29/10/07

Super Catarina

Para a Catarina que faz seis anos hoje

A festa de aniversário acabou e estava na hora de ir dormir. Tinha sido um dia cheio de surpresas e coisas boas. Mal a Catarina deitou a cabeça na almofada adormeceu, de tão cansada que estava depois de passar o dia a correr, a brincar, a abrir prendas e a comer coisas boas. Mas passado pouco tempo e apesar do cansaço, começou a sentir frio e acordou. Os cobertores tinham levantado voo e esvoaçavam de um lado para o outro do quarto. Ela não achou piada nenhuma. Tinha sono e frio e queria dormir e por isso mal um dos cobertores passou perto dela, agarrou-o com força para o obrigar a voltar para a cama. Mas qual quê? O cobertor ganhou ainda mais velocidade e quando a Catarina deu fé voava também pelo quarto fora sem conseguir pôr os pés no chão até que, de repente, o cobertor pairou sobre a cama e caiu atirando com ela para o colchão.
- Cobertor, pára quieto! Quero dormir! – disse-lhe a Catarina muito séria a ver se ele se deixava de brincadeiras.
“Parabéns a você! Parabéns a você!…” Alguém cantava no quarto com uma voz linda, muito suave e alegre. Mas, estranhamente não se via ninguém. A Catarina, sentada no meio da cama, olhava de um lado para o outro a tentar perceber de onde vinha aquela vozinha, mas não via nada.
- Ei! Estou aqui em baixo, sentada no teu joelho, olha para mim! – gritou a vozinha.
Era uma linda fada, das que voam e são pequeninas, com um vestido azul comprido que esvoaçava quando ela voava e os cabelos loiros muito compridos.
- Catarina, sou a tua fada dos sonhos e hoje estou aqui por um motivo muito especial – disse ela com ar divertido.
- Uma fada! Que fixe!... Onde está a tua varinha de condão? – perguntou a Catarina intrigada.
- Isso já não se usa, miúda! Andas a ler contos de fadas muito antigos. Agora o que está na moda são os sopros de estrelas. Eu sopro na tua direcção e atiro-te com milhares de estrelinhas à cara para fazer cumprir os teus desejos – informou a fada.
- E posso pedir o que eu quiser!? – diz a Catarina a bater palmas de contente.
- Não! Nada disso! Hoje é um dia muito especial, fizeste seis anos. E todos os meninos, na noite em que fazem seis anos são visitados pela sua fada dos sonhos para escolherem um super poder.
- E posso escolher o que eu quiser?
- Não! Nada disso! Hoje vais experimentar cinco super poderes durante a noite e de manhã, antes de acordares, vais ter de escolher um que vai ficar contigo para sempre e fazer de ti uma menina muito especial – disse a fada enquanto batia as asinhas delicadas e puxava os cobertores para cima da Catarina para ela adormecer.
A fada dos sonhos soprou e atirou com milhares de estrelinhas para o ar. A Catarina fechou os olhos e começou a ver-se no recreio da escola a brincar com os amigos. A fada segredou-lhe ao ouvido que o primeiro super poder que ela ia experimentar era a super força. Ia ficar tão forte que podia levantar as árvores só com uma mão. Então, ao fundo, começaram uma zaragata. Um grupo de meninos começou a empurrar e a bater em outros meninos que brincavam sossegados. Era hora de a super Catarina entrar em acção. Atravessou o recreio a correr e quando chegou perto do grupo agarrou nos braços dos dois meninos mais fortes que estavam a bater nos outros e muito zangada começou a girar com eles à volta e atirou-os ao chão. Só que ela tinha mesmo muita força e não estava habituada por isso quando os largou, os infelizes meninos voaram para tão longe que quando caíram no chão partiram três costelas, dois dedos, quatro dentes e não paravam de chorar. Enquanto todos batiam palmas à Catarina por ela ter sido tão forte e corajosa e por os ter defendido ela correu para os dois miúdos e começou a chorar quando viu que os tinha magoado tanto.
Nessa altura chegou a fada dos sonhos, voltou a soprar-lhe estrelinhas e segredou-lhe ao ouvido que o segundo poder ia transformá-la na menina mais inteligente do mundo. A Catarina estava então na sala de aula e a professora, mais à frente, ensinava muitas coisas novas. Sempre que ela tentava ensinar algo novo, enquanto todos os meninos ficavam entusiasmados por aprender, a Catarina dizia logo “Eu sei, eu sei, posso ir mostrar como se faz?” e passado pouco tempo os colegas já não a suportavam. Ela sabia tudo, não os deixava aprender, mais ninguém falava na aula e a professora já não sabia o que lhe havia de fazer. No fim do dia, a própria Catarina estava muito triste. Os outros meninos já não gostavam dela e ela já não gostava da escola porque era aborrecido não haver nada para aprender, não haver nada de novo.
Então a fada dos sonhos chegou, soprou-lhe estrelas mais uma vez e disse-lhe que o terceiro super poder ia permitir-lhe voar. Desta vez, na praia, a Catarina feliz da vida abre os braços, corre e levanta voo. As pessoas que a viam nem queriam acreditar. Como era possível uma menina voar assim? Que maravilha! E ela ria e ganhava cada vez mais velocidade com os cabelos a esvoaçar ao vento e acenava para as pessoas que na praia a olhavam maravilhadas. Foi então que de repente sentiu uma bicada na testa, uma grande confusão de penas e se desequilibrou. Distraída, sem estar habituada a voar e sem conhecer as regras de trânsito dos pássaros tinha atropelado um grupo de gaivotas que iam sossegadas a caminho do seu rochedo no meio do mar. Com o acidente e a atrapalhação, ouviram-se muitos gritos, soltaram-se muitas penas e a Catarina caiu estatelada no areal.
A fada dos sonhos aparece de novo e diz-lhe que o super poder seguinte ia fazer dela a menina mais doce do mundo, pois tudo em que tocasse ficava doce. Na cozinha, o pai prepara-lhe uma linda torrada com azeite e sementes de mostarda, mesmo como ela gosta e quando a Catarina pega nela e mete à boca começa a torcer o nariz porque lhe sabia a chocolate. A seguir vem para a mesa um belo rolo de carne, mas mal o mete na boca fica a saber a caramelo. Tudo o que ela experimentava fica a saber a doces e pelo fim do jantar já estava enjoada.
Mais uma vez, e agora a última, a fada dos sonhos chega ao pé dela, sopra-lhe estrelas e segreda-lhe ao ouvido que o quinto super poder a vai transformar na menina mais rápida do mundo. A correr a Catarina é mais veloz do que ninguém. Na escola a professora dá inicio a uma corrida e a Catarina sai disparada, mal se vê e atravessa a meta toda contente. Depois senta-se à espera que os outros cheguem, o que só acontece muito tempo depois. Na praia, a brincar com outros meninos, acontece o mesmo, chega sempre muito mais depressa que os outros e depois fica sozinha à espera. Até entrou num concurso e fez a mesma corrida vinte vezes só para não ficar sozinha mas depois também se cansou de chegar à meta e voltar ao início, e chegar à meta e voltar ao início e chegar à meta e voltar ao início e acabou por ficar, como sempre, à espera dos outros e nem sequer estava feliz por ter ganho porque já sabia que ganhava sempre.
Então a fada dos sonhos voltou, fez-lhe cócegas no nariz para ela acordar e perguntou-lhe com que super poder queria ficar. A Catarina sentou-se na cama ensonada e começou a pensar em voz alta.
- A força, não quero. É muito perigoso e posso magoar os outros meninos. A inteligência também não pois não tem piada nenhuma saber tudo; é bom aprender. Voar também não quero. É muito bom mas o céu é para os pássaros e podem haver muitos acidentes. A doçura enjoa e eu gosto de todos os sabores, não quero passar a vida a comer coisas doces, tudo com sabor a chocolate, caramelo, chantily… não, quero os sabores todos. E também não quero a rapidez. É aborrecido saber que vamos ganhar as corridas todas e não gosto de ficar sozinha à espera de toda a gente.
- E então não vais querer nenhum super poder? – perguntou a fada dos sonhos muito intrigada.
- Não! – disse muito séria a Catarina – Não quero ter super poderes, pensava que era mais divertido.
- Então vais ter de descobrir os teus próprios super poderes, aqueles que nenhuma fada te pode dar e que mais ninguém tem – disse a fada a sorrir para ela.
- Mas eu tenho super poderes? – perguntou a Catarina.
- Claro que tens, muitos. Toda a gente tem super poderes. Só tens de os descobrir. Tens de confiar em ti e descobrir os super poderes que fazem de ti uma menina tão especial, diferente de todas as outras. Tens de descobrir a Super Catarina.
E então a fada bateu as asinhas novamente e puxou os cobertores, soprou mais estrelinhas e disse baixinho “Bons sonhos e feliz aniversário!”.

28/10/07

Conto de Fadas

Está uma noite mágica, ambígua, iluminada. A Lua sempre me fascinou. Mesmo quando a Lua era apenas a Lua e não resplandecia com memórias. Sou uma mulher lunar. Estou sentada na varanda, a beber gin e a fumar um cigarro. Estou sozinha e olho o mar à minha frente, por trás do casario que desce até ao porto, por trás dos mastros de barcos que atravessaram o Atlântico para repousar aqui. E por trás do mar iluminado, quase dourado está a montanha imensa. Não tem luz própria como as estrelas, não reflecte a luz como o mar e portanto nem o luar denuncia a sua presença imponente. Só eu sei que está lá, depois do casario, depois dos mastros dos barcos, depois do mar. Não é uma questão de fé. É que eu sei que a Lua é um astro extremamente selectivo, que nem tudo revela. Abraço as pernas e pouso a cabeça nos joelhos para recordar.
No local onde nasci, muito longe, do outro lado do mundo somos um pouco diferentes. Se alguém nascer durante o dia tem o dom de tudo ver. Pode ver com os olhos e com o coração. Pode ver a alma das pessoas também. Mas se alguém nascer durante a noite, é um ser mais frágil e delicado e tem o dom de se tornar invisível sempre que se sente em perigo, para se proteger. O local onde eu nasci é uma pequena ilha perdida no mar. Não sei porque motivo somos diferentes de todas as outras pessoas. Há lendas e mitos sobre a nossa Criação, é certo, mas nenhuma explicação verdadeiramente satisfatória. Levamos uma vida simples e tranquila. Vivemos da comunhão com o mar. É do mar que retiramos alimentos, energia, medicamentos, histórias. É de mar que fazemos as nossas estradas para encontrar outros povos com quem convivemos e fazemos transacções. É no mar que encontramos satisfação, quando o contemplamos, quando mergulhamos, quando cheiramos a maresia. Raramente saímos da nossa ilha, sobretudo as pessoas lunares que são mais frágeis e delicadas e sofrem mais com as doenças do mundo.
Um dia, acabava de sair da água depois do meu mergulho matinal quando uma nuvem branca poisou na praia à minha frente envolvendo tudo num abraço de neblina que não me permitia ver as minhas próprias mãos. Sentei-me no areal à espera que o sol voltasse. E então vi-o claramente a caminhar na minha direcção. Era um rapazinho espevitado de uns sete anos, com um andar muito seguro de si e um olhar doce e sábio impróprio para a idade dele.
“Quem és tu? Andas perdido?” perguntei eu curiosa.
“Não, acabei de encontrar o que queria. Vim propositadamente à tua procura, Luana” respondeu ele muito sério.
“À minha procura?! Porquê?” continuei, sem perceber nada do que se estava a passar.
“ Sou o teu Guardião. Queres muito sair para o mundo exterior, conhecer o que há para lá da ilha, conhecer as outras pessoas, mas não podes ir sozinha. Eu vou contigo” disse o rapaz com autoridade.
“Mas eu posso proteger-me, fico invisível, nada me poderá fazer mal. Não é um miúdo como tu que me vai ajudar, pelo contrário ainda me vais atrapalhar mais e tenho eu de tomar conta de ti” respondi já cansada daquela conversa.
Foi então que a neblina se tornou mais púrpura e num ápice o rapazinho deu lugar a uma bela jovem de cabelos negros e sorriso delicado.
“Luana, já devias saber que tudo tem muitas formas e muitas faces. Eu posso ser o que eu quiser” disse ela num tom provocador, quando o púrpura deu lugar ao rosa e a jovem se transformou num ancião de cabelos muito brancos e o rosto sulcado por rugas.
“Eu sou um Guardião. Não somos um mito nem seres encantados. Somos tão diferentes de vocês aqui na ilha, como vocês de todas as pessoas do mundo exterior e a nossa missão é proteger-vos, sobretudo a vocês lunares quando querem aventurar-se para lá do mar. É muito fácil esquecer quem são lá fora. A minha missão é zelar para que isso não aconteça” afirmou ele com determinação e ternura na voz.

Quando cheguei ao mundo exterior fiquei fascinada com tudo. Vivia em sobressalto, é certo, e durante os primeiros meses acho que quase ninguém me viu. Tinha medo dos automóveis, dos barulhos, da forma de falar mais brusca das pessoas, dos animais que nunca tinha visto, dos objectos desconhecidos. Tinha medo de tudo mas por outro lado vivia fascinada com as descobertas intermináveis, com os novos mundos, pessoas, formas de estar que desfilavam na minha frente. Pouco a pouco fui-me habituando ao mundo exterior e perdi o medo e deixei de me tornar invisível e estava feliz.
Um dia ao entardecer, enquanto lia tranquilamente num banco em frente ao mar senti que alguém se aproximava e se sentava ao meu lado.
“Que livro maravilhoso é esse que desvia o teu olhar do sol a adormecer?” perguntou-me o homem que acabara de chegar. Sorria para mim e tinha um ar intrigado como se quisesse realmente uma resposta para aquela pergunta.
“Estou à espera da Lua, que está quase a chegar” respondi eu muito séria.
“Olha” disse ele a apontar para o céu, “Já chegou, está ali, vê”.
Fechei o livro e sorri também. Falamos do Sol e da Lua, dos lugares por onde tínhamos passado, de coisas banais, de coisas que nos tinham acontecido, de tudo e de nada. Quando dei conta a Lua já estava alta, majestosa a iluminar o mar e o mundo à nossa volta. Ele tinha acabado de chegar àquele lugar. Vinha para trabalhar ali e quem sabe ficar, ou talvez voltar a partir. Durante muitos dias, muito tempo, continuamos a encontrar-nos. Perdíamos a noção das horas. Sentíamo-nos bem só por estarmos juntos e éramos felizes.
Uma noite aproximei-me dele em silêncio. O luar iluminava-lhe o rosto afável e os olhos ternos. Parei. Olhei novamente, com mais atenção. Parecia-me diferente, algo nele deixara de me ser familiar. Observei atentamente o perfil do rosto, a estrutura óssea equilibrada, a curvatura dos ombros os gestos delicados com que acariciava os braços para se aquecer do frio que a noite trouxera. E de repente o meu coração explodiu, acelerou como se estivesse a falar muito depressa, a dizer muitas coisas ao mesmo tempo. As minhas pernas ficaram paralisadas, incapazes de andar e as ideias, dentro da minha cabeça giravam num turbilhão doentio. Usei de todas as minhas forças para me arrastar até àquele banco e sentar-me ao lado dele. Aproximei-me para o beijar e o meu corpo incendiou-se de sensações desconhecidas. Tentei cumprimenta-lo timidamente. Ele não me respondeu. Continuou a olhar o mar e a tentar em vão aquecer os braços. Toquei-lhe no ombro a tremer e ele não reagiu. Levantei-me, coloquei-me diante dele e ele continuava a olhar para o mar através de mim, como se eu fosse invisível.
Voltei àquele lugar todos os dias. Tentei deixar de temer o amor que crescia dentro de mim. Amaldiçoei a Lua, o mar e a ilha. Entristeci. Voltei a todos os lugares onde nos encontrávamos até ele se conformar com a minha ausência e partir.

Em noites como hoje, de Lua cheia, de magia, não consigo deixar de pensar nele. Estou abraçada às pernas com a cabeça pousada nos joelhos a relembrar os momentos felizes que vivemos juntos.
“Luana anda comigo” disse uma gaivota que pousou na minha varanda.
“Estou a ficar louca… estou a ouvir vozes…” pensei eu confusa, quando a luz da Lua iluminou a minha varanda de tal maneira que me obrigou a fechar os olhos.
“Já nem te lembras de mim!” disse-me um rapazinho espevitado, muito seguro de si, parado à minha frente. “Sou eu, o teu Guardião, anda comigo”, insistiu.
“Mas para onde me queres levar?” perguntei eu curiosa.
“Vamos para casa, Luana, já não és feliz. Já viste o mundo, já aprendeste muito, já tiveste o que querias” respondeu o rapaz enquanto me puxava pela mão.
“Não, Guardião, a única coisa que eu verdadeiramente quero é o amor dele e perdi-o porque tenho medo, porque sou uma cobarde” disse-lhe eu com lágrimas nos olhos e a alma dilacerada.
“Não é verdade! Tu és como aquela montanha por trás do casario, por trás dos mastros dos barcos, por trás do mar. És poderosa e surpreendente mas também frágil e delicada como se estivesses à deriva no mar. E da mesma forma que tu sabes que a montanha está ali, mesmo quando a noite esconde a sua presença, também tu precisas que alguém consiga ver a tua alma para saber onde estás mesmo quando estás invisível”.
“Mas eu quero deixar de ser invisível. Quero que ele me consiga ver. Não quero mais ninguém, não percebes?” gritei-lhe.
“Ninguém pode ser o que não é! Tu és diferente e só vais ser feliz com um igual” insistiu o Guardião enquanto me agarrava com força a mão e me puxava.
Fechei os olhos e vi a ilha, o meu mar tranquilo, as pessoas que me amam e comecei a sentir-me flutuar, a sentir-me mais leve até voltar a sentir terra firme debaixo dos pés. Abri os olhos e vi a minha praia, a minha casa e senti-me bem.

- É um privilégio recebe-lo na nossa ilha – disse Solaris ao homem que ajudava a desembarcar.
- O privilégio é meu. Há muito que queria aprender a vossa tecnologia de gestão de recursos hídricos. Pelo que sei, a ilha é energeticamente auto-suficiente recorrendo exclusivamente ao mar – disse o homem entusiasmado.
- Já sabe que a nossa única condição é manter o mistério sobre a nossa existência. Ninguém pode saber as nossas coordenadas.
- Eu sou um homem de palavra e vou cumprir o prometido – disse o homem com confiança.
- Eu sei, garanto-lhe que sei. Não está em si agir de outra forma – respondeu Solaris a sorrir.
- Mas vamos, depois trazemos as suas coisas, a minha casa é já ali ao fundo e você deve querer descansar um pouco.
Avançaram pelo passeio junto ao mar, bordejado de árvores frondosas e flores coloridas e de repente Solaris viu um rapazinho com ar espevitado sair a correr do meio do casario e parar com ar traquina atrás de um banco de jardim onde uma mulher lia serenamente.
“Um Guardião?! Que estranho… que andará aqui a fazer?” pensou ele intrigado. Entretanto continuou a conversar com o estrangeiro mas de repente este ficou para trás, parado no meio do passeio a olhar fixamente a mulher que lia. Solaris olhou para ele, para o Guardião, que o estrangeiro não via, novamente para ele e sorrindo começou a afastar-se ligeiramente.
O homem aproximou-se silenciosamente e sentou-se junto a Luana. Atrás o Guardião dançava e rodopiava sem parar de rir, enquanto Solaris observava atentamente a cena.
- Que livro maravilhoso é esse que desvia o teu olhar do sol a adormecer? - perguntou o homem que acabara de chegar.
Luana pousa o livro nos joelhos com as mãos trémulas e olha devagar para ele, mas quando os olhares de ambos se cruzam ela desaparece. O homem fica perplexo a olhar o banco vazio sem saber o que pensar. Solaris aproxima-se coloca-lhe a mão no ombro, sentam-se e começam a conversar.
- Meu amigo, há muitas coisas sobre a ilha que você desconhece… - começa ele.
Atrás do banco o rapazinho com ar espevitado dá pulos de felicidade e não pára de dançar.