pessoas que na praia a olhavam maravilhadas. Foi então que de repente sentiu uma bicada na testa, uma grande confusão de penas e se desequilibrou. Distraída, sem estar habituada a voar e sem conhecer as regras de trânsito dos pássaros tinha atropelado um grupo de gaivotas que iam sossegadas a caminho do seu rochedo no meio do mar. Com o acidente e a atrapalhação, ouviram-se muitos gritos, soltaram-se muitas penas e a Catarina caiu estatelada no areal.
A fada dos sonhos aparece de novo e diz-lhe que o super poder seguinte ia fazer dela a menina mais doce do mundo, pois tudo em que tocasse ficava doce. Na cozinha, o pai prepara-lhe uma linda torrada com azeite e sementes de mostarda, mesmo como ela gosta e quando a Catarina pega nela e mete à boca começa a torcer o nariz porque lhe sabia a chocolate. A seguir vem para a mesa um belo rolo de carne, mas mal o mete na boca fica a saber a caramelo. Tudo o que ela experimentava fica a saber a doces e pelo fim do jantar já estava enjoada.
Mais uma vez, e agora a última, a fada dos sonhos chega ao pé dela, sopra-lhe estrelas e segreda-lhe ao ouvido que o quinto super poder a vai transformar na menina mais rápida do mundo. A correr a Catarina é mais veloz do que ninguém. Na escola a professora dá inicio a uma corrida e a Catarina sai disparada, mal se vê e atravessa a meta toda contente. Depois senta-se à espera que os outros cheguem, o que só acontece muito tempo depois. Na praia, a brincar com outros meninos, acontece o mesmo, chega sempre muito mais depressa que os outros e depois fica sozinha à espera. Até entrou num concurso e fez a mesma corrida vinte vezes só para não ficar sozinha mas depois também se cansou de chegar à meta e voltar ao início, e chegar à meta e voltar ao início e chegar à meta e voltar ao início e acabou por ficar, como sempre, à espera dos outros e nem sequer estava feliz por ter ganho porque já sabia que ganhava sempre.
Então a fada dos sonhos voltou, fez-lhe cócegas no nariz para ela acordar e perguntou-lhe com que super poder queria ficar. A Catarina sentou-se na cama ensonada e começou a pensar em voz alta.
- A força, não quero. É muito perigoso e posso magoar os outros meninos. A inteligência também não pois não tem piada nenhuma saber tudo; é bom aprender. Voar também não quero. É muito bom mas o céu é para os pássaros e podem haver muitos acidentes. A doçura enjoa e eu gosto de todos os sabores, não quero passar a vida a comer coisas doces, tudo com sabor a chocolate, caramelo, chantily… não, quero os sabores todos. E também não quero a rapidez. É aborrecido saber que vamos ganhar as corridas todas e não gosto de ficar sozinha à espera de toda a gente.
- E então não vais querer nenhum super poder? – perguntou a fada dos sonhos muito intrigada.
- Não! – disse muito séria a Catarina – Não quero ter super poderes, pensava que era mais divertido.
- Então vais ter de descobrir os teus próprios super poderes, aqueles que nenhuma fada te pode dar e que mais ninguém tem – disse a fada a sorrir para ela.
- Mas eu tenho super poderes? – perguntou a Catarina.
- Claro que tens, muitos. Toda a gente tem super poderes. Só tens de os descobrir. Tens de confiar em ti e descobrir os super poderes que fazem de ti uma menina tão especial, diferente de todas as outras. Tens de descobrir a Super Catarina.
E então a fada bateu as asinhas novamente e puxou os cobertores, soprou mais estrelinhas e disse baixinho “Bons sonhos e feliz aniversário!”.