19/07/09

VOLTA AO QUÉNIA EM 3 SEMANAS III

MALINDI

É preciso dizer que a nossa viagem pela costa sofreu várias alterações desde o início. Primeiro era suposto ser a última paragem e acabou por ser a primeira e em segundo lugar tínhamos decido ir para Watamu, a seguir a Mombasa, com a certeza de aí encontrar uma bela praia tropical, muito sol e sossego, longe dos lugares mais dedicados ao turismo de massas como Diani ou Malindi. Acontece que ainda em Mombasa tivemos a oportunidade, um dia, de um passeio até Malindi com alguns amigos e aproveitamos para passar por Watamu, para ver se o hotel que tínhamos escolhido era simpático. Só aí percebemos que estávamos na época mais baixa da época baixa na costa e começamos a ver a nossa vida a andar para trás. Watamu, que é uma povoação pequena, estava deserta e a maior parte dos hotéis fechados, incluindo o nosso. A culpa foi minha. Parti do princípio que sendo época alta para os safaris, ninguém no seu perfeito juízo ia deixar de visitar a maravilhosa costa do Índico. Não é verdade. Quem quer ver animais selvagens não está interessado na praia e vice-versa. Eu, cá para mim, cada vez me convenço mais que há gente muito estranha.
Com os nossos planos empenados e a costa deserta, Malindi acabou por nos parecer uma possibilidade agradável. Sempre tinha um pouco mais de vida, o reboliço que me aborreceria na época alta não existia e um bom negócio para alugar uma casa quase em frente à praia a um familiar de um dos nossos amigos, acabou por nos convencer.
No dia da viagem, acordamos cedinho para apanhar o autocarro de Mombasa para Malindi, a cerca de uma hora de viagem, e a Zimbie sentia-se muito mal disposta. Comecei a ver a minha vida a andar cada vez mais para trás mas lá fomos, depois de um “vai de autocarro”, “vai de matatu”, muita conversa com os angariadores de clientes e a Zimbie encostadita à mala a dizer que estava mal disposta e que precisava de espaço, conforto e um lugar à janela. Acabamos por viajar no Malindi Shutle Service, o Matatu dos Matatus, na fila da frente, com todas as condições para a doentinha.
O pior foi eu própria começar a sentir-me mal e a Zimbie continuar a piorar. A coisa acabou no consultório do Sr. Doutor, com as duas piores que o chapéu de um pobre e a Zimbie quase em estado de decomposição. Os nossos pobres estômagos e intestinos não gostaram da comidinha Swahili, apesar de nós termos gostado e querermos experimentar de tudo.
Entretanto, e para nosso espanto (eu fiquei para a minha vida com tanto azar), levamos com uma tempestade tropical em cima. Só nos restava a enorme capacidade de nos rirmos de nós próprias, num paraíso tropical, enfiadas na cama, com intoxicação alimentar e chuva e trovoada de bradar aos céus.
De Malindi ficamos com a ideia de ser um lugar aprazível fora da época mais turística (Dezembro), apesar de estar cheio de expatriados italianos, de os habitantes locais falarem em italiano a todos os mzungo, de haver um assédio irritante aos turistas e de os monumentos serem no mínimo hilariantes. Eu sei que não é bonito gozar com os monumentos dos outros, mas convenhamos, a coisa mais famosa é o Pilar do Vasco da Gama, que não passa de uma espécie de menir pousado em cima de um rochedo e que ainda nos obrigam a pagar para o ver… como se tivesse alguma coisa que ver… enfim! Depois, há a magnífica capela, igreja… já nem sei bem, Portuguesa, tão única que ficava ao lado de nossa casa e não demos por ela. Na verdade, é uma cabana com telhado de palha e dizem que os marinheiros portugueses rezavam lá. Eu cá para mim era a tasca dos tugas e a história foi deturpada.
Perante a falta de monumentalidade dos afamados lugares históricos, resta a Malindi e à costa em geral a monumentalidade da paisagem. A mesma paisagem encantadora da costa norte de Moçambique, com florestas de mangue e marés que fazem desaparecer o mar, palmeiras e vegetação luxuriante e areais brancos e macios onde apetece tudo menos estar doente em casa, comer esparguete de couve branca com caril (nem vou explicar!!!) e levar com chuva a torto e a direito.
Com este cenário, não nos restou mais nada senão desistir e regressar mais cedo a Nairobi para reorganizar o resto das férias. Não perdemos tempo e no dia em que decidimos partir, viajamos no autocarro da noite e tivemos uma experiência do outro mundo.

15/07/09

VOLTA AO QUÉNIA EM 3 SEMANAS II

MOMBASA


Mombasa é uma cidade cheia de história, de encantos, pitoresca e é geograficamente uma ilha, na costa sul do Quénia, banhada pelo Índico. Dela dizem que não tem meio termo, que quem a conhece ou a detesta ou a adora.
Eu, antes demais, devo dizer que para minha grande frustração detestei a cidade. É difícil de explicar este sentimento, tem a ver com algo que se sente no ar, com o ambiente de um lugar, com algo pouco objectivo. Eu detestei praticamente tudo: a falta de verde, o lixo, a degradação dos edifícios, os maus cheiros, a exploração dos turistas, o assédio imbecil dos habitantes locais que torna qualquer passeio exasperante, a chuva que não nos largou, a feiura da cidade.
Dito isto, e depois de partilhar as emoções negativas que a cidade me suscitou vou tentar ser objectiva. É impossível falar do Quénia sem falar em Mombasa, a segunda maior cidade do país, na costa do Índico, durante séculos um entreposto fundamental para o comércio internacional, com uma longa e profunda influência árabe que se reflecte na arquitectura e na cultura Swahili predominante. A cidade velha, seria belíssima se não estivesse a cair de podre, com as suas ruas estreitinhas a fervilhar de comércio, com as suas portas rendilhadas maravilhosas, as varandas esculpidas e as mesquitas das mil e uma noites. Nota-se algum esforço de recuperação e reabilitação urbana mas insignificante, na minha opinião, para aquilo que Mombasa merecia.



Chegamos à cidade depois de umas 10h de autocarro, que partiu de Nairobi e atravessou o sul do país até à costa. Para dizer a verdade, a coisa correu bem melhor do que pensei. O autocarro, da Akamba, era um luxo para os padrões locais, confortável, limpo, com uma paragem numa boa zona de serviço para a malta esticar as pernas, comer qualquer coisa, fumar um cigarro e fazer xi xi. A única coisa insólita de que me lembro são as paragens na berma da estrada para os xi xis intermédios. O autocarro pára literalmente na berma do mato e é ver a malta a sair para aliviar a bexiga. Em segundos forma-se uma fila de homens de costas para o autocarro a regar o capim e o mulherio desaparece no meio da vegetação mais densa. Fez-me uma certa confusão e não achei prático. Reclamações, só mesmo daquele troço da estrada sem asfalto que desafiava a suspensão do autocarro e a gravidade do planeta, apesar de a Zimbie conseguir dormir no meio da nuvem de pó que tentava engolir-nos e dos solavancos que faziam lembrar poços de ar em viagens de avião.
O nosso hotel, escolhido por recomendação da Lonely Planet e sem reserva, acolheu-nos bem na sua simplicidade e diria, mediocridade. Não tem história nem alma, é um sítio chato: nem bom nem mau, nem bonito nem feio, nem caro nem barato… enfim, adiante.
A noite chegou e com ela a fominha e a necessidade de encontrar um sítio para comer e aí acontece o grande incidente insólito da viagem. Convenhamos: qual a probabilidade de atravessar o país, chegar a uma cidade desconhecida, virar uma esquina, encontrar um restaurante simples mas com boa pinta e encontrar lá, a jantar o Hashim, uma pessoa maravilhosa que tínhamos conhecido em Nairobi no dia da nossa chegada? Nem queríamos acreditar nos nossos olhos e a partir daí tivemos companhia da melhor qualidade, viatura com chaufeur, convites para ir aqui e ali, visita guiada a bons restaurantes e algumas maravilhas locais e muitas, mas muitas gargalhadas, além da oportunidade de conhecer mais algumas pessoas muito especiais.
O mundo é mesmo muito pequeno! E não pára de nos surpreender.
Ao contrário do que pensávamos o tempo na costa estava muito mau, chovia que se fartava e praia… nem vê-la.


Um dia, ficamos por nossa conta na cidade e fomos visitar os monumentos e a cidade velha… foi difícil. Valeu-nos o tuk tuk, que descobri ser o melhor meio de transporte do mundo, uma espécie de motoreta com uma parte de trás coberta e lugar para 3 passageiros. É rápido, fácil de encontrar e prático para deslocações curtas (é maravilhoso em dias de chuva).
A nossa primeira paragem foi no Forte Jesus, construído pelos tugas. É “O” monumento da cidade, é grande, percebe-se que foi uma fortaleza… mas era um sítio chato para viver (ou os


nossos compatriotas não teriam enchido as paredes de grafitis). Coitados, deviam sentir-se muito aborrecidos com aquele calor húmido sufocante, longe de casa, sem internet nem TV Cabo, com mulheres camufladas por grandes camadas de panos e rodeados de Infiéis. Era uma vidinha difícil. Agora, para ser sincera, eu percebo que o forte seja uma coisa do outro mundo para os padrões locais, americanos, autralianos e tal… agora para nós baahhh! Não é nada de especial! Quem tropeça no castelo do Queijo por tudo e por nada e conhece Sagres e outros que tal não fica facilmente excitado com a coisa…. Com excepção para o museu, esse sim, digno de nota, como se pode ver pelas fotos, mas sem qualquer mérito por parte dos Portugueses LOL.
O pior mesmo foi depois o passeio pela cidade velha, com cromos constantemente a quererem ser nossos guias, com um caso grave de assédio turístico e uma vontade constante de arrancar os olhos a pessoas que se aproximavam de nós. Se não tivermos cuidado Mombasa pode induzir comportamentos profundamente antissociais nos visitantes.
A seguir abalamos para Malindi, para fazer praia e descansar ao sol… mas esse capítulo fica para depois.