07/04/08

Não me lembro do dia em que morri

“Lá está ele outra vez. Mas de onde saiu aquele miúdo que agora passa os dias nesta terra de ninguém? Meu Deus! Será que há mais crianças lá do sítio de onde ele vem? E se um dia me aparecem todas por cá… Tenho de ter muito cuidado, não me podem ver aqui. Era só o que me faltava agora ter de me esconder deles e não poder andar por onde quero. Mas há tanto tempo que não via nenhum. Ele até é engraçado, tem ar de reguila e tem uma genica! Gosto de o ver a descer a encosta, parece que voa em cima da bicicleta e depois quando chega ao riacho faz aquela habilidade de parar de repente e virar a bicicleta de lado… ehehehehe levanta tanta poeira que até deixo de o ver e depois larga tudo e atira-se ao riacho. Mas tenho de ter cuidado para ele não me ver. Até pode morrer de susto, sei lá! O melhor é eu ter cuidado… Ele está a cantar! Desafinado, que até faz doer os ouvidos… já nem me lembro da última vez que ouvi um deles. E se eu me aproximasse devagarinho? … E tentasse falar com ele? Nem sei se ainda sou capaz de falar. E será que eles me veem mesmo? … É melhor parar com estes disparates e ficar sossegada no meu canto, longe do miúdo.”

- João! Anda para casa que o jantar já está pronto! – gritou a mãe, junto ao alpendre.
E repetiu o nome dele vezes sem conta, como acontecia quase sempre quando iam para a casa de campo.
- Já vou mãe, estou quase a chegar! – gritou o João ao longe, ofegante, a subir a encosta de bicicleta.
- Vai lavar as mãos e anda para a mesa, que está tudo a arrefecer – disse-lhe a mãe num tom reprovador, entrando em casa.
- Olá pai, mãe… que cheirinho, estou cheio de fome – disse o João enquanto distribuía beijos e se sentava.
- Tens de me explicar por onde é que tu andas todo o dia quando estamos aqui? É que ninguém te põe a vista em cima … - afirmou o pai curioso.
- Ando a fazer o reconhecimento geográfico e a descobrir a região. Há duas aldeias abandonadas aqui perto, algumas casas em ruínas espalhadas pelos montes, um riacho com quedas de água e uma piscina natural ao fundo da encosta… - respondeu o João muito sério.
- Ó filho, mas não gosto que andes por aí sozinho tantas horas, podes perder-te, ou pode acontecer-te alguma coisa e depois ficamos aflitos – afirmou a mãe preocupada.
- Não há ninguém nas redondezas para me fazer mal. Vocês queriam uma casa de fim-de-semana num lugar sossegado, não queriam? – respondeu o João com alguma ironia.
- Ele tem razão Fátima! Aqui não há vivalma e ele pode andar por onde quiser à vontade. Além do mais nós não conseguimos convencer os irmãos mais velhos a vir para cá ao fim-de-semana por isso o João tem de se entreter de alguma maneira – disse o pai condescendente.
- Eu sei que tens razão, mas fico sempre preocupada. Que querem? Ainda por cima sempre que vou à vila fazer compras e digo às pessoas que estamos na Casa das Glicínias, ficam a olhar para mim muito surpreendidas e dizem sempre a mesma coisa “Ai valha-me Deus minha senhora, e não tem medo de estar lá para em baixo sozinha?”, “Credo, ali não há vivalma, se lhes acontece alguma coisa ninguém vos socorre”…
- Ó mulher pára lá com isso que ainda assustas o miúdo – interrompeu o pai, preocupado -, já sabemos que o povo da vila acha estranho nós termos comprado esta casa, mas nós estamos muito bem aqui, não é verdade?
- Eu sei Carlos, mas não consigo deixar de ficar inquieta de cada vez que vou à vila. Ainda ontem na mercearia me contaram uma história sem pés nem cabeça mas que me deixou preocupada; dizem que a aldeia do Fundo da Serra está assombrada, que algumas pessoas já viram o fantasma de uma mulher por lá e que os pastores contam histórias muito estranhas que se passam lá para aquelas bandas – disse a mãe.
- Não é verdade, mãe! Eu vou lá muitas vezes e nunca vi nada esquisito. É no Fundo da Serra que tem a piscina natural, mesmo perto da aldeia, ainda hoje lá estive. Lá só há pedras, mata e o riacho – disse o João tentando serenar a mãe.
- Que disparate Fátima. Andas a dar ouvidos às crendices desta gente? Nem parece teu.
- Pronto, pronto, já cá não está quem falou, só repeti o que me contaram – disse a mãe mudando logo a seguir de assunto.

“Hoje estás a demorar muito rapazinho. Já estou cansada de estar aqui sentada, escondida à tua espera. Agora custa-me mais a passar os dias porque fico à espera que apareças. Acho que não devia sentir estas coisas. As criaturas como eu não deviam sentir nada mas eu tenho cada vez mais vontade de ir falar com ele. De quebrar o ritmo dos meus dias, de passar a fronteira entre os vivos e os mortos e ir falar com aquele rapazinho cheio de vida. Não posso! As pessoas têm medo dos fantasmas, o miúdo pode sentir-se mal com o susto. Não, tenho de ficar bem escondida e sossegada!... Aí vem ele a toda a velocidade pela encosta abaixo… ai meu Deus… ele caiu e bateu com a cabeça nas pedras!... Vá, levanta-se menino. Levanta-te, sacode a poeira e vai dar o teu mergulho… Ele não se mexe. Está ali estendido no chão sem se mexer. O que é que eu faço? Vou aproximar-me para o ver melhor… mas sem ele me ver. Mas ele está desacordado… será que ainda está vivo? Visto assim de mais perto parece que está a dormir e parece mais novinho do que eu pensava…. Mas o que é que eu sei de crianças? Nada! Nunca tive filhos e já não via nenhuma há tantos anos que até me tinha esquecido que existiam. Acorda menino! O que é que eu faço? Eu que estou no reino dos mortos! Vou aproximar-me ainda mais… com muito cuidado… ui, ele está a sangrar da testa e tem os braços esmurrados… Vou lá! Ele não há-de acordar já. Deixa-me ajoelhar aqui deste lado…. Devagarinho… será que lhe posso tocar? (suspirou) Ai, tantas coisas que eu não sei sobre esta minha nova condição! Quando estamos vivos é tudo mais fácil, sabemos o que fazer, as pessoas reconhecem-nos e não fogem de nós. Vivemos em função dos outros. Somos fulana de tal, filha de fulano de tal, mulher de alguém, irmã de alguém, amiga de alguém, inimiga de alguém, amada ou desprezada por alguém… Mas agora não sei o que fazer. E ele não acorda… Se o rapazinho morresse podia fazer-me companhia, ficávamos com a mesma condição e eu já podia falar com ele sem ele se assustar… que disparate! O que estou eu para aqui a pensar? Um rapazinho com tanta vida não pode morrer assim. Vou tocar-lhe!.. Ai, tem o corpo quente e suado… está vivo. E se eu tentar chamar por ele? Será que ainda consigo falar? Ou será que ele consegue ouvir os mortos?”
- Rrrrapazzzzinho, acorda! – disse a mulher com esforço e hesitante. – Acorda vá, abre os olhos – continuou ela enquanto o abanava devagarinho.

O João sentia a cabeça a andar à roda e uma dor intensa sobre o olho esquerdo. Tentava abrir os olhos mas não era capaz e ouvia alguém a chamá-lo ao longe. Tentou concentrar-se naquela voz estranha que o mandava acordar e tentou abrir os olhos novamente. No início sentiu-se ofuscado pela luz do dia, via tudo desfocado, depois, aos poucos começou a sentir-se melhor. Lentamente virou a cabeça para o lado direito e foi então que a viu, ajoelhada ao lado dele, com as mãos cruzadas sobre o colo, a olhá-lo angustiada. Era uma mulher pequenina, miudinha, muito frágil. Era impossível adivinhar-lhe a idade. Podia ter oitenta anos, podia ter cem anos, podia ter mais ainda. O João nunca tinha visto uma mulher tão velha. Ele ainda estava um pouco tonto mas não conseguia afastar os olhos dela. O rosto coberto de rugas profundas, a pele manchada, os olhos brilhantes e serenos a sobressair do rosto miúdo. E o cabelo, todo branco, enorme a cair-lhe ondulado sobre as costas. O João começou a sentir-se melhor e deu-lhe a mão.

- Acho que torci o tornozelo, a senhora ajuda-me a levantar? – perguntou ele.
A mulher olhou-o perplexa, quase sem acreditar no que acabava de ouvir.
- Tu não tens medo de mim rapazinho? – perguntou a mulher, intrigada, com um ar quase assustado.
- Medo?! Da senhora? Não, porquê? – afirmou o João com estranheza.
A mulher ajudou-o a sentar-se e olhou muito fixamente para ele. Depois afagou-lhe suavemente o cabelo, tocou-lhe na testa e disse-lhe com um ar muito sério e triste:
- Rapazinho, eu acho que tu morreste quando caíste da bicicleta. Agora estás do outro lado da vida como eu, passaste para o mundo dos mortos, por isso é que não tens medo mim.
O João, segurou com mais força na mão da mulher e pôs-se em pé. A custo cambaleou até uma pedra e sentou-se lá a olhar incrédulo para aquela figura pequenina que lhe falava da vida e da morte.
- Eu estou bem vivo, dói-me o corpo todo e a senhora também está bem viva aqui ao pé de mim. Onde é que mora? – afirmou o João muito seguro de si.
A mulher, muito velha, com aqueles longos cabelos brancos a esvoaçar ao vento parecia um pouco louca, mas os olhos brilhantes e serenos tranquilizavam o João e transmitiam-lhe afecto.
- Eu morava naquela casinha em ruínas que tem a varanda de madeira no primeiro andar. Morei lá sempre. Era a casa mais bonita da aldeia. Lembro-me que a minha mãe punha vasos de sardinheiras em todas as janelas, na varanda e ao longo das escadas e a casa ficava tão linda, tão colorida. E tínhamos árvores de fruta na leira e eu e as minhas irmãs brincávamos por lá despreocupadas. Éramos tão felizes! O meu pai era da Guarda. Era muito respeitado na aldeia. E a minha mãe gostava de nos aperaltar a todos, ao domingo para irmos à missa à vila… - contava a mulher com um ar sonhador, ausente.
- Mas o que aconteceu quando as pessoas foram embora? A senhora ficou aqui sozinha? – perguntou o João curioso.
A mulher olhou para ele intrigada.
“Este rapazinho faz perguntas muito difíceis… eu já morri há tanto tempo, que já só me lembro dos dias felizes… e ele não acredita que está morto. Valha-me Deus… o que hei-de fazer?”
- Eu não me lembro do dia em que morri, já passou muito tempo – disse a mulher -, acho que primeiro foi o meu irmão que imigrou, depois as minhas irmãs casaram e partiram… os meus pais morreram também, depois morreu a minha irmã Maria, depois morreu a Lurdes… morreram todos.
O João ouvia-a atentamente quando começou a sentir tonturas novamente. Deixou o corpo escorregar para o chão e ficou encostado à pedra. Fechou os olhos e adormeceu a ouvir a mulher contar aquela história.

“Ele continua desacordado. E já é quase de noite… Será que o rapazinho adormeceu para a vida lhe voltar ao corpo? Que barulho é este? Estou a ouvir gente a gritar… devem andar à procura dele. Vou continuar aqui escondida, não volto para lá que ainda me veem. Desçam, ele está aqui, isso, continuem a descer… Ah! Lá estão eles; três homens com candeias para alumiar o lusco fusco. Já o viram! Aquele deve ser o pai dele, está a chorar a tentar acordá-lo. O rapazinho acordou e está a abraçar o pai. Eu sabia! Eu sabia que ele ia voltar à vida. Ainda bem que me afastei, senão aqueles homens ainda tinham fugido de mim e largavam para ali o miúdo a pensar que estava morto. Ai, mas foi tão bom hoje… ainda bem que ele morreu só durante um bocadinho e pôde falar comigo.”

12/03/08

História com história

Corria o ano de 1984, em plena guerra fria, quando eu, então com 14 aninhos, no auge do meu período punk, grande admiradora do Carl Sagan, do Isac Asimov e de ficção científica escrevi esta história. Descobri há dias, durante uma crise de fada do lar, enquanto revirava a minha sala num frenesim de limpeza, uma pasta com as minhas histórias da adolescência. Foi um momento raro e empolgante, foi uma espécie de arqueologia da memória. E perante a dificuldade de terminar um novo conto, nesta fase de muito trabalho, achei por bem partilhar uma dessas histórias, escrita para um concurso de Português, no 8º ano e com o tema obrigatório "Um dia na vida de um jovem do ano 2020".
Espero que se divirtam, como eu me diverti quando a encontrei, com a minha percepção do futuro há vinte anos atrás. E até breve, que vêm novas histórias a caminho :).


O dia estava quente e nem parecia que as aulas iam recomeçar daí a pouco mais de duas semanas. A Cati acabava de chegar do acampamento de férias. Decididamente não tinham sido as melhores férias que já passara. Depois de introduzir no computador da escola os dados sobre o que queria encontrar nas férias, este decidiu que ela iria para as selvas protegidas da América do Sul e claro, foi sozinha que mais ninguém teve resultados tão estranhos.
Agora, de regresso à cidade, a Cati sentia-me bastante mais feliz pois já estava com saudades, sobretudo dos amigos. Mal saiu do túnel de chegada dirigiu-se para casa e ao chegar viu-se obrigada a ligar a caixa de comunicação para pedir ao pai que lhe abrisse a porta.
- Olá pai! Desculpa mas o meu cartão automático perdeu a validade. Está tudo bem cá em casa? A mãe está?
- A tua mãe hoje chega mais tarde. Está a trabalhar num projecto novo. Que tal as férias? Melhores que as do ano passado? - perguntou.
- Nem por isso. Francamente até se tornaram aborrecidas - queixou-se.
- Isso é mesmo de ti. Desde os 5 anos que nunca gostas das férias.
- Há alguma coisa para comer? - perguntou a Cati.
- Pede ao novo robot. Chama-se Niki. Tenho de me ir embora, vê se encontras alguns amigos. Até logo!
- Olá Niki - disse a Cati para o novo robot. - Quero que me prepares um gelado enorme e delicioso, o melhor que souberes fazer.
- Não posso, a tua mãe pediu dieta para ti - disse o Niki muito sério.
A Cati riu-se, entusiasmada e sentiu-se bem por estar de volta a casa. Mas apetecia-lhe mesmo comer gelado e por isso saiu.

Estava sentada na mesa do café quando viu um grupo de amigos a aproximar-se.
- Cati, que surpresa, não sabia que já estavas de volta - disse a Vanda.
Falaram durante todo o almoço das férias e dos planos que tinham para o ano seguinte. Mais tarde o Ivo sugeriu que fossem a casa dele para experimentar o novo computador da amizade. Quando chegaram identificaram-se e entraram e ele levou-os logo ao quarto.
- Aqui está a pequena maravilha - disse o Ivo apontando para o computador.
- Quem quer experimentar primeiro? - perguntou.
- Eu - disse a Cati rapidamente.
- Ok, tens de preencher este questionário e depois esperar o resultado.
Alguns segundos depois apareceram os resultados.

Jovem 17 anos
Sexo masculino
Residência - base espacial 16
Código para comunicar: GLB46

Depois de observar os dados a Cati começou a rir.
- Realmente a mim só me acontecem coisas incríveis, primeiro foram as férias na selva e agora um amigo que mora numa base espacial.
- Liga depressa para a base espacial que também quero conhecer esse teu amigo - disse a Vanda.
Depois de escrever o código, a Cati esperou alguns momentos até que apareceu uma imagem no ecran e ouviu-se:
- Olá! Eu sou o Ian e gostava de conhecer-te melhor. Queres vir até á base espacial 16?
- Sim, claro, quero muito. Mas posso levar alguns amigos?
- Sim, não há problema nenhuma. Têm é de apresentar na Estação 4 o meu número de código por questões de segurança. Sem ele não podem passar o campo de forças que protege a base de intrusos. Aqui vai O3TL962. Até logo!
A imagem desapareceu do ecran. Estavam todos muito entusiasmados pois nunca nenhum deles tinha visitado uma base espacial. Avisaram os pais que não dormiam em casa, com a desculpa de ficarem em casa uns dos outros e partiram.
- Vamos depressa para apanharmos a nave de passageiros das 3 da tarde - disse o Ivo.
Já dentro da nave e quase a chegar à base 16 o grupo de amigos estava fascinado. A Base ficava muito mais longe do que eles imaginavam. Fica próxima da primeira Lua de Júpiter e eles nunca tinham feito uma viagem tão longa. A nave demorou duas imensas horas a chegar mas finalmente os amigos sentiram os bancos moverem-se em direcção a um tunel iluminado. Chegaram ao fim e pararam pois qualquer coisa os impedia de continuar e então o Bruno lembrou-se do código para passar o campo de forças. Inseriram o código e foram levados até uma sala onde o Ian os esperava. Ele também tinha trazido alguns amigos para que todos se conhecessem. Decidiram separar-se aos pares e encontrar-se no angar de partida mais tarde.
Distraidamente, enquanto o Ian lhe mostrava a base espacial, a Cati observava-o. Era alto e forte, tinha os olhos grandes e expressivos de um castanho muito claro, quase dourado e o cabelo levemente encaraclado no mesmo tom dos olhos e o sorriso mais lindo que ela já vira.
Entretanto ele pegou-lhe na mão e levou-a para um bar.
- Vamos parar aqui para beber qualquer coisa. Aposto que não ouviste uma palavra do que eu disse, em que estavas a pensar? - disse ele a rir.
Atrapalhada, a Cati disse-lhe qu estava apenas fascinada com tudo aquilo pois era muito diferente da Terra.
- E então o que achas da vida aqui? - perguntou o Ian.
- Sei lá! Conheço muito pouco a vida nas bases espaciais. Lá na Terra as pessoas preocupam-se sobretudo com a recuperação da natureza e não temos muita informação sobre o que se passa fora. Mas explica-me tu. Aliás, eu nem sei bem o que aconteceu antes das bases espaciais.
- Ok, mas é uma história comprida, se te aborrecer diz que eu paro. Tudo começou em 1996 quando os Estados Unidos resolveram construir uma base espacial em órbita da Lua. Teoricamente o objectivo seria a investigação científica, no entanto, escondido da população terrestre construiram 3 bases espaciais para refúgio de um grupo de pessoas selecionado em caso de guerra nuclear. Acidentalmente a farsa foi descoberta por um satélite de espionagem da URSS. Pensando tratar-se de bases militares no espaço este país ataca algumas, aparentemente sem qualquer motivo e sem aviso. Repentinamente as pessoas veem-se no meio de uma guerra mundial. Então, um grupo de pessoas conseguiu apoderar-se das bases espaciais e levaram-nas para longe da Terra na esperança de salvar a espécie humana. Quando a guerra acabou quase todo o planeta estava destruído.
- É incrível como as pessoas se deixaram levar a esse ponto - disse a Cati.
- É verdade, mas felizmente nem tudo estava perdido, pois nessa altura a população sobrevivente organizou um governo comunitário e começou a recuperar a Terra. Já alguma vez viste fotografias da Terra antes da guerra?
- Já - disse a Cati. - Os meus pais mostram-me muitas vezes. Têm muita pena de a nossa geração nunca ter visto aquelas paisagens maravilhosas e acho que todos os adultos se sentem culpados por isso.
- Mas continuando - disse o Ian - o pequeno grupo que tinha partido com as bases espaciais voltou e ajudou muito a população terrestre. No entanto, pouco a pouco foram-se afastando e foi crescendo uma barreira entre os que tinham partido e os que tinham ficado. O resto tu já sabes: o governo construiu cidades e selvas protegidas por campos de força que dentro de pouco tempo serão retirados pois a tecnologia criada para limpar a atmosfera está a ter resultados incríveis. Aqui em cima e apesar de continuarmos ligados à Terra, achamos que já não somos precisos e dedicamo-nos sobretudo à pesquisa científica.
- Estou fascinada - disse a Cati. - As coisas que tu sabes! Nunca imaginei a história dessa maneira. O meu computador de ensino torna tudo mais difícil, por isso nunca passei do primeiro grau em História.
- Se quiseres faço-te um programa novo, mais interessante.
- A sério?! És um génio.
- Bem... vamos continuar a ver a base? - perguntou o Ian.
- Vamos claro! Tu és o melhor guia do mundo.
Continuaram então a visita e Ian mostrou-lhe tudo, desde a sua casa, até à torre de controlo e aos espaços de lazer. E no final, conduziu a Cati através de um corredor enorme, até uma porta enorme que se abriu automáticamente.
- Isto é uma surpresa para ti - disse o Ian.
- Esta é uma espécie de sala de recordações. Os nossos pais quando deixaram a Terra trouxeram com eles tudo o que puderam para recordarem sempre a sua beleza. Estão aqui fotografias, filmes, animais e plantas de todos os lugares do planeta.
- Ian, nem sei o que dizer. Estou fascinada e vou voltar cá mais vezes de certeza.
O Ian sorriu com carinho e disse:
- Acho que vamos ser muito bons amigos. E agora que tal voltarmos que já devem estar à nossa espera?
Correram para o angar, despediram-se uns dos outros e partiram de regresso a casa. Estavam todos muito entusiasmados e falavam ao mesmo tempo.
Chegaram ao Porto muito tarde, partiram a toda a velocidade no passeio magnético e chegaram o mais depressa que puderam.
A Cati chegou a casa, identificou-see entrou. Lá estavam os pais mais um grupo de amigos que falavam alegremente das suas férias. Ela disse que tinha estado em casa da Vanda e que já tinham decidido onde queriam passar as férias do Natal, independentemente do que o computador da escola decidisse.
- Esta minha filha nunca pára de fazer planos - disse a mãe a brincar. - E então para onde é que vocês querem ir?
- Para a Base Espacial 16 - disse ela decidida enquanto todos à sua volta a olhavam surpreendidos. - Mas agora vou dormir que estou muito cansada. Até amanhã!