18/01/10

NOVO ENDEREÇO

ESTE BLOGUE MUDOU DE CASA. A CONTADORA DE HISTÓRIAS PEGOU NOS CONTEÚDOS TODOS, METEU-OS NA MALA E RUMOU A CASA NOVA. AGORA O MEU NOVO ENDEREÇO É:
WWW.HISTORIASASOLTA.WORDPRESS.COM

ESPERO QUE GOSTEM E CONTO COM OS VOSSOS COMENTÁRIOS E OPINIÕES PARA TORNAR ESTE BLOGUE AINDA MELHOR.

14/01/10

MZALENDO, O PATRIOTA

Quantas vezes nos perguntamos sobre o que podemos fazer para tornar as nossas sociedades mais justas e os nossos governos mais transparentes enquanto cidadãos comuns? Apenas para, na maioria das vezes, nos acomodarmos à frustração de não podermos fazer nada, ao sentimento de inferioridade de quem acha que não tem poder nem voz. É assim em Portugal. É assim quando os níveis de abstenção eleitoral são elevados, é assim quando não exigimos os nossos direitos e manifestamos os nossos descontentamentos, é assim quando os movimentos sociais são pobres e é assim quando confundimos política com partidarismo e nos demitimos daquele que eu acho que é o nosso primeiro dever e direito enquanto cidadãos: participar activamente na sociedade, a nível local e global. Mas é assim em muitos lugares. Chamam-lhe crise democrática, alienação social... enfim, é um sintoma grave de um mundo em agonia.
Mas em muitos lugares do mundo a situação é ainda mais grave do que em Portugal, muito mais grave. Muitas democracias são artificias. outras tantas são jovens, outras ainda de democracia só têm o nome. Em muitos lugares falta consciência democrática, conhecimentos e instrumentos de participação social e de supervisão do Estado e falta sobretudo um certo nível de bem-estar social que permita às pessoas serem cidadãos de pleno direito. Não tenhamos ilusões. Enquanto a primeira preocupação do indivíduo for a sobrevivência até ao dia seguinte, seja por falta de comida, de água, de segurança, não podemos esperar que ele seja activo na defesa e no desenvolvimento dos seus concidadãos. E em muitos lugares este é o quotidiano da maior parte da população e a democracia apenas uma palavra estrangeira, imposta por estrangeiros para satisfação de alguns estrangeiros.
Apesar de tudo, de vez em quando, o solo mais árido pode produzir milagres, como as rosas efémeras do deserto de Atacama, da mesma forma que nas sociedades mais improváveis podem surgir fenómenos sociais extraordinários e inspiradores.
O Quénia não é um exemplo de estabilidade e maturidade democrática e enfrenta os mesmos problemas de muitos outros países no mundo onde a democracia não foi conquistada pelo povo mas imposta pela comunidade internacional e onde a maior parte da população se preocupa mais com a sobrevivência quotidiana do que com a participação social. Também não é um exemplo de transparência e responsabilidade governativa. Mas foi aqui que nasceu, contra todas as probabilidades, o MZALENDO: Eye on Kenyan Parliament e o MARS Group Kenya, dois sites que têm por objectivo supervisionar e responsabilizar o Estado. Curiosamente, mzalendo, significa "patriota" em Swahili e, de facto, haverá maior acto de patriotismo (seja o nosso conceito patriótico associado a fronteiras, línguas, religiões ou pertença comum à humanidade) do que monitorizar, denunciar, comentar e participar para cuidar da nossa sociedade?


06/01/10

AMIGOS DO LAGO VITÓRIA

O Lago Vitória, com mais de 68 000 km2 é o maior lago africano, o maior lago tropical do mundo e é partilhado por três países: o Uganda, a Tanzânia e o Quénia. É uma fonte de vida incomparável na região, fundamental mas não infinita. Mais de 30 milhões de pessoas dependem dele para viver e muitas culturas e tradições estão a ele associadas. Infelizmente, como acontece um pouco por todo o mundo, os problemas ambientais que enfrenta são muitos e o lago está a morrer lentamente. Mas há também cada vez mais organizações envolvidas na protecção do Lago Vitória, com uma dinâmica impressionante. No Quénia, tenho a oportunidade de acompanhar de perto uma delas, a OSIENALA, onde alguns amigos trabalham e tenho aprendido imenso sobre preservação, sustentabilidade e educação ambiental. É um mundo novo para mim mas é um mundo cheio de esperança.

O grande lago sofre de vários males. Os mais óbvios talvez sejam a pesca excessiva (sobretudo a pesca desregulamentada com recurso a redes demasiado apertadas que capturam peixes em crescimento) e a poluição de origem agro-química e falta de saneamento, tão visível na cidade de Kisumu onde a água é negra e densa. No entanto, há mais ameaças. O lago está infestado por jacintos de água que são alimentados basicamente pelos nitratos usados nos fertilizantes e muitas vezes quando olho para ele parece mais um enorme pasto verde do que um manto de água. O jacinto de água tal como a perca do Nilo são espécies exógenas, introduzidas no lago e que afectam seriamente todo o equilíbrio do ecossistema. Outra ameaça muito séria está relacionada com a destruição e/ou apropriação das zonas húmidas para o cultivo do arroz, uma vez que são estas terras que servem de filtro para o lago. E assiste-se também a um conflito recorrente entre seres humanos e a vida selvagem que culminam no abate de muitos hipopótamos e outras espécies. E a degradação do lago não é alheia às mudanças climáticas, com o nível da água a baixar devido à escassez de chuvas, a malária a aumentar (esta é uma das zonas com maior incidência de malária), intercalando com períodos de cheia que vitimam milhares de pessoas na região. O cenário é negro, a degradação visível a olho nú e o futuro preocupante.

O que eu não esperava, até porque a sociedade civil no Quénia parece-me pouco activa, era encontrar tantos projectos, tantas organizações e tanta dinâmica na região, com protagonistas locais que se fazem ouvir bem longe, a tentar contrariar esta história banal. A OSIENALA, que eu conheço melhor, é disso um excelente exemplo. Lá trabalham mais de 50 pessoas, na maioria jovens, quase todos formados e especializados, assim como vários voluntários, quase todos estudantes, mas que partilham a mesma paixão pela sua terra, indissociável do lago Vitória. Entre todos desenvolvem diversas actividades que incluem a emissão da Radio Lake Vitoria com mais de 3 milhões de ouvintes, que aborda especialmente questões ligadas à sustentabilidade ambiental e à região e que emite também a partir da internet, vários programas de educação ambiental para vários tipos de públicos, programas comunitários para a gestão ambiental e de recursos do lago Vitória em rede e articulados com organizações congéneres no Uganda, na Tanzania, no Burundi e no Ruanda e ainda a promoção de latrinas ecológicas, de campanhas para prevenir o HIV/SIDA, de projectos de reabilitação da paisagem, micro-crédito e empreendedorismo, investigação e consultoria.

A própria OSIENALA que conta com vários doadores e tem uma dimensão apreciável, financia associações e grupos de jovens mais pequenos que desenvolvem projectos de cariz mais local, em toda a região. Um projecto que considero particularmente interessante é, por exemplo, o desenvolvimento da aquacultura como forma de combate à excessiva exploração de recursos piscatórios no lago, com tanques experimentais nas instalações da própria organização e com a criação de infra-estruturas na comunidade e com a comunidade para este tipo de actividade. O eco-turismo e o artesanato (com potencial para vir a obter uma futura certificação de produto do Comércio justo) são outras actividades complementares que tentam dar nova vida ao lago e aos seus habitantes.

E fazem-se ouvir longe e onde é preciso, com representantes em reuniões como a que serviu para preparar a participação do Quénia na Cimeira de Copenhaga e em outras estruturas governamentais onde têm uma forte actividade de advocacy.

As organizações como a OSIENALA e os jovens que as integram são uma luz de esperança e uma força de mudança poderosa, assim como uma fonte de inspiração para todos aqueles que querem mudar o mundo e torná-lo num lugar melhor para todos. Bem hajam!

03/01/10

AFINAL NÃO ERA UM ROCHEDO COM BARRACOS

Eu tinha contado a alguns amigos que ia passar o ano algures numa ilha do Lago Vitória e que não sabia mais nada sobre o lugar ou o programa de festas e que para mim até um rochedo com barracos no meio do lago estava bem, pois pelo menos era uma novidade e cheia de imprevistos.
Na noite anterior dormi em casa das duas amigas alemãs que conhecia e que me convidaram e às 6h da manhã lá chegou o resto do pelotão com viaturas e mantimentos para ficarmos isolados na tal ilha até domingo. Ainda sem cumprimentos e apresentações que os alemães e eu estávamos em modo de recuperação do sistema, lá nos fizemos à estrada acompanhados por um nascer do Sol deslumbrante. Não sei se sabem, mas apenas 6% do Lago Vitória se encontra em águas territoriais do Quénia, confinado a uma baía extensa e pontuado por algumas ilhas antes de se abrir para abraçar a Tanzânia e o Uganda e se perder no horizonte e foi aí que eu fui parar, finalmente e sem contar, àquela parte onde a água cresce e parece mar.
Contornamos a baía de jipe até ao Ferry, depois de Bondo, e atravessamos para Mbita, no extremo Sul da baía. Aí, apanhamos outro barco, agora mais pequeno, deixamos o carro para trás e fizemo-nos ao lago e durante mais de uma hora fomos contornando ilhas até que no extremo, quando já só se via água e céu no horizonte contornamos a ilha à nossa esquerda e o que vimos deixou-nos boquiabertos. Takawiri, a nossa ilha, é um pequeno reduto de pescadores, verde e montanhosa, mas ao virarmos deparámo-nos com um braço de areia branca e palmeiras, emoldurado pelas montanhas a formar uma baía de água calma e transparente. Chegamos ao nosso destino e até podíamos muito bem ter dormido ao relento, cozinhado com fogueiras e tomado banho no lago, mas nem isso; à nossa espera estava um delicioso resort turístico, fechado hà um ano, propriedade da família de um indiano, namorado de uma das meninas alemãs e nosso anfitrião e todinho, todinho só para nós durante quatro dias.
Desembarcamos boquiabertos e alguns só diziam “Eu nunca estive num lugar assim!” (um à parte rápido apenas para explicar que o grupo de alemães era composto por 10 voluntários, que integram várias organizações no Quénia e na Tanzânia, através de um programa do governo alemão, com idades entre os 19 e os 27 anos e para além deles só havia o indiano e eu, os dois mais crescidos). O nosso anfitrião, ainda na praia resolveu fazer um “briefing” (tal e qual!) para nos dar as boas vindas, explicar como ia funcionar a coisa, organizar a escala de cozinheiros (havia empregados à nossa espera mas a cozinha era connosco) e para nos alertar relativamente à vasta colónia de cobras e escorpiões da ilha. Cobras tudo bem…. mas escorpiões!? Comecei a ver o filme: 3 noites sem dormir, o coração a bater estupidamente de cada vez que abro a porta do quarto, a inspecção à cama e o sobressalto a cada barulho mais estranho… sou medricas com a bicharada! Não tenho problema nenhum com animais de grande porte, mas os pequenos, na maioria das vezes dão-me conta dos nervos e agora ainda por cima tinha de encontrar um que nunca vi antes e que vivia na categoria dos mitos horrendos.
Matei o meu primeiro escorpião, no chão do chuveiro do meu quarto, às 19.00 do dia 31 de Dezembro de 2009, na ilha de Takawiri. A electricidade, solar, era muito fraquinha e eu já a pressentir o pior entro na casa de banho também de lanterna em punho a inspeccionar todos os recantos e lá estava ele, preto (descobri depois que também há brancos e que são mais venenosos e matei-os sem qualquer descriminação), grande, feio e com aquele rabo venenoso no ar. Morreu esborrachado pela minha havaina e foi pelo ralo abaixo. Como tudo na vida, a gente habitua-se e para o fim a coisa já não me impressionava e já nem pensava neles. Apareciam no meu horizonte visual, quinavam e eu continuava com a minha vidinha de banhos e sol e dança e muito rir.
A passagem do ano propriamente dita foi indescritível… eu vou tentar, mas eu sei que não vou chegar nem perto do que realmente aconteceu. Jantamos principescamente, tudo acompanhado por um belíssimo tinto chileno e no final, preparamos cocktails e fomos para a praia em frente, onde uma enorme fogueira rodeada de cadeiras esperava por nós. No céu a lua cheia brilhava e, sem uma única nuvem no horizonte enchia de luz a última noite do ano. Era como se fosse dia mas com a luz banca intensa a pratear o mar e a areia branca. Nunca tinha visto nada assim! Como se não bastasse, a ilha é um verdadeiro santuário de pássaros e a sinfonia é absolutamente fantástica, misturada com os outros músicos da noite como os sapos e os morcegos. Parecia uma noite mágica, encantada, irreal e nós, à volta da fogueira cantávamos canções de Natal, entrecaladas aqui e ali por algumas dos Beatles (não me perguntem porquê). Não sei muito bem quando chegou a meia noite. Ninguém tinha relógios, nem telemóveis (não havia rede na ilha), nem interesse nesses pormenores e por isso quando achamos que era boa altura brindamos ao Ano Novo com uma bebida de cor radioactiva, abraçamo-nos e desejamos um mundo de coisas boas uns aos outros e continuamos a celebrar o novo ano quase até ao amanhecer. Não conseguíamos sair da praia e por lá ficamos, ao Luar, a rir, a brincar, outras vezes em silencio a ouvir os pássaros e a olhar a paisagem e houve até quem fosse a banhos, que a noite estava quente e a água convidativa. Foi uma noite linda!
Os dias seguintes foram dias de preguiça, encantamento e boa disposição. Tivemos aulas de dança com especialistas em danças de salão, tivemos campeonatos de bilhar competitivos, tivemos até rabanadas nos trópicos numa das noites, dançamos as músicas mais pirosas das décadas de 80 e 90 e fizemos festas até de manhã, onde até os guardas e os empregados se juntavam a nós para dançar.
Depois de um início de ano assim, eu estou serenamente à espera para ver o que o resto do ano me reserva. E estou optimista!

P.S. Hoje a minha irmã faz anos e eu muito gostava de poder partilhar estas e outras experiências com ela... jà falta pouco :). Não te preocupes que eu trato de exterminar a bicharada antes de chegares. Parabéns e um beijinho enorme cheio de saudades!

28/12/09

AINDA O NATAL... poucas coisas são o que parecem!

Eis uma grande lição. Aprendi há algum tempo que as aparências são pouco fiáveis mas por cá, esta máxima é quase uma regra de sobrevivência.
Para comprar um bolo dou por mim num cibercafé, rodeada de computadores e no balcão improvisado alguém nos mostra um pequeno catálogo de bolos de festa para fazermos a encomenda. Uma farmácia moderna, pode ser também um posto de venda de galinhas e o negócio acontece no minúsculo gabinete de óptica e em vez de sairmos de lá com um novo par de óculos, saímos com uma saca de frangos depenados ou a cacarejar, conforme a nossa preferência. E é assim com quase tudo, inclusive com o Natal.
No dia 24 de Dezembro não acontece nada, é um dia normal sem celebrações de qualquer espécie. O meu típico jantar de consoada este ano resumiu-se a pizza, cerveja e um bom filme, em casa, na companhia da Sharon e do Kayser (a empregada e o cão dos donos da casa).
No dia 25, acontece a grande celebração, bem diferente daquilo a que estamos habituados. Parecia S. João, com toda a gente na rua e festas por todo o lado, nos hotéis, piscinas e clubes. Grandes churrascos, borga, os miúdos com pinturas na cara, uma animação.
Ao jantar, as famílias juntam-se, o prato principal é galinha (uma iguaria que pode chegar a custar 5 euros nesta altura do ano), as prendas não são uma tradição e as compras resumem-se a roupa e sapatos novos, para quem pode.
A minha amiga Julie (se bem se lembram, a primeira amiga que fiz no Quénia e que foi minha colega nas aulas de Swahili) tinha-me convidado para celebrar o Natal com as freiras na comunidade dela aqui em Kisumu. Ainda cheguei a pensar em continuar em Diani e festejar por lá, mas sabia que elas contavam comigo e não queria decepcioná-las, por isso cheguei a 24 a Kisumu e dia 25 ao fim da tarde lá estava eu, no “convento” das School Sisters of Notre Dame, preparada para o Natal mais cristão da minha vida e a contar com um serão de rezas e rituais religiosos. ERRADO! (Felizmente, porque a perspectiva não era das melhores para mim).
Mal cheguei e entrei pela cozinha deparei-me com uma azáfama invulgar e uma excitação adorável. Havia música no ar, hip hop e Africana, e enquanto se ultimava o jantar dançava-se, ria-se e o ambiente era de festa e alegria. Vivem ali cerca de 20 mulheres religiosas e entre elas 12 são jovens de diferentes países africanos e de diferentes partes do Quénia que estão numa fase de preparação para a vida religiosa. São dois anos em que aprendem e experienciam a vida religiosa antes de decidirem se fazem os votos ou não.
Resultado: O jantar integrou iguarias de várias tribos do Quénia e de outros países de África pois todas queriam mostrar as suas tradições. Foi um festim de doces e salgados, vinho tinto, vinho branco (adoro o facto de os católicos gostarem de vinho!) e Baileys (a minha contribuição, a pedido das irmãs). Na sala de convívio uma árvore de Natal gigante rodeada de presentes (cada uma comprou presentes simbólicos para se trocar depois do jantar) e cheia de chocolates que as mais novas iam subtraindo de cada vez que passavam por lá. A seguir ao jantar, houve uma pequena celebração religiosa e pela primeira vez juntei-me a elas (viva o espírito de Natal!) e surpreendentemente gostei. A coisa integrou mais cânticos de Natal do que rezas (e elas cantam extraordinariamente bem) e foi bonito. Depois, foi a festa. Quando dei conta a sala estava cheia de djambés, chocalhos, pandeiretas e violas e a comunidade sentada em circulo, nos sofás e no chão à volta da árvore. Cantou-se muito. Mais tarde, retiramos uns números à sorte e distribuiram-se os presentes no meio de uma imensa alegria (para muitas das raparigas mais novas era a primeira vez que estavam a receber presentes) e muitas gargalhadas. A seguir mais música e dança. Afastaram-se os sofás e a sala transformou-se numa pista. Um grupo de raparigas nigerianas presenteou-nos com uma dança tradicional deliciosa e entraram na sala cheias de chocalhos nos tornozelos e à cintura, ao som de gritos de festa e tambores… maravilhoso!
Pela 1h da manhã, a minha amiga Julie, diz-me que bebeu um bocadinho de mais para pegar no carro e levar-me a casa e convida-me para dormir lá. Grande ideia, que eu também não me queria ir embora. E quando a maioria se foi deitar, ficou na sala um pequeno grupo divertido e acabamos a noite a partilhar a vida, a falar de coisas sérias a brincar, a contar o que nos ia na alma. Senti-me em casa, senti-me querida e mais uma vez confirmei que só estamos sozinhos se fecharmos o coração.
Foi um Natal memorável!

24/12/09

CHRISTMAS TIME












A viagem










Se não dermos demasiada importância ao facto de ser quase impossível dormir com a trepidação e o ruído do comboio, de nos cruzarmos com uma barata aqui e ali e de sermos acordados e chamados para o restaurante com alguém a bater em textos, a viagem na mítica linha do Uganda que, ligando o Quénia a este país, foi em tempos uma das mais importantes do leste de África, pode ser absolutamente encantadora.
Sete horas da tarde, Nairobi-Mombasa, 1ª classe. Basta entrar na estação para sentirmos uma certa nostalgia colonial e basta pôr o pé no comboio para começar a viajar mesmo antes de ele partir. Os compartimentos são confortáveis, o serviço cheio de mordomias, a carruagem restaurante é encantadora e por todo o lado nos saltam aos olhos pormenores deliciosos da estética e dos hábitos de outros tempos.
A paisagem, essa, fica-nos para sempre na memória desde o bairro de lata de Kibera e a zona industrial à saída de Nairobi, às montanhas, à savana, ao parque nacional de Tsavo e à vida selvagem que passa diante dos nossos olhos, sem esquecer as aldeias, os mercados e as crianças que dizem adeus e correm atrás do comboio ao longo de todo o percurso.

Diani Beach

E lá se foi mais um dos meus preconceitos: Diani é um dos locais mais turísticos da costa e estamos na época alta e eu, apesar de entusiasmada com a possibilidade de sol e mar, esperava uma coisa tipo Quarteira em Agosto. Estava tola! A costa é suficientemente grande e diversificada para acolher toda a gente sem necessidade de congestionamentos. E o local escolhido para a estadia era perfeito, um oásis dito para “backpackers”, onde por menos de 10 euros por dia se pode usufruir do melhor que os trópicos nos podem oferecer. É um local com alma, onde nos sentimos quase em estado de graça por lá termos ido parar e que nos vicia. Stilts-Tree top houses, é o nome do paraíso.
A água é do mar, dessalinizada, a energia é solar, a construção minimalista com materiais locais e quase imperceptível. Os macacos e os bush babies são as nossas companhias constantes, os pássaros a música de fundo e as borboletas, enormes e coloridas a dar cor ao verde completam um quadro fantástico que só é superado, do outro lado da rua pelos tons das flores, do céu e do mar.



E foi assim que aconteceu

Era para ser um fim de semana prolongada na companhia de 2 amigas e aconteceu tudo de forma tão estranha que a estadia delas encolheu, a minha esticou e eu já mal me lembro de ter partilhado estes, que foram os melhores dias do meu ano, com elas.
Mas vamos ao princípio. Quarta-feira à noite partimos eu e a amiga da minha amiga, que não era minha amiga ainda (a minha amiga ia ter connosco apenas na sexta à noite). Desde que nos conhecemos na entrada da estação que ela me pareceu adoentada, mas só ao jantar é que tive confirmação das minhas suspeitas. A moça vinha da Zambia (onde viveu uns meses a participar num projecto de investigação) e sentia-se doente há uns quinze dias, mas não achou importante ir ao médico antes de ir de férias. Aos vinte e dois anos fazem-se coisas um bocado estúpidas. Acontece aos melhores. Mas bolas, não estamos em casa, o ambiente é hostil à nossa mzunguisse delicada, cheio de vírus, bactérias e parasitas estranhos e o mínimo que se pode fazer é ir ao médico mal nos sentimos doentes. Comecei a ver a minha vida a andar para trás quando durante a noite a febre começou a subir, a diarreia a agudizar e as dores de cabeça a aumentar.
Resumindo uma longa história: mal chegamos ao Stilts para o nosso check in perguntei ao Andy, o dono, pelo melhor hospital das redondezas, levei lá a menina e mal ela foi vista pelo médico foi internada. Eu assegurei-me que ela estava em boas mãos, levei-lhe a mochila e fui para a praia.
E estranhamente fiquei disponível para uma das minhas mais extraordinárias experiências humanas. Fiquei sozinha, num local desconhecido, cheio de gente. Devo dizer que o bar do Stilts é uma espécie de ponto de encontro de almas gémeas do mundo inteiro, onde se geram empatias instantâneas, sintonias improváveis e onde se constroem afectos. Deve ser o local do mundo com mais viajantes por metro quadrado, com mais gente que largou tudo e partiu um dia, sem destino, com mais gente que mudou de vida de forma radical e com mais gente disponível para os outros. Eu demorei 5 minutos a ultrapassar o meu inconfortável momento de solidão e a solidariedade demonstrada para com a minha amiga no hospital foi enternecedora. A coisa é de tal maneira que mais de metade das pessoas no Stilts, ou Stiltoers como lhes chama a Heidi, estava lá indefinidamente. Chegamos todos para ficar 2 ou 3 noites e depois vamos criando afectos, laços e vamos adiando a partida. O Adrian, que anda a viajar, sem parar quase há 3 anos está lá há meses e ainda não sabe quando parte, está à espera de “sentir” que é a hora. A Heidi e a Cecília, duas norueguesas a fazer voluntariado em Mafia, perto de Zanzibar, estavam lá há quase duas semanas e iam ficar até ao Natal, o Nathan, um professor americano de escrita criativa, não consegue sair de lá, nem decidir para onde ir a seguir e pelo menos até à passagem de ano vai ficando, a Nayma, uma francesa de origem marroquina que viaja incessantemente desde o século passado, parando de vez em quando para ganhar algum dinheiro e voltar a partir, também adiou a viagem e fizemos juntas o regresso a Nairobi, o próprio Andy, o dono e mentor do lugar que calcorreou meio mundo decidiu criar aquele oásis para viver livre e como gosta, as 3 primas quenianas (uma a viver nos EUA, outra na Holanda e outra na Islândia) que se reuniram no Stilts para celebrar a vida e matar saudades e foram ficando até ao Natal… e mais… muito mais gente a ir e a vir e a partilhar e a dar.
E depois, aquela sensação constante de que nada é por acaso, de que as pessoas se atraem e se cruzam com propósitos misteriosos que às vezes só desvendamos mais tarde, depois de dizer adeus.
E depois estar em África, no meio do mato, partilharmos Ipods e descobrirmos que temos quase todos o mesmo tipo de música. Na primeira noite adormeci a ouvir Jeff Buckley e Nina Simone e parecia um sonho, a música a vir do bar e a chegar até mim misturada com os barulhos do mato nocturno e nos dias seguintes, dar por mim a beber gin tónicos ou a jantar chapatis e green grams (por 1,50 euros) ou a dançar ao som de Beirut, Morrissey ou Radiohead, com macacos empoleirados no tecto e osgas em alerta. O paraíso só pode ser assim. E gostar tanto de estar juntos, todos desconhecidos, que nem o maravilhoso “40 Thieves” na praia nos convencia a abandonar o ninho nas noites quentes e suaves de Diani.
Mas nem tudo é perfeito, ou talvez seja, que a vida é feita de contrastes. A praia está cheia de beach boys, verdadeiros predadores de mzungu. Uns querem vender artesanato, outros querem propor negócios de safaris, de snorkeling e mergulho, outros querem apenas “engatar” uma mzungu e não nos deixam em paz. Se não lhes dermos asas vão embora e se ultrapassarmos a antipatia natural de quem vê constantemente o seu espaço invadido até podem ser bem divertidos. Recordo em particular aquela manhã, com a maré a baixar e eu, a Rea e a Nayma numa plataforma flutuante a apanhar banhos de sol, a rolar para a água e a voltar ao sol vezes sem conta. Chega o beach boy à beira da água, em calções e encaminha-se na nossa direcção. O paleio do costume “How are you beautiful lady?”, “Do you enjoy the sun? And Quenia?”… a cartilha Zézé Camarinha. Fartas de o aturar, a Rea, diz “Olha só falo contigo se for para negociar um treeking aos Shimba Hills amanhã.” O moço não tem mais nada saca de telemóvel, manda vir o “chefe” e a criatura aparece passado uns minutos à beira da água a acenar. Nós a preguiçar ao Sol, nem pensar em sair dali… se ele quiser fazer negócio que se faça á água e venha ter connosco. E foi a coisa mais insólita do mundo, eles de telemóveis e catálogos de fotografias e listas de preços a entrar mar adentro. Foram dias de muito Sol, muito mar e muitas, mas muitas gargalhadas.
A amiga da minha amiga acabou por ter alta na sexta a noite mas antecipou a partida e foram as duas embora no domingo ao almoço. Eu tentei dividir-me e passar algum tempo com elas na praia e apresentá-las a toda aquela gente extraordinária, mas elas ficaram muito pouco tempo. Eu adiei a viagem o mais que pude e ontem quando saí de lá com a Nayma fui até Mombasa com o coração apertado e à beira das lágrimas. Provavelmente nunca mais nos vamos ver.


Regresso acidentado
Cheguei de Mombasa a meio da manhã e impunha-se arranjar um bilhete de autocarro para Kisumu no mesmo dia. Para meu espanto os bilhetes estavam todos esgotados. É época de Natal e está tudo a viajar. Depois de muito esforço lá arranjei bilhete para um autocarro às 22h. A meio da tarde estava eu pacientemente a ler na sala de espera da central de autocarros quando me apercebo que o céu ficara negro como breu. A chuva começou a cair impiedosamente e o vento parecia que ia deitar abaixo árvores, casas e o que mais lhe aparecesse pela frente, incluindo os vidros da estação. Na sala de espera, as janelas começaram a bater violentamente e lá fora os relâmpagos sucediam-se sem parar. Comecei a reparar no ar de pânico das pessoas. Um rapaz à minha frente encolhia-se todos e tapava o ouvidos e as pessoas estavam agitadas e tensas. De repente um relâmpago poderoso, um estrondo enorme e lá fora fios eléctricos a faiscar no ar como fogo preso no S. João. E é então que acontece. O pânico. A multidão ensandecida de medo. Poucas coisas me assustam mais que uma multidão descontrolada e à minha volta em segundos só se ouviam gritos. Homens, mulheres e crianças, com as mãos na cabeça, a gritar e a correr sem direcção de um lado para o outro da sala, encolhidos, levando pela frente cadeiras, malas, caixas de galinhas (que por essa altura também cacarejavam assustadas) e eu, na ultima fila, encostada à parede, com a mão direita direita sobre a mochila e a esquerda a segurar as pernas em cima do banco para impedir que alguém caísse por cima de mim. O cheiro a queimado invadia a sala e quando a trovoada acalmou as pessoas começaram a serenar, mas só para entrarem em pânico outra vez quando o disjuntor disparou e ficou tudo às escuras. Eu não tenho medo da trovoada, mas ontem à tarde o meu coração disparou e as minhas mãos tremiam com medo daquelas centenas de pessoas em pânico. (A ideia de enfrentar 7h de viagem nocturna com aquela tempestade também não era agradável. Mas correu tudo bem e estou de volta ao Nyanza).

10/12/09

NAS ENTRANHAS DE KISUMU

Ontem tive um dia, no mínimo atípico. Andei a visitar latrinas nos bairros de lata. Exacto, é mesmo isso que estão a pensar, andei a visitar retretes nas entranhas de Kisumu. Uns amigos recentes que por cá fiz estão envolvidos num projecto de promoção e construção de "eco-sanitation", ou seja, latrinas ecológicas e fizeram questão de mostrar tudo. A experiência foi tão real que chegamos a ter de esperar que um utilizador saísse da latrina para irmos espreitar o seu funcionamento. Foi deveras interessante, eu sempre a dizer "Nzuri sana. Twende! Taphadali", ou seja, em desespero a tentar sair dali "Muito bem. Vamos! Obrigado" para deixar o rapaz sossegado a aliviar-se e a avó dele, uma senhora grande e forte e com uma voz poderosa a mandá-lo sair da latrina que estava lá uma mzungu para espreitar aquela maravilha tecnológica. Foi um momento embaraçoso, pelo menos para mim, ver o moço sair de lá de dentro atarantado ainda a apertar as calças e ter a avó a puxar-me a mão para me enfiar lá dentro a ver o funcionamento da coisa: a separação da urina das fezes, os depósitos para ambas (nas latrinas ecológicas elas são transformadas em adubo), o tubo para saída dos gases (que as fezes produzem quando armazenadas), a qualidade dos materiais de construção. A senhora parecia uma engenheira a mostrar-me uma central nuclear! A juntar ao propósito insólito da minha visita, não podiam faltar as dezenas de crianças que corriam por todo o lado atrás de mim a gritar mzungu, mzungu how are you?, como se já não atraísse suficientemente a atenção haver alguém a meter o nariz nas retretes alheias. E se pensarmos que isto tudo se passou num dos maiores bairros de lata da cidade, sem qualquer tipo de saneamento, com as ruas e vielas transformadas em lamaçais, as casas coladas umas às outras numa manta de retalhos de materiais de construção, com o comércio e a indústria a transbordar para fora das casas (vendas de fruta, de chapatis, de carne, de peixe, de batatas fritas e de roupa, carpintarias, mecânicos, costureiras, construtores, chapeiros e sei lá que mais, todos a trabalhar à porta de casa no meio da lama) e eu, a mzungu mais famosa do bairro, a visitar latrinas, rodeada de dezenas de putos excitadíssimos com a minha presença, percebem a dimensão do meu embaraço. Mas acabou por correr tudo bem e depois de um belo banho purificador em casa, as coisas relativizaram-se: a experiência foi interessante, aprendi muito sobre latrinas, compostagem e adubos naturais, tive oportunidade de praticar o meu Swahili e ainda tive uma proposta de casamento, de um sujeito tão bêbado, mas tão bêbado, que andava atrás das crianças, que andavam atrás de mim (e não chegava até mim por questões óbvias de falta de equilíbrio) a gritar que queria casar comigo e a divertir toda a gente do bairro.

07/12/09

NYANZA


Mudei-me! Depois de 10 meses com sede em Nairobi e visitas aos 3 cantos do Quénia (o canto Norte infelizmente ainda está por explorar)instalei-me em Kisumu, onde vou ficar nos próximos meses a fazer o estudo de caso para a tese. Já cá tinha estado antes, já tinha escrito antes sobre o lugar e a região, já sabia que gostava da cidade e das gentes que por cá vivem e da proximidade do Lago Vitóri,a mas esta mudança tem-me dado que pensar. Logo na viagem para cá, mais de 7h de autocarro, comecei a esquecer as coisas que mais me incomodam neste país e que em Nairobi se me colam à pele como o fumo negro dos carros e me ofuscam a visão do todo. Depois de atravessar o Rift Valley, as encostas pintadas de verde bebé pelos arbustos de chá, os campos ondulantes de cana de açúcar, tudo iluminado por um Sol quente, brilhante e maravilhoso e chegar a Kisumu ao pôr-do-Sol, toda a negatividade que este país frequentemente me inspira tinha ficado para trás. E não é só a cidade, é a região toda do Nyanza (que significa "lago") que me encanta. Como é que explicamos o facto de nos sentirmos em casa num lugar e incomodados noutro? Não sei! Acho que é uma questão de química, como a atracção, ou o amor, se quisermos ser mais românticos. E depois há aquela conjugação de factores que faz com que a vida pareça cor-de-rosa: eu estou apaixonada pela região e ela parece que está apaixonada por mim e presenteia-me constantemente com surpresas maravilhosas, alimentando ainda mais a minha paixão. Quinze horas depois de chegar, uma amiga de uma amiga ofereceu-me a sua casa durante um mês, a vizinha da amiga da amiga, ofereceu-me a casa dela durante a primeira quinzena de Janeiro, o amigo do amigo de outra amiga levou-me a lugares fantásticos da cidade e depois a uma festa africana maravilhosa, que durou pela noite dentro, a dona da casa da festa aluga-me um quarto fantástico quando eu quiser, vários amigos da dona da casa que conheci na festa partilharam contactos, preocupam-se comigo, oferecem alegria, orientação e companhia e já temos aniversários, passeios madrugadores para ver pássaros, excursões no Nyanza e visitas a projectos sociais agendadas, os condutores de Tuk Tuk em vez de me explorarem fazem-me descontos por ser portuguesa, por ser simpática, por ter um nome bonito e até (disse-me um deles) por achar que eu lhe ia trazer muita sorte para o resto do dia de trabalho, na rua as pessoas falam comigo, são simpáticas, nos matatus há sempre conversa com uma ou várias pessoas, com muito sentido de humor e riso à mistura, as pessoas da organização com quem vou trabalhar abriram-me o coração, deram-me o seu tempo e deixam-me vasculhar todos os arquivos que possam imaginar e ficaram tão contentes por eu ter voltado para trabalhar com eles, como prometido, que me emocionou. E amanhã faço anos e tenho duas festas e depois é Natal e nem sei o que escolher.... e isto depois de passar 10 meses em Nairobi a sentir-me sozinha, inadaptada e cheia de saudades de casa. Digam lá se isto não é paixão!? O Nyanza apaixonado por mim e eu por ele. Por cá ficava mais 10 meses sem problema nenhum, a viver a paixão. E não pensem que são tudo rosas, que também não há coisas que me incomodam e assustam por cá, afinal foi aqui que aconteceu o pico de violência durante as últimas eleições. Foi aqui que assassinaram mais pessoas, que destruíram mais imóveis (o que é ainda bem visível) e onde a loucura e insanidade colectiva atingiu o auge. Eu não imagino como tal foi possível. Como é que esta gente boa e generosa, neste lugar encantador, chegou a tais extremos de desumanidade... mas dizem que o amor é cego.

26/11/09

MUDAR O MUNDO

Há muito, muito tempo, quando me projectava no futuro imaginava-me sempre no papel de salvadora do mundo. Mesmo quando o meu maior sonho era ser astronauta, o objectivo era sempre ter um impacto que ficasse na história. Tinha um bocado a mania das grandezas, é verdade. Depois, comecei a descer à Terra, a ganhar consciência social e continuava a querer salvar o mundo a trabalhar em campos de refugiados ou nos lugares mais inóspitos onde as pessoas morriam de fome. Eram os anos 80 e pela primeira vez as imagens de fome na Etiópia, a guerra do Biafra, o espectáculo humanitário do Live Aid ,entravam-nos pela casa dentro. Mas nessa altura a indústria do desenvolvimento ainda era uma criança e as minhas primeiras tentativas de sair para salvar o mundo foram frustradas.
Rapidamente comecei a perceber que não havia fome só em África. Lá no burgo, apesar de estarmos a ser invadidos de dinheiro dos fundos estruturais e a modernizar as nossas infra-estruturas, as nossas instituições e a nossa economia também havia quem passasse fome, quem não tivesse onde viver, quem não pudesse ir à escola.
Muitas voltas da vida depois, acabei por ir parar a África e por centrar o meu trabalho no continente. Mas já não tenho a mania das grandezas nem acredito no meu poder para salvar o mundo inteiro (nem sei se é suposto ter salvação). Hoje em dia, perguntam-me muitas vezes o que é preciso fazer para vir trabalhar para África. E eu pergunto sempre “Mas o que queres vir para cá fazer?”. Na grande maioria das vezes a resposta é sempre igual “Quero ajudar os pobres, as criancinhas, os que morrem de fome”. Eu respiro fundo (reconheço à distância aquela mania das grandezas de salvador do mundo) e normalmente digo “Se é por isso que queres vir, não precisas, podes fazer o mesmo em qualquer lado. Basta abrir os olhos para ver que na nossa “casa” também há pobreza, desigualdades e injustiças”. Eu sei que na maioria das vezes devo dizer isto até com alguma frieza e cai mal a quem sonha ser super-homem ou super-mulher com a melhor das intenções. O problema é que de boas intenções e gente cheia de super poderes ao serviço dos fracos e oprimidos, mas que só os querem usar em lugares exóticos e desconhecidos, está o mundo cheio.
E devem, por esta altura estar a perguntar “Mas então o que é que ela está lá a fazer?”, o que é mais que legítimo. É fácil, eu estou aqui por mim e não pelos outros. Estou nesta parte do mundo porque quero aprender mais sobre culturas que me fascinam, sobre sociedades que não entendo e, sobretudo, porque quero aprender mais sobre mim própria e crescer como pessoa. E eu sei que o facto de me expor a situações extremas, duras, ou nem por isso à vezes, mas o exercício da flexibilidade e da adaptabilidade permite-me confrontar-me comigo própria e descobrir-me. Não estou cá para ajudar ninguém, não mais do que ajudaria em qualquer outro lugar, porque a diferença acredito que a fazemos com as pessoas que nos rodeiam todos os dias.
Recentemente vivi um momento lindo, que me fez pensar nestas coisas. Fiz um pequeno curso de psicologia e aconselhamento infantil que me deu imenso prazer e que me ensinou a recorrer aos jogos e às brincadeiras para comunicar com crianças que sofrem de traumas. Pouco depois, num dia em que estava a fazer voluntariado no orfanato em Ruiru aproximei-me de uma menina que anda sempre muito caladinha mas que se agarra às nossas pernas e braços como se fosse uma questão de vida ou morte. Peguei num papel e lápis de cera de todas as cores e sentamo-nos no chão. Pedi-lhe para desenhar qualquer coisa e ela assim o fez. Pedi-lhe para explicar o que tinha desenhado e de repente vi abrir-se a porta para o coraçãozinho dela. Através do simbolismo dos desenhos com que ia enchendo a folha de papel falou-me dos medos, dos sonhos, da vida.
Claro que nada disto substitui uma terapia especializada com alguém devidamente qualificado, que infelizmente não temos e de que muitos miúdos precisam. Mas naquele momento fez a diferença, abriu uma porta, criou uma ponte para o mundo de outra pessoa. Uma ponte que permite ajudar a mudar esse mundo, a construir segurança e confiança onde só há medos, a levar explicações onde só há perguntas e confusão, a plantar afecto onde só há ressentimento e abandono. E visto assim, apesar de estar a falar apenas de uma menina de 8 anos, uma única pessoa no meio dos biliões de pessoas do mundo, parece-me muito, parece-me importante e sinto que estou mesmo a mudar o mundo; pelo menos o meu e o dela.

23/11/09

ESPIRITO DE NATAL

Comecei recentemente a reparar que as grandes cadeias de supermercados, os Continentes do Quénia, têm "ilhas" de cestas plásticas vermelhas e brancas, mas nunca percebi bem o que era. Finalmente explicaram-me, são os "cabazes de Natal" pré-fabricados para os patrões darem aos empregados de casa. Dentro das cestas estão uns quilos de farinha para fazerem a papa de milho, óleo e outro tipo de farinha para as chapatis (uma espécie de crepes que substitui o pão). Cada cesta custa a módica quantia de 12 euros. Nada de mais para um presente de Natal a quem lhes cuida da casa, dos filhos, do cão e lhes atura os dias bons e maus e, muita falta de educação. O que é curioso é que estas pessoas ganham por mês pouco mais do que o valor da cesta, muitos deles apenas 20 ou 30 euros e com isso sustentam famílias. Se em vez da pirosa e poluidora cesta plástica lhes dessem pelo menos o valor dela em dinheiro, eles apreciariam muito mais, comprariam muito mais coisas do que a cesta contém e pelo menos poderiam escolher em que gastariam aquele dinheiro que lhes faz tanta falta.
Quando vi isto, pensei nas cores do Natal. Os italianos de Breccia (alguns) querem um "White Christmas", sem imigrantes de outras cores e aqui no Quénia temos cestas natalícias para celebrar o "Black Christmas" que é a cor dos pobres.
E assim vai o espírito de Natal num mundo a preto e branco.

22/11/09

O QUÉNIA NO SEU MELHOR

Um destes dias cheguei a casa feita num oito, como se diz na minha terra :). Tinha andado um bom bocado a pé e cheguei a casa cheia de dores na perna e na coluna e atirei-me para o sofá a ver se a coisa passava. Nisto chega a Lucy para a sessão de limpeza e mal eu lhe digo porque estou tão quietinha, ela não tem meias medidas: saca um frasquinho da carteira, levanta-me a saia e massaja-me violentamente a perna, isto sem eu ter tempo, nem para dizer “Ai!”. Muito rapidamente põe-me ao corrente dos efeitos milagrosos do líquido no frasquinho. “Isto é tiro e queda, cura tudo” e a seguir vieram dois ou três exemplos de mazelas desaparecidas em familiares e amigos próximos, tudo, graças ao miraculoso produto (cá para nós, com uma inquietante cor amarela!).
Peço-lhe então para ver o frasquinho e leio o micro rótulo a ver se descobria o princípio activo da coisa. Basicamente o que dizia, em vez da composição era o seguinte “Este medicamento é milagroso e actua através do Espírito Santo. Caso não fique curado é porque não tem fé suficiente.”
Claro está, que a coisa só passou com uma bela dose de anti-inflamatórios, uns medicamentos muito mais democráticos, que tanto curam crentes como descrentes.


Fiz um curso prático de Psicologia e Aconselhamento infantil, muito interessante mas sofri um choque cultural violento logo na primeira sessão. Pouco depois das apresentações, pediram-nos para fazer uma lista de “Regras da sala de aula” (lembro que éramos todos adultos, formados e profissionais). A Lista de regras era infindável e, por vezes, contraditória. Não se podia interromper a aula, mas devíamos participar activamente, devíamos limitar os nossos movimentos (não sei mt bem a quê), tivemos de eleger uma espécie de delegado de turma e tínhamos de nos respeitar uns aos outros. No entanto, no momento seguinte dei por mim a assistir a uma discussão acesa sobre quantas vezes por dia deveríamos rezar durante a formação. Disse bem, não era se devíamos rezar, mas quantas vezes e a grande maioria inclinava-se para o número 5 (à chegada, antes de cada intervalo, ao almoço e à saída). Eu acho que fiquei um bom tempo paralisada a tentar perceber o que se passava até que não aguentei mais e apelei ao meu direito de não rezar ao senhor vez nenhuma. “Vocês rezem as vezes que quiserem, mas não esperem que toda a gente partilhe o mesmo sistema de crenças. Eu não rezo e quando vocês rezarem eu vou lá fora tomar um cafezinho”. Surpreendentemente, a única pessoa não africana que lá estava, uma rapariga argentina, apressou-se a dizer que me fazia companhia.

Hoje vinha do Centro de Rebilitação e uma colega de lá passou num centro comercial e parou para perguntar a que horas fechava ao domingo. Quando lhe perguntei que lugar era aquele, disse-me que era o centro comercial das Nações Unidas. Ou seja, os funcionários para além de receberem principescamente e terem regalias sociais do outro mundo, imunidade diplomática e uma polícia só para eles, também têm uma espécie de department store só deles totalmente tax free.

16/11/09

O QUÉNIA DE 5 EM 5

5 DESCOBERTAS BOAS
1 - A Aljazeera, um dos melhores canais de informação que conheço
2 - O sumo de tree tomato... divinal!
3 - Meditação... fiz um curso, comecei a praticar e fiquei agarrada
4 - Os safaris e a vida selvagem (a0 vivo é muito mais interessante que no NG)
5 - O Talismã, o meu restaurante preferido no mundo inteiro


5 DESCOBERTAS ESPANTOSAS
1 - A poderosa indústria filipina de telenovelas dramáticas onde nunca faltam ceguinhos, gémeos, bastardos mal amados e maus como as cobras, sogras do demo e heroínas românticas burras todos os dias.
2 - A poderosa indústria cinematográfica da Nigéria - Nollywood - um mundo!
3 - A comunidade Somáli e a Somália sobre as quais poucas referências tinha e que passaram a fazer parte da minha vida.
4 - O inglês do Quénia. É um facto que jamais vou entender correctamente o que as pessoas dizem.
5 - O preço das massagens e dos produtos de spa (um luxo acessível devido aos ordenados miseráveis)

5 DESCOBERTAS TRISTES
1 - A dimensão brutal da divisão social (de origem étnica, de género, económica etc)
2 - O fosso económico sem fundo entre miseráveis, pobres, ricos, muito ricos e escandalosamente ricos
3 - A corrupção paralizante e presente em todas as dimensões da vida
4 - O Norte árido, pobre e esquecido (e onde habitam algumas das tribos mais extraordinárias do continente)
5 - O fanatismo religioso e o obscurantismo alimentado por quase todas as religiões

Corrupção, batota ou apenas outsourcing num mercado competitivo?

Um artigo de opinião delicioso. Ora espreitem :)


http://www.nation.co.ke/oped/Opinion/-/440808/685850/-/4pn4d9/-/index.html

05/11/09

QUE GÉNERO DE IGUALDADE QUEREMOS CONSTRUIR?

O casamento entre dois homens de origem queniana, que teve lugar recentemente no Reino Unido, deu origem no Quénia a expressões de homofobia próximas do delírio colectivo mas abriu o debate, ainda que muitas vezes insano, sobre um dos maiores tabus deste e de muitos países africanos. E quando a maioria, incomodada simplesmente por ter de falar no assunto, preferia que os homossexuais simplesmente não pudessem existir, eu questiono-me até que ponto não estamos nós todos, ainda que através do silêncio e da negligência, a participar neste jogo perigoso contra os direitos individuais, quando criamos, por exemplo, Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, que defendem a igualdade de género apenas numa perspectiva heterossexual moralista.

Um dos argumentos mais utilizados e quanto a mim dos mais absurdos e desinformados, é o de a homossexualidade não existir em África e de a sua defesa ser uma forma de imperialismo ocidental. Ora o imperialismo tem as costas larguíssimas por aqui e a sua definição é bastante selectiva. Também é considerado imperialista, por muitos, a defesa dos direitos das mulheres ou a insistência da comunidade internacional na necessidade de acabar com a corrupção, ou até os direitos laborais. Claro que já não é de todo imperialista a dinâmica cada vez maior de destruição ambiental ou os padrões de consumo. A referência ao imperialismo serve sobretudo para accionar o sentimento de culpa ocidental quando se tenta promover direitos e liberdades, como se as culturas fossem estanques, fechadas ao mundo e às influências exteriores e como se fosse possível cristalizá-las. Ou seja, como se fosse possível ter telemóveis de última geração e internet e dar a volta ao mundo em algumas horas, mas continuar a viver de acordo com a sociedade do tempo de Jesus ou Maomé, sociedade esta, ainda por cima, interpretada ao bel prazer de cada um, de cada pastor, de cada padre, de cada líder muçulmano.

No Quénia, a respeito desta questão, a única coisa verdadeiramente imperialista, é a lei que criminaliza a homossexualidade, que foi introduzida no início do sec. XX pelo governo colonial britânico, baseada numa lei inglesa de 1533, que tornou o crime punido com pena de morte até 1861, altura em que foi reduzida para prisão entre 10 anos a perpétua. Em Inglaterra a homossexualidade foi descriminalizada em 1967 pelo “Sexual Offences Act”, mas mantém-se no Quénia onde esta herança do imperialismo britânico justifica, agora, um puritanismo africanista que não é mais que o resultado deste cocktail onde a uma lei caduca dos ingleses, se junta o fundamentalismo religioso (de todas religiões), o obscurantismo e o desrespeito pelo indivíduo.

O artigo de opinião de Okiya Omtatah Okoiti, com o título “Unlike Christianity and Islam, homosexuality is unAfrican”, publicado no Daily Nation resume na perfeição o tipo de posições que se esgrimiram a propósito deste assunto. Mas outros argumentos competem para a insanidade da discussão a que por cá se assiste, entre os quais, a ligação constante da homossexualidade à pedofilia com várias pessoas a afirmarem que se se aceitar um comportamento estamos a um passo de aceitar o outro. Esquecem-se, estes malabaristas da retórica, que num caso estamos a falar do comportamento sexual consentido entre dois adultos e noutro de abuso sexual de menores. Se pensarmos que esta semana foi notícia de primeira página um relatório que denuncia o abuso sexual continuado de milhares de raparigas quenianas, nas escolas, pelos próprios professores, homens supostamente heterossexuais, e que o impacto da notícia foi muito menor do que a do casamento destes dois cidadãos quenianos, algo vai muito mal. Não entendo!

Felizmente, muitas foram também as vozes que se ergueram para refutar estes argumentos violentos e defender a privacidade do casal em causa, apesar do risco, sempre presente, de serem eles próprios acusados de serem homossexuais (caso contrário não os defenderiam, no pensamento de muitos). Recordo em particular uma observação de uma das principais cronistas da imprensa queniana, uma mulher sem papas na língua, que afirmava a propósito, que o maior problema dos quenianos era preocuparem-se em demasia com o que se passa em cama alheia. Eu não podia concordar mais!

Mas a bem da discussão, independentemente dos argumentos, o melhor de tudo foi ter-se criado espaço para falar em público de tão grande tabu. Os jornais foram invadidos literalmente por e-mails e cartas veementes, contra e a favor, a questionar e a informar… enfim, a opinar sobre a homossexualidade.

Mas a defesa da homossexualidade é uma falsa questão. Não é a homossexualidade ou a heterossexualidade que deve ser defendida, mas os indivíduos que, independentemente das suas orientações sexuais, papéis sociais ou de género devem ter acesso aos mesmos direitos de cidadania e ao respeito. E é por isto mesmo que as políticas de desenvolvimento e nomeadamente os ODM, ao centrarem-se exclusivamente na promoção da igualdade de género, estão a ser insuficientes e a pactuar com uma visão redutora da sexualidade humana assente na heterossexualidade e na dicotomia do masculino e feminino. Nem sequer vou argumentar recorrendo a Foucault ou outros pensadores contemporâneos sobre a construção social do próprio sexo, que tem muito que se lhe diga, como resposta à recorrente visão funcionalista da sexualidade e sobre o que é “natural” ou não é “natural”.

Quero apenas deixar aqui um alerta preocupado, para a necessidade de se ir mais longe e com mais empenho na defesa dos direitos dos indivíduos que é tão frágil em tantos lugares do mundo. Apesar de compreender, de certa forma, a limitação dos ODM no que respeita à defesa exclusiva da igualdade de género, como forma de centrar todos os esforços e recursos nessa batalha árdua, não posso deixar de achar a estratégia perigosa e reflexo de um certo moralismo ocidental, onde apesar do muito já alcançado em termos da garantia de direitos individuais, se continua a advogar a heterossexualidade como modelo de comportamento sexual “correcto“. Acredito sinceramente que seria muito mais produtivo e justo defender a igualdade entre todos os indivíduos, independentemente da sua cor, etnia, género, orientação sexual, classe social ou religião. Seria mais difícil, é certo, pois não há sociedades perfeitas onde todos vemos expressas as nossas convicções e valores, mas promoveria o respeito pelas diferenças e o diálogo.

04/11/09

NOTÍCIA DO DIA

Não é uma notícia em destaque nos media quenianos, mas é a notícia do dia para mim, que ainda estou a digerir o conteúdo.
Na Somália, os "Rebeldes" fundamentalistas, ligados aos talibã da al-Qaeda, proibiram a utilização de toques de telemóvel com música, isto depois de recentemente terem proibido a dança, a música e o cinema, incluindo nos casamentos. Por lá os telemóveis só podem tocar pregações e canticos religiosos. Na passada semana um desgraçado mais herege levou com 25 chicotadas em público por ter sido apanhado a ver vídeos musicais indianos no telemóvel. Dizem os senhores da Lei que estas medidas são fundamentais para eliminar todas as fontes de corrupção das pessoas.
O que eu me tenho lembrado do Ahmed, que tem um Ipod recheado de boa música e que segundo ele é o único conforto que lhe resta quando está lá em reportagem.
Só me apetece chorar, não sei bem se de riso se de tristeza... talvez das duas coisas.

01/11/09

FINALMENTE OS JACARANDAS FLORIRAM

Creio que no primeiro post que escrevi nesse blogue depois de chegar a Nairobi disse, que jamais iria embora sem ver os jacarandas em flor e ao fim de tanto tempo por cá, já começava a questionar-me se alguma vez veria as maravilhosas florzinhas azuis.
O desacerto da estação das chuvas que tardou e terminou demasiado depressa parece que teve alguma coisa a ver com o atraso deste encantamento, mas depois de estar fora mais de um mês, regressar e ver a cidade pintada de azul emocionou-me. Eu gosto de árvores, e por cá, por estas latitudes, tenho uma admiração tremenda pelos embondeiros, imensos e peculiares e um carinho especial pelas acácias que me dão sempre a sensação de estarem de braços abertos ao Sol, mas os jacarandas são as que mais me encantam, principalmente quando explodem de cor. É uma arvorezinha de aspecto frágil e delicado mas que quando floresce parece etérea e transforma-se numa espécie de nuvem azul que ofusca tudo à sua volta. Aqui ofusca a poluição, o caos urbano, o pó e põe-me a olhar para o céu.
Não podia ter recebido melhor presente de boas-vindas!
E com os jacarandas em flor parece que veio também a chuva persistente para acabar com a seca, ou pelo menos para aliviar o sofrimento dos milhões de pessoas mais afectadas pela falta de água. E se bem que a fome não acaba de um dia para o outro, a esperança trazida pelas chuvas, que segundo as previsões vão ser estáveis até Janeiro, já levou muitos agricultores a voltar a lançar sementes à terra, à espera do milagre da vida e da renovação.
Vou ver se por estes dias me aventuro num safari fotográfico, pela cidade pintada de azul, para poder mostrar-vos aquilo que com as palavras não consigo descrever.

29/09/09

A PERGUNTADORA NA TERRA DOS FIORDES

Um interregno na experiência africana pode fazer maravilhas, sobretudo se formos para os antípodas do contexto em que vivemos. Ajuda a colocar as coisas em perspectiva e a aliviar a tensão originada pelo estado permanente de choque cultural. Uma conferência em Trondheim, na Noruega. Uma oportunidade para partilhar e discutir os dados da investigação recolhidos até agora Uns dias livres para conhecer um pouquinho a terra dos fiordes. Um artigo para terminar longe do terreno, com outro olhar sobre a realidade. Imensos estereótipos sobre o Norte destruídos a cada minuto que passa. Um cenário natural tão avassalador que nem apetece tirar fotografias porque o produto final é mentira, é menos bonito que o original. Um friozinho de arrepiar que sabe bem como variação ao calor. Um país pintado de cores de Outono para fugir à “monotonia” do verde luxuriante ou do pó e da terra vermelha. Um país de fiordes, rios e lagos para compensar as saudades da água de quem vive em Nairobi. Ar puro e águas cristalinas. A Perguntadora a descobrir coisas novas, feliz e com tempo e condições para processar informações armazenadas.

A conclusão tranquilizadora de que mudar e experimentar coisas novas ajuda a resolver quase tudo.

E a certeza de que o mundo é um lugar plural e diverso e que aí reside toda a sua beleza e encanto.

23/09/09

MASAI MARA







É o parque natural mais famoso do Quénia e um nome que nos transporta imediatamente para a África dos safaris (no verdadeiro sentido da palavra, uma vez que safari significa viagem em Swahili) e da vida selvagem.

Já lá fui duas vezes. A primeira experiência foi má. Não gostei. A segunda foi uma surpresa, um incidente que colocou o Mara no meu mapa dos afectos para sempre.

Como quase tudo na vida, o resultado final depende de nós, do nosso estado de espírito, da nossa abertura a desafios, da forma como lidamos com a vida... no entanto, quando se trata de um safari em Masai Mara as coisas também dependem um bocadinho de quem nos está a mostrar o parque. Uma pessoa pode ter a maior tolerância do mundo e a maior abertura possível aos desafios mas se der de caras com um tipo como o Cobra (o primeiro guia que me levou ao Mara), funcionário de uma empresa turística de vigaristas que nos cobra muito mais dinheiro do que o inicialmente acordado, senhor de uma enorme falta de educação, profissionalismo e ainda por cima arrogante, não há grande saída. Se juntarmos a tudo isto o facto de ele desconhecer o parque, temos garantido o pior safari de sempre, uma enorme desilusão e dias de tensão garantida. Eu, que sou uma rapariga calminha e ponderada tive vontade de lhe arrancar os olhos várias vezes!

Para mim é um facto que o parque está sobrevalorizado na bolsa turística, é o paradigma do safari de massas, é inexplicavelmente caro e alguns acessos são tão maus que podem estragar o espírito para a viagem antes de lá se chegar. Sobretudo a estrada de Narok, a mais usada, que liga Nairobi ao parque, representa horas e horas de buracos, pó, mais pó e mais buracos e uma viagem penosa e desmotivadora. Isto num país que, para os padrões africanos, até tem estradas decentes e naquele que é o itinerário mais usado pelo turismo, a indústria mais importante do país. Não se percebe muito bem!

Mas adiante... vamos aos aspectos mágicos e inesquecíveis e a algumas dicas para evitar os piores.

O parque de Masai Mara, no sudoeste do Quénia está ligado ao Serengeti, na Tanzania. Basicamente trata-se de dois nomes diferentes para designar uma mesma coisa, que por acaso (ou nem por isso) tem uma fronteira pelo meio e administrações diferentes e nacionalidades diferentes. Ora, nós sabemos isso, a fronteira está lá para toda a gente ver no meio da savana, mas os animais selvagens não sabem e não havendo forma de lhes ensinar coisas tão importantes como o patriotismo, o respeito pelas leis fronteiriças ou o ódio reciproco por terem pertenças territoriais diferentes, eles passeiam-se de um lado para o outro, como sempre fizeram, ignorando as fronteiras dos homens e seguindo apenas os seus instintos de sobrevivência. Esta indisciplina animal dá origem ao mais extraordinário espectáculo do parque: a grande migração, quando milhões de animais circulam entre o Serengeti e o Masai Mara, em busca de água, de alimentos, para acasalar ou para parir.

É fascinante a quantidade de animais que se podem facilmente ver de um lado para o outro durante um pequeno passeio no parque. Então se tivermos um bom guia, que conheça o parque e saiba em que zonas estão as diferentes espécies, o espectáculo é garantido.

A minha segunda visita ao Mara foi inesperada. Um belo jantar em Kisumu, junto ao lago Vitória, uns amigos em férias a conhecer o Quénia, a vontade de ir ao Mara, uma pergunta inocente ao gerente do resort “Vocês organizam safaris?”, um telefonema a um amigo dele que aluga viaturas e quando damos conta tínhamos marcado uma visita de doidos ao Masai Mara, por um preço inacreditável para dois dias depois.

Saída às 5 da manhã, 5h de viagem, por Kisii e através de vales e montanhas verdes. Uma boa estrada que se transforma em picada (e em ringue de lutas na lama se chover, como pudemos verificar no regresso!) nos últimos quilómetros. Chegamos ao Mara a meio da manhã e ficamos sem fôlego quando avistamos a imensidão da savana do topo de uma montanha depois de atravessar uma das regiões mais verdes do país. Lembro que a savana fica a 2000m de altitude e que portanto, nós estávamos bem mais altos. Não há fotografias que façam justiça ao impacto desta paisagem. O horizonte a perder de vista, a savana pintada de mil tons de ocre e amarelo pontuada por pequeninas manchas escuras, que são as acácias, o silêncio imponente, o céu sem fim e aquela sensação de pequenez que nos faz tanta falta, que não quer dizer que somos insignificantes, mas apenas que somos parte integrante de algo bem maior. É maravilhoso!

Chegados à entrada do parque e depois de desembolsar $60 cada estrangeiro e 1000Ksh (cerca de 10 euros) cada residente, que foi o meu caso (apesar de não ser verdade) porque um dos guardas não me queria fazer desconto de estudante e o outro simpatizou comigo e acabou por fazer ainda mais, o desconto de residente, achamos por bem contratar os serviços de um ranger do parque para nos guiar. É a melhor solução e a mais barata. Alugar um carro todo o terreno com motorista e depois no parque os serviços de um ranger, (a partir de 15 euros) que conhece o território e os animais como ninguém.

Depois é um desfilar interminável de espécies, paisagens, emoções e Masai Mara conquista-nos para sempre. E se juntarmos à experiência uma visita a uma aldeia Masai, um dos povos mais emblemáticos do Quénia, nativos da região, que vivem em harmonia com a savana e que andam a ser empurrados de um lado para o outro, em reservas inventadas desde que Masai Mara passou a servir o turismo, temos a cereja em cima do bolo e a garantia de uma experiência absolutamente inesquecível. Claro que como tudo no Quénia, tem um preço. É preciso negociar a entrada com o chefe da aldeia. A mim parece-me mais que justo! Afinal os Masai, que são o povo da savana, são os que menos ganham com a indústria turística e os que mais sofrem por causa dela.