Há muitos dias que não acontecia uma gloriosa manhã de sol como aquela. Sol de Inverno, intenso, teimoso, a romper o ar gélido e a iluminar o mar furioso que fustigava as rochas. Helena passeava na praia, com os braços cruzados sobre o poncho quente de lã e os pés descalços na areia molhada e fria. Desde pequena que adorava andar descalça, numa espécie de ritual íntimo com a terra-mãe, e percorria o areal com pequenos passos seguros enterrando os pés um atrás do outro e olhando para trás, para ver as pegadas desaparecerem no momento seguinte, efémeras, como se ela própria desaparecesse e se renovasse a cada passo.
Já tinha perdido a conta dos dias passados na casa da praia. Helena tinha-se refugiado ali, como sempre, para escrever. Precisava de estar sozinha, de não contabilizar os dias e horas que passavam para se sentir livre e dar vida às ideias que depois transformava em histórias, que entregava à sua editora, que depois as transformava em mais um livro. Às vezes passava meses sozinha na casa da praia e invariavelmente, quando terminava, partia sem regresso marcado para qualquer lado do mundo, indiferente ao maior ou menor sucesso do seu trabalho, alheia ao frenesim promocional, que enlouquecia a editora e que involuntariamente criava à sua volta uma aura de mistério. Helena S. era uma romancista de sucesso, um fenómeno literário, mas ninguém conhecia aquela mulher pequenina, de cabelos negros em desalinho, sorriso tímido e olhar penetrante.
Durante os últimos dias, talvez semanas, não tinha sido capaz de escrever uma única linha. Passava horas a fio à frente do computador, a ouvir música e a escrever frases que apagava mal colocava o ponto final. Naquela manhã decidiu não escrever; decidiu aproveitar o sol raro de Inverno e passear na praia. Ria-se sozinha, olhando para os passos que desenhava na areia a desaparecer atrás de si. Rodopiava, corria, arrastava os pés, saltava, numa espécie de escrita efémera que o mar teimava em apagar. Deixou-se levar por esse impulso, que a divertia, e caminhou mais do que alguma vez tinha caminhado. A determinada altura, ofegante e cansada decidiu sentar-se a contemplar o mar. Recuou até ao cimo das dunas, que eram altíssimas naquela zona e parou. Respirou fundo e sentiu o ar frio invadir-lhe o peito, fechou os olhos e ouviu a cadência silenciosa do mar. Quando se sentiu revigorada e pronta para voltar à casa da praia, ergueu-se e olhou em volta. Nunca tinha estado antes naquele lugar e então reparou num pequeno caminho de areia que partia dali e penetrava no canavial imenso que se estendia até um pinhal bem mais atrás. Resolveu segui-lo e ver até onde a levava.
Deparou-se, algum tempo depois, com uma imponente mansão abandonada, em ruínas. Na sua época, tinha sido sem dúvida uma casa maravilhosa. Era fácil imaginar como tinha sido a fachada arte nova, com frisos belíssimos a emoldurar as janelas, com varandas ondulantes e esculpidas com elementos do mar e da terra, com vitrais coloridos que brincavam com a luz. Nem a invasão de plantas que se apoderou da casa, nem a degradação dos anos que apagou frescos, destruiu vitrais, varandas, frisos e esculturas, nem o ferrugem que cobriu os maravilhosos contornos do ferro forjado eram capazes de apagar a imponência e o esplendor daquela casa. Helena passou horas a observar cada detalhe, como se lesse em cada centímetro de parede uma história perdida no tempo. Era extraordinária e havia um detalhe, acima de todos, que a intrigava, que não combinava com a arquitectura cuidadosamente planeada da casa. Na fachada principal, por cima da belíssima porta de entrada, em madeira maciça, gasta, recortada sem um único ângulo recto, encontrava-se um relógio enorme, incorporado num friso que fazia lembrar uma estrela-do-mar. As horas esculpidas em numeração romana tinham-se esvanecido sob o efeito da erosão, mas os ponteiros, ainda que completamente cobertos de ferrugem, estavam lá, intactos a marcar a última hora: 11h59.
Subitamente, Helena foi arrancada ao estado de encantamento que a casa lhe provocara por um trovão ensurdecedor, seguido de chuva intensa que em segundos a deixou completamente encharcada. Tinha perdido a noção do tempo. Estava a escurecer, estava frio e abatera-se sobre ela uma tempestade violenta. Num impulso, Helena deu um encontrão com o ombro na porta da casa e esta abriu-se deixando ver o chão de mármore, os frescos apagados das paredes, a decoração em estuque que restava no tecto, os candeeiros monumentais e a escadaria; uma escadaria como ela nunca tinha visto, que a partir de uma base comum rodopiada e se separava criando três acessos a diferentes partes da casa. Helena fechou a porta atrás de si, deixou de ouvir a trovoada, de se sentir intimidada pelos relâmpagos e olhou em volta, maravilhada. A escadaria parecia o coração da casa a pulsar de vida, os frescos ganharam cores intensas e pareciam iluminar o interior do salão, as figuras esculpidas a estuque pareciam querer sair do tecto e dançar à sua volta, os candeeiros pintados com cores fortes, maravilhosos, pareciam iluminar o mundo. Helena começou a andar lentamente, rodopiando sobre si própria para não perder um único pormenor. Foi então que começou a ouvir a música. Primeiro ao longe, muito longe, um piano soltava notas delicadas de uma melodia encantadora. Depois a música foi-se aproximando, começaram a ouvir-se violinos também, em perfeita sintonia. E depois vozes, muitas vozes. Vozes de homens e mulheres, risos e gargalhadas, sons de festa e alegria. E então, Helena ouviu claramente um burburinho de crianças que brincavam e riam e corriam pela casa. Ela olhou em volta e não viu ninguém, mas ouvia as crianças cada vez mais intensamente. O som vinha do andar de cima e não só as ouvia a brincar como podia sentir os seus passos enquanto corriam alegremente.
Colocou a mão no corrimão de madeira e começou a subir tentando encontrar o caminho naquele labirinto de escadas que se entrelaçavam e separavam como se tivessem vida própria. Foi então que ouviu claramente “Anda! Quero mostrar-te o meu tesouro!” seguido de gargalhadas e burburinho de riso de crianças. Tentou seguir aquela voz e quando chegou ao cimo das escadas e olhou para o corredor à sua frente viu, num ápice, um vulto de criança dobrar a esquina a correr. Apressou-se para o tentar apanhar, continuou a ouvir o desafio “Anda!” e o riso alegre de crianças. Entrou num labirinto de salas e salões que se abriam uns para os outros e para novos corredores e escadas. Voltou a ver o vulto dobrar outra esquina, continuou a segui-lo e deu por si numa sala forrada a veludo azul celeste, decorada com esculturas que saíam das paredes como se tivessem um dia tido vida própria e tivessem sido aprisionadas por um feitiço qualquer. Eram figuras de homens, mulheres e crianças, de várias idades, em várias situações. Helena reparou atentamente numa delas; um velho, muito velho, no fim da vida, com o olhar mais triste do mundo, que segurava nos braços, um enorme relógio. E depois viu a porta entreaberta. Ela era capaz de jurar que quando entrara naquela sala não havia mais nenhuma porta, mas agora lá estava ela, mesmo à sua frente, paralela à porta por onde tinha entrado e lá dentro ouvia-se agora, claramente, o burburinho alegre das crianças. Avançou curiosa, empurrou lentamente a porta e entrou. Olhou em volta perplexa e encantada. Nas paredes, no tecto, em cima dos móveis, por todo o lado podiam ver-se centenas de relógios, todos parados, todos com uma hora diferente. Quando olhou para a delicada mesinha de mármore mesmo ao seu lado, Helena não pôde deixar de reparar num belíssimo relógio de bolso antigo, em ouro, uma verdadeira obra de arte que estava pousado no meio de vários outros relógios. Pegou nele com cuidado. Marcava 6h23. No mesmo instante, sentiu a porta fechar-se violentamente nas suas costas e sobressaltada reparou que todos os relógios tinham começado a trabalhar, em sentido contrário, como se estivessem a recuar no tempo.
(continua brevemente)
08/01/08
29/11/07
Catwomen
A noite caía rapidamente sobre a cidade. Em poucos minutos a luz amarela dos candeeiros de ferro substituiria o sol e as sombras tomariam o lugar das árvores, dos edifícios, dos vultos, das estátuas de anjos e das lápides do cemitério. Dentro de pouco tempo apenas as velas a arder, com as chamas intermitentes e açoitadas pelo vento frio do Inverno pareceriam ter vida naquele lugar.
O guarda fazia a ronda habitual para se certificar que todos tinham saído e que podia fechar o cemitério. Só se ouviam os passos dele a percorrer o labirinto de caminhos sem saída. Sem um único ruído e sem aviso, algo saiu de traz de uma lápide lançando-se no ar mesmo à frente do guarda, para cair do outro lado do caminho e desaparecer de imediato por entre as sombras do mar de velas que se abria do lado esquerdo.
- Aghhh! Raios… malditos gatos! – gritou e praguejou o homem, tentando recompor-se do susto – Não admira que andem a envenenar esta bicharada toda. Parece uma praga!
E apressou-se na ronda para sair dali o mais rapidamente possível.
- Pretinha! Onde estás? Anda comer… olha as coisas boas que te trouxe hoje – chamou a D. Cininha baixinho, a sussurrar, enquanto abria um saco de plástico e retirava uma lata de comida para gatos.
- Linda… isso… anda papar que a Cininha não te faz mal. Isso, linda menina… é bom, não é? Vocês não podem comer sempre comida seca, têm de papar desta também… hummmm tem um cheirinho… papa tudo Pretinha, tudo, que estás muito magrinha.
A Pretinha era a grande preocupação da D. Cininha. Há muitos anos que diariamente alimentava e protegia todos os gatos do bairro. À sua passagem os pequenos felinos saíam dos seus esconderijos para a cumprimentar, para lhe roçarem as pernas, para lhe seguirem os passos na esperança dela lhes dar petiscos e mimos. Todos, menos a Pretinha. Essa nunca se aproximava, só vinha comer depois de todos terem desaparecido e a D. Cininha tinha desenvolvido uma teoria para justificar este estranho comportamento. Ela achava que a gatinha tinha sido muito maltratada por alguém, de forma tão vil que ficou traumatizada e se recusava a aproximar-se das pessoas. Era uma mulher doce, a D. Cininha, muito serena, franzina, com o cabelo todo branco e o rosto bem sulcado pelo tempo, que passou por ela sem generosidade.
- Então e os outros meninos, onde andam eles, pequenina? – perguntou curiosa, enquanto observava a gata a comer mantendo alguma distância respeitosa. – Os da rua de traz já comeram, passei por lá antes de vir para casa. Havias de ter visto a Malhada! Já está boa da operação. Está linda, com o pêlo brilhante, parece uma rainha… que foi? Não queres mais? Paraste de comer… que se passa, meu amor?
Num ápice, a gata desapareceu na noite e a D. Cininha começou a ver outros gatos a aproximarem-se.
- Ai, Valha Deus que aquela bichinha é tão medrosa… Vá lá que comeu quase tudo hoje – inquietou-se. – Venham meus queridos, venham à mamã, olhem as coisas boas que vos trouxe hoje para o jantar – disse ela para os gatos que lhe rodeavam as pernas e que a olhavam expectantes.
- Bom dia D. Cininha! Como estão os seus meninos?
- Ó D. Aninhas, ando tão preocupada com a minha Pretinha… ela anda tão magrinha. Tenho medo que se não comer bem depois acabe por comer porcarias e tocar em alguma coisa envenenada.
- Pois é… já viu que coisa medonha. Quem é que tem coragem de matar assim os bichinhos. Eu também ando com o coração nas mãos por causa dos meus D. Cininha. É certo que a minha zona ainda é longe do cemitério, mas vá-se lá saber… com um criminoso desses à solta. Olhe quem vem lá… - interrompeu - … D. Tininha, então a senhora está boazinha? Vem para a nossa beira hoje?
- Bom dia senhoras. Vim saber desse assassino dos bichos. Há dois bichanos que não me aparecem há que tempos e não foram às gatas senão já tinham voltado.
- Ai D. Tininha, que até se me dá um aperto no peito só de pensar nesse malvado – disse a D. Aninhas muito perturbada.
- Hoje até vinha a notícia no jornal – afirmou a D. Cininha – quase todos os dias têm encontrado gatos mortos aqui no cemitério. Ninguém imagina quem andará a fazer tamanha maldade, mas eu vou descobrir… ai se vou!
- Olhem, vem aí o Sr. Freitas, o guarda… será que ele sabe de mais alguma coisa? – perguntou a D. Aninhas, encaminhando-se rapidamente para ele.
- Bom dia, minhas senhoras – cumprimentou o guarda a sorrir -, como está a Comissão de Defesa dos Gatos?
- Lá está o senhor Freitas a brincar com a gente. Olhe que andamos bem aflitas com esta história dos gatos envenenados. Não há direito! Até pode não se gostar dos bichos, mas não é preciso fazer-lhes mal, meu Deus – disse a D. Aninhas indignada. – Já sabem de mais alguma coisa?
- Olhem, eu estou convencido que o assassino dos gatos mora cá no cemitério – afirmou peremptório o guarda, enquanto se benzia; – têm acontecido para aqui umas coisas muito estranhas, barulhos na noite, restos de comida, coisas partidas e fora do sítio… Só vos digo que tem de ser uma alma do outro mundo, que eu não saio daqui sem vasculhar o cemitério todo e nunca cá vi ninguém.
As três mulheres ficaram em alvoroço, incrédulas com tamanha insanidade e depois de tentarem chamar o guarda à razão, de lhe fazerem ver o disparate daquela ideia, lá voltaram costas e seguiram pela rua principal do cemitério, de braço dado.
- Pretinha, onde estás? Anda, minha pequenina… anda papar – gritava a D. Cininha, para fazer-se ouvir no meio daquele temporal.
A chuva e o vento cortante a salpicar a lama dos caminhos, a curvar as copas das árvores e a fazer voar jarras, lamparinas e flores tornavam aquela tarefa muito mais difícil. A pobre mulher, coberta por um poncho impermeável, mas completamente encharcada, de saúde débil, percorria o cemitério com a ajuda de uma pequena lanterna que mal lhe iluminava os passos. O vento silvava com fúria e não havia sinais dos gatos, nem de vivalma nas redondezas. A D. Cininha, dando-se por vencida, atou o saco plástico da comida ao pulso, apertou com mais força o poncho junto ao pescoço, para se aconchegar, e seguiu a custo para casa, curvada, a tentar iluminar o caminho e a respirar com dificuldade.
Depois de atravessar a avenida, onde ainda havia alguma luz, dirigiu-se para o caminho estreito e escuro que levava ao pequeno beco onde morava. A chuva intensificou-se e não deixava ver nem um palmo à sua frente quando de repente, ouviu miar e sentiu o desconforto do pêlo molhado a roçar-lhe as pernas. Era a Malhada, que seguia à sua frente a miar para lhe mostrar o caminho de casa. Quando chegou ao fim do beco onde morava subiu o primeiro degrau e apoiou-se numa saliência da parede granítica, escorregadia, para abrir o ferrolho do portão de ferro. Um relâmpago iluminava as trevas da noite quando a D. Cininha conseguiu a custo abrir o portão e arrastar-se ofegante para dentro. Cambaleou um pouco e acabou por cair no chão, encostada a uma das paredes. Tirou a custo o poncho encharcado, puxou uma manta para se aquecer e esticou o braço para alcançar um retrato do filho que abraçou junto ao peito, ao mesmo tempo que fechava os olhos e tentava superar a dor que sentia e a dificuldade em respirar.
- Bom dia Sr. Freitas – disse a D. Tininha ao entrar no cemitério de braço dado com a D. Aninhas. – Já se sabe mais alguma coisa sobre o assassino dos gatos?
- Ó minhas senhoras! Ó valha-me Deus, nem imaginam o que por aqui se passou! Eu nem estou em mim…. Isto tem estado uma desgraça desde que aqui cheguei hoje cedo – afirmou o guarda muito agitado e nervoso. – Já sabemos quem envenenava os gatos! As senhoras nem imaginam… nem imaginam!
- Credo, você está a deixar-me nervosa também. Diga lá de uma vez por todas… mas… o que é que aconteceu por aqui? – perguntou a D. Aninhas.
- A outra senhora que costuma andar com vocês, que mora aqui perto e que tem o hábito de dar de comer aos gatos… apareceu morta, dentro do cemitério esta manhã.
- Ai valha-me Deus, pobre D. Cininha, como é que pode ter acontecido uma coisa dessas? Como é que ela ficou aqui dentro a noite toda, ainda por cima, com aquele temporal de ontem… ai coitada da pobre… como é que isto foi acontecer? – interrogou-se a D. Tininha enquanto amparava a D. Aninhas e a ajudava a sentar-se num banco.
- Já veio a judiciária e tudo… ele há coisas que ninguém imagina! Então não é que a D. Cininha vivia aqui dentro do cemitério? É verdade! É verdade – repetiu ele perante o olhar incrédulo das duas mulheres. - Descobriu-se que ela vivia no seu jazigo de família, um dos mais imponentes do cemitério, que fica na ala este, num canto afastado e escondido. Foi um dos coveiros que descobriu o corpo dela de manhã cedo. Viu o portão do jazigo aberto, foi espreitar e deu com o corpo da senhora estendido no chão, já sem vida – explicou o guarda.
- Mas Sr. Freitas ela vinha visitar o jazigo todos os dias. Era lá que estavam o marido e o filho, deve ter acontecido alguma coisa para ela ter ficado presa lá dentro… mas por amor de Deus, daí a viver lá… - afirmou a D. Aninhas muito consternada.
- Pois é minha senhora, mas a sua amiga tinha dentro do jazigo tudo o que precisava para viver: cobertores, lanterna, comida, objectos pessoais e um armazenamento de comida para gatos que nem imaginam… só não percebo porque é que ela os envenenava.
- Ai, não posso crer! A D. Cininha era incapaz de fazer mal aos bichos. Era tudo o que ela tinha desde que o filho morreu há uns anos. Era a única companhia dela e ficou completamente sozinha… os gatos eram a sua família, Sr. Freitas, pode lá ser uma coisa dessas? – explicou a D. Tininha.
- Não sou eu que digo, minhas senhoras, é a polícia. Chegaram à conclusão que a senhora devia estar mal da cabeça e que lhe deu para isto… Encerraram o caso – afirmou o guarda. – E olhem, por falar neles, vêm aí com o corpo… deixem-me ver se precisam de alguma coisa… ai que dia, minhas senhoras… que dia!
Ficaram as duas muito chocadas a olhar a cena. Um grupo de polícias a aproximar-se, com um cadáver coberto numa maca, uma pequena multidão a juntar-se, um dos coveiros a avançar na direcção deles com uma sachola ao ombro e um saco de lixo cheio na mão e a Pretinha a saltar de traz de uma lápide para a Avenida e a Malhada a saltar de uma árvore e os gatos a aparecerem todos, um por um, vindos dos quatro cantos do cemitério… e ainda ninguém tinha dado pela presença deles, além das mulheres que observavam de mais longe, quando de repente, como se um maestro comandasse na perfeição uma orquestra de dezenas de gatos, estes se lançaram em uníssono sobre o coveiro, que entretanto estava no meio da pequena multidão. As pessoas fugiram aos gritos enquanto o homem rolava pelo chão e tentava tapar a cara para se proteger do ataque dos gatos. Os polícias deixaram cair a maca com o cadáver e ficaram perplexos a ver aquela cena. Ninguém podia aproximar-se para ajudar o pobre homem que estava completamente ensanguentado, sem ser atacado também. Quando o homem perdeu as forças para se mexer, os gatos pararam repentinamente, mas as pessoas, perplexas, continuaram imobilizadas a olhar e então, a Pretinha saiu de cima dele e atirou-se ao saco do lixo com as unhas até o conseguir rasgar. Quando o saco se desfez podia ver-se lá dentro comida para gatos suficiente para alimentar toda a comunidade do cemitério e um saco de veneno para ratos, que entretanto escorregou para fora e ficou à vista de toda a gente. Nessa altura, a Pretinha e os outros gatos abandonaram o homem em farrapos, aproximaram-se da D. Cininha e deitaram-se sobre ela e a toda a volta como se estivessem a velar o corpo.
- Podia lá ser, D. Aninhas? É que não lembrava ao Diabo, a pobre da nossa amiga andar para aí a matar os gatos! – disse muito séria a D. Tininha.
- Que disparate! Nunca tinha ouvido nada mais estúpido. Mas viu o que os pequeninos fizeram? Como desmascararam o traste do coveiro? Ai, D. Tininha estou tão comovida… a Cininha, onde quer que esteja, deve estar cheia de orgulho nos meninos dela.
- Vamos, minha amiga, vamos embora que aqui, já não há mais nada para ver… vamos embora que a partir de hoje temos muito mais trabalho… vamos ter de nos organizar para dar de comer aos gatos do cemitério – disse a D. Aninhas, enquanto se levantava e dava o braço à amiga para saírem juntas e voltarem as costas àquela cena trágica.
O guarda fazia a ronda habitual para se certificar que todos tinham saído e que podia fechar o cemitério. Só se ouviam os passos dele a percorrer o labirinto de caminhos sem saída. Sem um único ruído e sem aviso, algo saiu de traz de uma lápide lançando-se no ar mesmo à frente do guarda, para cair do outro lado do caminho e desaparecer de imediato por entre as sombras do mar de velas que se abria do lado esquerdo.
- Aghhh! Raios… malditos gatos! – gritou e praguejou o homem, tentando recompor-se do susto – Não admira que andem a envenenar esta bicharada toda. Parece uma praga!
E apressou-se na ronda para sair dali o mais rapidamente possível.
- Pretinha! Onde estás? Anda comer… olha as coisas boas que te trouxe hoje – chamou a D. Cininha baixinho, a sussurrar, enquanto abria um saco de plástico e retirava uma lata de comida para gatos.
- Linda… isso… anda papar que a Cininha não te faz mal. Isso, linda menina… é bom, não é? Vocês não podem comer sempre comida seca, têm de papar desta também… hummmm tem um cheirinho… papa tudo Pretinha, tudo, que estás muito magrinha.
A Pretinha era a grande preocupação da D. Cininha. Há muitos anos que diariamente alimentava e protegia todos os gatos do bairro. À sua passagem os pequenos felinos saíam dos seus esconderijos para a cumprimentar, para lhe roçarem as pernas, para lhe seguirem os passos na esperança dela lhes dar petiscos e mimos. Todos, menos a Pretinha. Essa nunca se aproximava, só vinha comer depois de todos terem desaparecido e a D. Cininha tinha desenvolvido uma teoria para justificar este estranho comportamento. Ela achava que a gatinha tinha sido muito maltratada por alguém, de forma tão vil que ficou traumatizada e se recusava a aproximar-se das pessoas. Era uma mulher doce, a D. Cininha, muito serena, franzina, com o cabelo todo branco e o rosto bem sulcado pelo tempo, que passou por ela sem generosidade.
- Então e os outros meninos, onde andam eles, pequenina? – perguntou curiosa, enquanto observava a gata a comer mantendo alguma distância respeitosa. – Os da rua de traz já comeram, passei por lá antes de vir para casa. Havias de ter visto a Malhada! Já está boa da operação. Está linda, com o pêlo brilhante, parece uma rainha… que foi? Não queres mais? Paraste de comer… que se passa, meu amor?
Num ápice, a gata desapareceu na noite e a D. Cininha começou a ver outros gatos a aproximarem-se.
- Ai, Valha Deus que aquela bichinha é tão medrosa… Vá lá que comeu quase tudo hoje – inquietou-se. – Venham meus queridos, venham à mamã, olhem as coisas boas que vos trouxe hoje para o jantar – disse ela para os gatos que lhe rodeavam as pernas e que a olhavam expectantes.
- Bom dia D. Cininha! Como estão os seus meninos?
- Ó D. Aninhas, ando tão preocupada com a minha Pretinha… ela anda tão magrinha. Tenho medo que se não comer bem depois acabe por comer porcarias e tocar em alguma coisa envenenada.
- Pois é… já viu que coisa medonha. Quem é que tem coragem de matar assim os bichinhos. Eu também ando com o coração nas mãos por causa dos meus D. Cininha. É certo que a minha zona ainda é longe do cemitério, mas vá-se lá saber… com um criminoso desses à solta. Olhe quem vem lá… - interrompeu - … D. Tininha, então a senhora está boazinha? Vem para a nossa beira hoje?
- Bom dia senhoras. Vim saber desse assassino dos bichos. Há dois bichanos que não me aparecem há que tempos e não foram às gatas senão já tinham voltado.
- Ai D. Tininha, que até se me dá um aperto no peito só de pensar nesse malvado – disse a D. Aninhas muito perturbada.
- Hoje até vinha a notícia no jornal – afirmou a D. Cininha – quase todos os dias têm encontrado gatos mortos aqui no cemitério. Ninguém imagina quem andará a fazer tamanha maldade, mas eu vou descobrir… ai se vou!
- Olhem, vem aí o Sr. Freitas, o guarda… será que ele sabe de mais alguma coisa? – perguntou a D. Aninhas, encaminhando-se rapidamente para ele.
- Bom dia, minhas senhoras – cumprimentou o guarda a sorrir -, como está a Comissão de Defesa dos Gatos?
- Lá está o senhor Freitas a brincar com a gente. Olhe que andamos bem aflitas com esta história dos gatos envenenados. Não há direito! Até pode não se gostar dos bichos, mas não é preciso fazer-lhes mal, meu Deus – disse a D. Aninhas indignada. – Já sabem de mais alguma coisa?
- Olhem, eu estou convencido que o assassino dos gatos mora cá no cemitério – afirmou peremptório o guarda, enquanto se benzia; – têm acontecido para aqui umas coisas muito estranhas, barulhos na noite, restos de comida, coisas partidas e fora do sítio… Só vos digo que tem de ser uma alma do outro mundo, que eu não saio daqui sem vasculhar o cemitério todo e nunca cá vi ninguém.
As três mulheres ficaram em alvoroço, incrédulas com tamanha insanidade e depois de tentarem chamar o guarda à razão, de lhe fazerem ver o disparate daquela ideia, lá voltaram costas e seguiram pela rua principal do cemitério, de braço dado.
- Pretinha, onde estás? Anda, minha pequenina… anda papar – gritava a D. Cininha, para fazer-se ouvir no meio daquele temporal.
A chuva e o vento cortante a salpicar a lama dos caminhos, a curvar as copas das árvores e a fazer voar jarras, lamparinas e flores tornavam aquela tarefa muito mais difícil. A pobre mulher, coberta por um poncho impermeável, mas completamente encharcada, de saúde débil, percorria o cemitério com a ajuda de uma pequena lanterna que mal lhe iluminava os passos. O vento silvava com fúria e não havia sinais dos gatos, nem de vivalma nas redondezas. A D. Cininha, dando-se por vencida, atou o saco plástico da comida ao pulso, apertou com mais força o poncho junto ao pescoço, para se aconchegar, e seguiu a custo para casa, curvada, a tentar iluminar o caminho e a respirar com dificuldade.
Depois de atravessar a avenida, onde ainda havia alguma luz, dirigiu-se para o caminho estreito e escuro que levava ao pequeno beco onde morava. A chuva intensificou-se e não deixava ver nem um palmo à sua frente quando de repente, ouviu miar e sentiu o desconforto do pêlo molhado a roçar-lhe as pernas. Era a Malhada, que seguia à sua frente a miar para lhe mostrar o caminho de casa. Quando chegou ao fim do beco onde morava subiu o primeiro degrau e apoiou-se numa saliência da parede granítica, escorregadia, para abrir o ferrolho do portão de ferro. Um relâmpago iluminava as trevas da noite quando a D. Cininha conseguiu a custo abrir o portão e arrastar-se ofegante para dentro. Cambaleou um pouco e acabou por cair no chão, encostada a uma das paredes. Tirou a custo o poncho encharcado, puxou uma manta para se aquecer e esticou o braço para alcançar um retrato do filho que abraçou junto ao peito, ao mesmo tempo que fechava os olhos e tentava superar a dor que sentia e a dificuldade em respirar.
- Bom dia Sr. Freitas – disse a D. Tininha ao entrar no cemitério de braço dado com a D. Aninhas. – Já se sabe mais alguma coisa sobre o assassino dos gatos?
- Ó minhas senhoras! Ó valha-me Deus, nem imaginam o que por aqui se passou! Eu nem estou em mim…. Isto tem estado uma desgraça desde que aqui cheguei hoje cedo – afirmou o guarda muito agitado e nervoso. – Já sabemos quem envenenava os gatos! As senhoras nem imaginam… nem imaginam!
- Credo, você está a deixar-me nervosa também. Diga lá de uma vez por todas… mas… o que é que aconteceu por aqui? – perguntou a D. Aninhas.
- A outra senhora que costuma andar com vocês, que mora aqui perto e que tem o hábito de dar de comer aos gatos… apareceu morta, dentro do cemitério esta manhã.
- Ai valha-me Deus, pobre D. Cininha, como é que pode ter acontecido uma coisa dessas? Como é que ela ficou aqui dentro a noite toda, ainda por cima, com aquele temporal de ontem… ai coitada da pobre… como é que isto foi acontecer? – interrogou-se a D. Tininha enquanto amparava a D. Aninhas e a ajudava a sentar-se num banco.
- Já veio a judiciária e tudo… ele há coisas que ninguém imagina! Então não é que a D. Cininha vivia aqui dentro do cemitério? É verdade! É verdade – repetiu ele perante o olhar incrédulo das duas mulheres. - Descobriu-se que ela vivia no seu jazigo de família, um dos mais imponentes do cemitério, que fica na ala este, num canto afastado e escondido. Foi um dos coveiros que descobriu o corpo dela de manhã cedo. Viu o portão do jazigo aberto, foi espreitar e deu com o corpo da senhora estendido no chão, já sem vida – explicou o guarda.
- Mas Sr. Freitas ela vinha visitar o jazigo todos os dias. Era lá que estavam o marido e o filho, deve ter acontecido alguma coisa para ela ter ficado presa lá dentro… mas por amor de Deus, daí a viver lá… - afirmou a D. Aninhas muito consternada.
- Pois é minha senhora, mas a sua amiga tinha dentro do jazigo tudo o que precisava para viver: cobertores, lanterna, comida, objectos pessoais e um armazenamento de comida para gatos que nem imaginam… só não percebo porque é que ela os envenenava.
- Ai, não posso crer! A D. Cininha era incapaz de fazer mal aos bichos. Era tudo o que ela tinha desde que o filho morreu há uns anos. Era a única companhia dela e ficou completamente sozinha… os gatos eram a sua família, Sr. Freitas, pode lá ser uma coisa dessas? – explicou a D. Tininha.
- Não sou eu que digo, minhas senhoras, é a polícia. Chegaram à conclusão que a senhora devia estar mal da cabeça e que lhe deu para isto… Encerraram o caso – afirmou o guarda. – E olhem, por falar neles, vêm aí com o corpo… deixem-me ver se precisam de alguma coisa… ai que dia, minhas senhoras… que dia!
Ficaram as duas muito chocadas a olhar a cena. Um grupo de polícias a aproximar-se, com um cadáver coberto numa maca, uma pequena multidão a juntar-se, um dos coveiros a avançar na direcção deles com uma sachola ao ombro e um saco de lixo cheio na mão e a Pretinha a saltar de traz de uma lápide para a Avenida e a Malhada a saltar de uma árvore e os gatos a aparecerem todos, um por um, vindos dos quatro cantos do cemitério… e ainda ninguém tinha dado pela presença deles, além das mulheres que observavam de mais longe, quando de repente, como se um maestro comandasse na perfeição uma orquestra de dezenas de gatos, estes se lançaram em uníssono sobre o coveiro, que entretanto estava no meio da pequena multidão. As pessoas fugiram aos gritos enquanto o homem rolava pelo chão e tentava tapar a cara para se proteger do ataque dos gatos. Os polícias deixaram cair a maca com o cadáver e ficaram perplexos a ver aquela cena. Ninguém podia aproximar-se para ajudar o pobre homem que estava completamente ensanguentado, sem ser atacado também. Quando o homem perdeu as forças para se mexer, os gatos pararam repentinamente, mas as pessoas, perplexas, continuaram imobilizadas a olhar e então, a Pretinha saiu de cima dele e atirou-se ao saco do lixo com as unhas até o conseguir rasgar. Quando o saco se desfez podia ver-se lá dentro comida para gatos suficiente para alimentar toda a comunidade do cemitério e um saco de veneno para ratos, que entretanto escorregou para fora e ficou à vista de toda a gente. Nessa altura, a Pretinha e os outros gatos abandonaram o homem em farrapos, aproximaram-se da D. Cininha e deitaram-se sobre ela e a toda a volta como se estivessem a velar o corpo.
- Podia lá ser, D. Aninhas? É que não lembrava ao Diabo, a pobre da nossa amiga andar para aí a matar os gatos! – disse muito séria a D. Tininha.
- Que disparate! Nunca tinha ouvido nada mais estúpido. Mas viu o que os pequeninos fizeram? Como desmascararam o traste do coveiro? Ai, D. Tininha estou tão comovida… a Cininha, onde quer que esteja, deve estar cheia de orgulho nos meninos dela.
- Vamos, minha amiga, vamos embora que aqui, já não há mais nada para ver… vamos embora que a partir de hoje temos muito mais trabalho… vamos ter de nos organizar para dar de comer aos gatos do cemitério – disse a D. Aninhas, enquanto se levantava e dava o braço à amiga para saírem juntas e voltarem as costas àquela cena trágica.
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