18/01/10
NOVO ENDEREÇO
WWW.HISTORIASASOLTA.WORDPRESS.COM
ESPERO QUE GOSTEM E CONTO COM OS VOSSOS COMENTÁRIOS E OPINIÕES PARA TORNAR ESTE BLOGUE AINDA MELHOR.
14/01/10
MZALENDO, O PATRIOTA
Mas em muitos lugares do mundo a situação é ainda mais grave do que em Portugal, muito mais grave. Muitas democracias são artificias. outras tantas são jovens, outras ainda de democracia só têm o nome. Em muitos lugares falta consciência democrática, conhecimentos e instrumentos de participação social e de supervisão do Estado e falta sobretudo um certo nível de bem-estar social que permita às pessoas serem cidadãos de pleno direito. Não tenhamos ilusões. Enquanto a primeira preocupação do indivíduo for a sobrevivência até ao dia seguinte, seja por falta de comida, de água, de segurança, não podemos esperar que ele seja activo na defesa e no desenvolvimento dos seus concidadãos. E em muitos lugares este é o quotidiano da maior parte da população e a democracia apenas uma palavra estrangeira, imposta por estrangeiros para satisfação de alguns estrangeiros.
Apesar de tudo, de vez em quando, o solo mais árido pode produzir milagres, como as rosas efémeras do deserto de Atacama, da mesma forma que nas sociedades mais improváveis podem surgir fenómenos sociais extraordinários e inspiradores.
O Quénia não é um exemplo de estabilidade e maturidade democrática e enfrenta os mesmos problemas de muitos outros países no mundo onde a democracia não foi conquistada pelo povo mas imposta pela comunidade internacional e onde a maior parte da população se preocupa mais com a sobrevivência quotidiana do que com a participação social. Também não é um exemplo de transparência e responsabilidade governativa. Mas foi aqui que nasceu, contra todas as probabilidades, o MZALENDO: Eye on Kenyan Parliament e o MARS Group Kenya, dois sites que têm por objectivo supervisionar e responsabilizar o Estado. Curiosamente, mzalendo, significa "patriota" em Swahili e, de facto, haverá maior acto de patriotismo (seja o nosso conceito patriótico associado a fronteiras, línguas, religiões ou pertença comum à humanidade) do que monitorizar, denunciar, comentar e participar para cuidar da nossa sociedade?
12/01/10
06/01/10
AMIGOS DO LAGO VITÓRIA
ais de 68 000 km2 é o maior lago africano, o maior lago tropical do mundo e é partilhado por três países: o Uganda, a Tanzânia e o Quénia. É uma fonte de vida incomparável na região, fundamental mas não infinita. Mais de 30 milhões de pessoas dependem dele para viver e muitas culturas e tradições estão a ele associadas. Infelizmente, como acontece um pouco por todo o mundo, os problemas ambientais que enfrenta são muitos e o lago está a morrer lentamente. Mas há também cada vez mais organizações envolvidas na protecção do Lago Vitória, com uma dinâmica impressionante. No Quénia, tenho a oportunidade de acompanhar de perto uma delas, a OSIENALA, onde alguns amigos trabalham e tenho aprendido imenso sobre preservação, sustentabilidade e educação ambiental. É um mundo novo para mim mas é um mundo cheio de esperança.O grande lago sofre de vários males. Os mais óbvios talvez sejam a pesca excessiva (sobretudo a pesca desregulamentad
O que eu não esperava, até porque a sociedade c
A própria OSIENALA que conta com vários doadores e tem uma dimensão apreciável, financia associações e grupos de jovens mais pequenos que desenvolvem projectos de cariz mais local, em toda a região. Um projecto que considero particularmente interessante é, por exemplo, o desenvolvimento da aquacultura como forma de combate à excessiva exploração de recursos piscatórios no lago, com tanques experimentais nas instalações da própria organização e com a criação de infra-estruturas na comunidade e com a comunidade para este tipo de actividade. O eco-turismo e o artesanato (com potencial para vir a obter uma futura certificação de produto do Comércio justo) são outras actividades complementares que tentam dar nova vida ao lago e aos seus
E fazem-se ouvir longe e onde é preciso, com representantes em reuniões como a que serviu para preparar a participação do Quénia na Cimeira de Copenhaga e em outras estruturas governamentais onde têm uma forte actividade de advocacy.
As organizações como a OSIENALA e os jovens que as integram são uma luz de esperança e uma força de mudança poderosa, assim como uma fonte de inspiração para todos aqueles que querem mudar o mundo e torná-lo num lugar melhor para todos. Bem hajam!
03/01/10
AFINAL NÃO ERA UM ROCHEDO COM BARRACOS
Na noite anterior dormi em casa das duas amigas alemãs que conhecia e que me convidaram e às 6h da manhã lá chegou o resto do pelotão com viaturas e mantimentos para ficarmos isolados na tal ilha até domingo. Ainda sem cumprimentos e apresentações que os alemães e eu estávamos em modo de recuperação do sistema, lá nos fizemos à estrada acompanhados por um nascer do Sol deslumbrante. Não sei se sabem, mas apenas 6% do Lago Vitória se encont
Contornamos a baía de jipe até ao Ferry, depois de Bondo, e atravessamos para Mbita, no extremo Sul da baía. Aí, apanhamos outro barco, agora mais pequeno, deixamos o carro para trás e fizemo-nos ao lago e durante mais de uma hora fomos contornando ilhas até que no extremo, quando já só se via água e céu no horizonte contornamos a ilha à nossa esquerda e o que vimos deixou-nos boquiabertos. Takawiri, a nossa ilha, é um pequeno reduto de pescadores, verd
Desembarcamos boquiabertos e alguns só diziam “Eu nunca estive num lugar assim!” (um à parte rápido apenas para explicar que o grupo de alemães era composto por 10 voluntários, que integram várias or
Matei o meu primeiro escorpião, no chão do chuveiro do meu quarto, às 19.00 do dia 31 de Dezembro de 2009, na ilha de Takawiri. A electricidade, solar, era muito fraquinha e eu já a pressentir o pior entro na casa de banho também de lanterna em punho a inspeccionar todos os recantos e lá estava ele, preto (descobri depois que também há brancos e que são mais venenosos e matei-os sem qualquer descriminação), grande, feio e com aquele rabo venenoso no ar. Morreu esborra
A passagem do ano propriamente dita foi indescritível… eu vou tentar, mas eu sei que não vou chegar nem perto do que realmente aconteceu. Jantamos principescamente, tudo acompanhado por um belíssimo tinto chileno e no final, preparamos cocktails e fomos para a praia em frente, onde uma enorme fogueira rodeada de cadeiras esperava por nós. No céu a lua cheia brilhava e, sem uma única nuvem no horizonte enchia de luz a última noite do ano. Era como se fosse dia mas com a luz banca intensa a pratear o mar e a areia branca. Nunca tinha visto nada assim! Como se não bastasse,
Os dias seguintes foram dias de preguiça, encantamento e boa disposição. Tivemos aulas de dança com especialistas em danças de salão, tivemos campeonatos de bilhar competitivos, tivemos até rabanadas nos trópicos numa das noites, dançamos as músicas mais pirosas das décadas de 80 e 90 e fizemos festas até de manhã, onde até os guardas e os empregados se juntavam a nós para dançar.
Depois de um início de ano assim, eu estou serenamente à espera para ver o que o resto do ano me reserva. E estou o
P.S. Hoje a minha irmã faz anos e eu muito gostava de poder partilhar estas e outras experiências com ela... jà falta pouco :). Não te preocupes que eu trato de exterminar a bicharada antes de chegares. Parabéns e um beijinho enorme cheio de saudades!
28/12/09
AINDA O NATAL... poucas coisas são o que parecem!
Para comprar um bolo dou por mim num cibercafé, rodeada de computadores e no balcão improvisado alguém nos mostra um pequeno catálogo de bolos de festa para fazermos a encomenda. Uma farmácia moderna, pode ser também um posto de venda de galinhas e o negócio acontece no minúsculo gabinete de óptica e em vez de sairmos de lá com um novo par de óculos, saímos com uma saca de frangos depenados ou a cacarejar, conforme a nossa preferência. E é assim com quase tudo, inclusive com o Natal.
No dia 24 de Dezembro não acontece nada, é um dia normal sem celebrações de qualquer espécie. O meu típico jantar de consoada este ano resumiu-se a pizza, cerveja e um bom filme, em casa, na companhia da Sharon e do Kayser (a empregada e o cão dos donos da casa).
No dia 25, acontece a grande celebração, bem diferente daquilo a que estamos habituados. Parecia S. João, com toda a gente na rua e festas por todo o lado, nos hotéis, piscinas e clubes. Grandes churrascos, borga, os miúdos com pinturas na cara, uma animação.
Ao jantar, as famílias juntam-se, o prato principal é galinha (uma iguaria que pode chegar a custar 5 euros nesta altura do ano), as prendas não são uma tradição e as compras resumem-se a roupa e sapatos novos, para quem pode.
A minha amiga Julie (se bem se lembram, a primeira amiga que fiz no Quénia e que foi minha colega nas aulas de Swahili) tinha-me convidado para celebrar o Natal com as freiras na comunidade dela aqui em Kisumu. Ainda cheguei a pensar em continuar em Diani e festejar por lá, mas sabia que elas contavam comigo e não queria decepcioná-las, por isso cheguei a 24 a Kisumu e dia 25 ao fim da tarde lá estava eu, no “convento” das School Sisters of Notre Dame, preparada para o Natal mais cristão da minha vida e a contar com um serão de rezas e rituais religiosos. ERRADO! (Felizmente, porque a perspectiva não era das melhores para mim).
Mal cheguei e entrei pela cozinha deparei-me com uma azáfama invulgar e uma excitação adorável. Havia música no ar, hip hop e Africana, e enquanto se ultimava o jantar dançava-se, ria-se e o ambiente era de festa e alegria. Vivem ali cerca de 20 mulheres religiosas e entre elas 12 são jovens de diferentes países africanos e de diferentes partes do Quénia que estão numa fase de preparação para a vida religiosa. São dois anos em que aprendem e experienciam a vida religiosa antes de decidirem se fazem os votos ou não.
Resultado: O jantar integrou iguarias de várias tribos do Quénia e de outros países de África pois todas queriam mostrar as suas tradições. Foi um festim de doces e salgados, vinho tinto, vinho branco (adoro o facto de os católicos gostarem de vinho!) e Baileys (a minha contribuição, a pedido das irmãs). Na sala de convívio uma árvore de Natal gigante rodeada de presentes (cada uma comprou presentes simbólicos para se trocar depois do jantar) e cheia de chocolates que as mais novas iam subtraindo de cada vez que passavam por lá. A seguir ao jantar, houve uma pequena celebração religiosa e pela primeira vez juntei-me a elas (viva o espírito de Natal!) e surpreendentemente gostei. A coisa integrou mais cânticos de Natal do que rezas (e elas cantam extraordinariamente bem) e foi bonito. Depois, foi a festa. Quando dei conta a sala estava cheia de djambés, chocalhos, pandeiretas e violas e a comunidade sentada em circulo, nos sofás e no chão à volta da árvore. Cantou-se muito. Mais tarde, retiramos uns números à sorte e distribuiram-se os presentes no meio de uma imensa alegria (para muitas das raparigas mais novas era a primeira vez que estavam a receber presentes) e muitas gargalhadas. A seguir mais música e dança. Afastaram-se os sofás e a sala transformou-se numa pista. Um grupo de raparigas nigerianas presenteou-nos com uma dança tradicional deliciosa e entraram na sala cheias de chocalhos nos tornozelos e à cintura, ao som de gritos de festa e tambores… maravilhoso!
Pela 1h da manhã, a minha amiga Julie, diz-me que bebeu um bocadinho de mais para pegar no carro e levar-me a casa e convida-me para dormir lá. Grande ideia, que eu também não me queria ir embora. E quando a maioria se foi deitar, ficou na sala um pequeno grupo divertido e acabamos a noite a partilhar a vida, a falar de coisas sérias a brincar, a contar o que nos ia na alma. Senti-me em casa, senti-me querida e mais uma vez confirmei que só estamos sozinhos se fecharmos o coração.
Foi um Natal memorável!
24/12/09
CHRISTMAS TIME
A viagem
Se não dermos demasiada importância ao facto de ser quase impossível dormir com a trepidação e o ruído do comboio, de nos cruzarmos com uma barata aqui e ali e de sermos acordados e chamados para o restaurante com alguém a bater em textos, a viagem na mítica linha do Uganda que, ligando o Quénia a este país, foi em tempos uma das mais importantes do leste de África, pode ser absolutamente encantadora.
Sete horas da tarde, Nairobi-Mombasa, 1ª classe. Basta entrar na estação para sentirmos uma certa nostalgia colonial e basta pôr o pé no comboio para começar a viajar mesmo ant
A paisagem, essa, fica-nos para sempre na memória desde o bairro de lata de Kibera e a zona industrial à saída de Nairobi, às montanhas, à savana, ao parque nacional de Tsavo e à vida selvagem que passa diante dos nossos olhos, sem esquecer as aldeias, os mercados e as crianças que dizem adeus e correm atrás do comboio ao longo de todo o percurso.
Diani Beach
A água é do mar, dessalini
E foi assim que aconteceu
Mas vamos ao princípio. Quarta-feira à noite partimos eu e a amiga da minha amiga, que não era minha amiga ainda (a minha amiga ia ter connosco apenas na sexta à noite). Desde que nos conhecemos na entrada da estação que ela me pareceu adoentada, mas só ao jantar é que tive confirmação das minhas suspeitas. A moça vinha da Zambia (onde viveu uns meses a participar num projecto de investigação) e sentia-se doente há uns quinze dias, mas não achou importante ir ao médico antes de ir de férias. Aos vinte e dois anos fazem-se coisas um bocado estúpidas. Acontece aos melhores. Mas bolas, não estamos em casa, o ambiente é hostil à nossa mzunguisse delicada, cheio de vírus, bactérias e parasitas estranhos e o mínimo que se pode fazer é ir ao médico mal nos sentimos doentes. Comecei a ver a minha vida a andar para trás quando durante a noite a febre começou a subir, a diarreia a agudizar e as dores de cabeça a aumentar.
Resumindo u
E estranhamente fiquei disponível para uma das minhas mais extraordinárias experiências humanas. Fiquei sozinha, num local desconhecido, cheio de gente. Devo dizer que o bar do Stilts é uma espécie de ponto de encontro de almas gémeas do mundo inteiro, onde se geram empatias instantâneas, sintonias improváveis e onde se constroem afectos. Deve ser o local do mundo com mais viajantes por metro quadrado, com mais gente que largou tudo e partiu um dia, sem destino, com mais gente que mudou de vida de forma radical e com mais gente disponível para os outros. Eu demorei 5 minutos a ultrapassar o meu inconfortável momento de solidão e a solidariedade demonstrada para com a minha amiga no hospital foi enternecedora. A coisa é de tal maneira que mais de metade das pessoas no Stilts, ou Stiltoers como lhes chama a Heidi, estava lá indefinidamente. Chegamos todos para ficar 2 ou 3 noites e depois vamos criando afectos, laços e vamos adiando a partida. O Adrian, que anda a viajar, sem parar quase há 3 anos está lá há meses e ainda não sabe quando parte, está à espera de “sentir” que é a hora.
E depois, aquela sensação constante de que nada é por acaso, de que as pessoas se atraem e se cruzam com propósitos misteriosos que às vezes só desvendamos mais tarde, depois de dizer adeus.
E depois estar em África, no meio do mato, partilharmos Ipods e descobrirmos que temos quase todos o mesmo tipo de música. Na primeira noite adormeci a ouvir Jeff Buckley e Nina Simone e parecia um sonho, a música a vir do bar e a chegar até mim misturada com os barulhos do mato nocturno e nos dias seguintes, dar por mim a beber gin tónicos ou a jantar chapatis e green grams (por 1,50 euros) ou a dançar ao som de Beirut, Morrissey ou Radiohead, com macacos empoleirados no tecto e osgas em alerta. O paraíso só pode ser assim. E gostar tanto de estar juntos, todos desconhecidos, que nem o maravilhoso “40 Thieves” na praia nos c
Mas nem tudo é perfeito, ou talvez seja, que a vida é feita de contrastes. A praia está cheia de beach boys, verdadeiros predadores de mzungu. Uns querem vender artesanato, outros querem propor negócios de safaris, de snorkeling e mergulho, outros querem apenas “engatar” uma mzungu e não nos deixam em paz. Se não lhes dermos asas vão embora e se ultrapassarmos a antipatia natural de quem vê constantemente o seu espaço invadido até podem ser bem divertidos. Recordo em particular aquela manhã, com a maré a baixar e eu, a Rea e a Nayma numa plataforma flutuante a apanhar banhos de sol, a rolar para a água e a voltar ao sol vezes sem conta. Chega o beach boy à beira da água, em calções e encaminha-se na nossa direcção. O paleio do costume “How are you beautiful lady?”, “Do you enjoy the sun? And Quenia?”… a cartilha Zézé Camarinha. Fartas de o aturar, a Rea, diz “Olha só falo contigo se for para negociar um treeking aos Shimba Hills amanhã.” O moço não tem mais nada saca de telemóvel, manda vir o “chefe” e a criatura aparece passado uns minutos à beira da água a acenar. Nós a preguiçar ao Sol, nem pensar em sair dali… se ele quiser fazer negócio que se faça á água e venha ter connosco. E foi a coisa mais insólita do mundo, eles de telemóveis e catálogos de fotografias e
A amiga da minha amiga acabou por ter alta na sexta a noite mas antecipou a partida e foram as duas embora no domingo ao almoço. Eu tentei dividir-me e passar algum tempo com elas na praia e apresentá-las a toda aquela gente extraordinária, mas elas ficaram muito pouco tempo. Eu adiei a viagem o mais que pude e ontem quando saí de lá com a Nayma fui até Mombasa com o coração apertado e à beira das lágrimas. Provavelmente nunca mais nos vamos ver.
Regresso acidentado
Cheguei de Mombasa a meio da manhã e impunha-se arranjar um bilhete de autocarro para Kisumu no mesmo dia. Para meu espanto os bilhetes estavam todos esgotados. É época de Natal e está tudo a viajar. Depois de muito esforço lá arranjei bilhete para um autocarro às 22h. A meio da tarde estava eu pacientemente a ler na sala de espera da central de autocarros quando me apercebo que o céu ficara negro como breu. A chuva começou a cair impiedosamente e o vento parecia que ia deitar abaixo árvores, casas e o que mais lhe aparecesse pela frente, incluindo os vidros da estação. Na sala de espera, as janelas começaram a bater violentamente e lá fora os relâmpagos sucediam-se sem parar. Comecei a reparar no ar de pânico das pessoas. Um rapaz à minha frente encolhia-se todos e tapava o ouvidos e as pessoas estavam agitadas e tensas. De repente um relâmpago poderoso, um estrondo enorme e lá fora fios eléctricos a faiscar no ar como fogo preso no S. João. E é então que acontece. O pânico. A multidão ensandecida de medo. Poucas coisas me assustam mais que uma multidão descontrolada e à minha volta em segundos só se ouviam gritos. Homens, mulheres e crianças, com as mãos na cabeça, a gritar e a correr sem direcção de um lado para o outro da sala, encolhidos, levando pela frente cadeiras, malas, caixas de galinhas (que por essa altura também cacarejavam assustadas) e eu, na ultima fila, encostada à parede, com a mão direita direita sobre a mochila e a esquerda a se
10/12/09
NAS ENTRANHAS DE KISUMU
Obrigado" para deixar o rapaz sossegado a aliviar-se e a avó dele, uma senhora grande e forte e com uma voz poderosa a mandá-lo sair da latrina que estava lá uma mzungu para espreitar aquela maravilha tecnológica. Foi um momento embaraçoso, pelo menos para mim, ver o moço sair de lá de dentro atarantado ainda a apertar as calças e ter a avó a puxar-me a mão para me enfiar lá dentro a ver o funcionamento da coisa: a separação da urina das fezes, os depósitos para ambas (nas latrinas ecológicas elas são transformadas em adubo), o tubo para saída dos gases (que as fezes produzem quando armazenadas), a qualidade dos materiais de construção. A senhora parecia uma engenheira a mostrar-me uma central nuclear! A juntar ao propósito insólito da minha visita, não podiam faltar as dezenas de crianças que corriam por todo o lado atrás de mim a gritar mzungu, mzungu how are you?, como se já não atraísse suficientemente a atenção haver alguém a meter o nariz nas retr
etes alheias. E se pensarmos que isto tudo se passou num dos maiores bairros de lata da cidade, sem qualquer tipo de saneamento, com as ruas e vielas transformadas em lamaçais, as casas coladas umas às outras numa manta de retalhos de materiais de construção, com o comércio e a indústria a transbordar para fora das casas (vendas de fruta, de chapatis, de carne, de peixe, de batatas fritas e de roupa, carpintarias, mecânicos, costureiras, construtores, chapeiros e sei lá que mais, todos a trabalhar à porta de casa no meio da lama) e eu, a mzungu mais famosa do bairro, a visitar latrinas, rodeada de dezenas de putos excitadíssimos com a minha presença, percebem a dimensão do meu embaraço. Mas acabou por correr tudo bem e depois de um belo banho purificador em casa, as coisas relativizaram-se: a experiência foi interessante, aprendi muito sobre latrinas, compostagem e adubos naturais, tive oportunidade de praticar o meu Swahili e ainda tive uma proposta de casamento, de um sujeito tão bêbado, mas tão bêbado, que andava atrás das crianças, que andavam atrás de mim (e não chegava até mim por questões óbvias de falta de equilíbrio) a gritar que queria casar comigo e a divertir toda a gente do bairro.
07/12/09
NYANZA
Mudei-me! Depois de 10 meses com sede em Nairobi e visitas aos 3 cantos do Quénia (o canto Norte infelizmente ainda está por explorar)instalei-me em Kisumu, onde vou ficar nos próximos meses a fazer o estudo de caso para a tese. Já cá tinha estado antes, já tinha escrito antes sobre o lugar e a região, já sabia que gostava da cidade e das gentes que por cá vivem e da proximidade do Lago Vitóri,a mas esta mudança tem-me dado que pensar. Logo na viagem para cá, mais de 7h de autocarro, comecei a esquecer as coisas que mais me incomodam neste país e que em Nairobi se me colam à pele como o fumo negro dos carros e me ofuscam a visão do todo. Depois de atravessar o Rift Valley, as encostas pintadas de verde bebé pelos arbustos de chá, os campos ondulantes de cana de açúcar, tudo iluminado por um Sol quente, brilhante e maravilhoso e chegar a Kisumu ao pôr-do-Sol, toda a negatividade que este país frequentemente me inspira tinha ficado para trás. E não é só a cidade, é a região toda do Nyanza (que significa "lago") que
26/11/09
MUDAR O MUNDO
Rapidamente comecei a perceber que não havia fome só em África. Lá no burgo, apesar de estarmos a ser invadidos de dinheiro dos fundos estruturais e a modernizar as nossas infra-estruturas, as nossas instituições e a nossa economia também havia quem passasse fome, quem não tivesse onde viver, quem não pudesse ir à escola.
Muitas voltas da vida depois, acabei por ir parar a África e por centrar o meu trabalho no continente. Mas já não tenho a mania das grandezas nem acredito no meu poder para salvar o mundo inteiro (nem sei se é suposto ter salvação). Hoje em dia, perguntam-me muitas vezes o que é preciso fazer para vir trabalhar para África. E eu pergunto sempre “Mas o que queres vir para cá fazer?”. Na grande maioria das vezes a resposta é sempre igual “Quero ajudar os pobres, as criancinhas, os que morrem de fome”. Eu respiro fundo (reconheço à distância aquela mania das grandezas de salvador do mundo) e normalmente digo “Se é por isso que queres vir, não precisas, podes fazer o mesmo em qualquer lado. Basta abrir os olhos para ver que na nossa “casa” também há pobreza, desigualdades e injustiças”. Eu sei que na maioria das vezes devo dizer isto até com alguma frieza e cai mal a quem sonha ser super-homem ou super-mulher com a melhor das intenções. O problema é que de boas intenções e gente cheia de super poderes ao serviço dos fracos e oprimidos, mas que só os querem usar em lugares exóticos e desconhecidos, está o mundo cheio.
E devem, por esta altura estar a perguntar “Mas então o que é que ela está lá a fazer?”, o que é mais que legítimo. É fácil, eu estou aqui por mim e não pelos outros. Estou nesta parte do mundo porque quero aprender mais sobre culturas que me fascinam, sobre sociedades que não entendo e, sobretudo, porque quero aprender mais sobre mim própria e crescer como pessoa. E eu sei que o facto de me expor a situações extremas, duras, ou nem por isso à vezes, mas o exercício da flexibilidade e da adaptabilidade permite-me confrontar-me comigo própria e descobrir-me. Não estou cá para ajudar ninguém, não mais do que ajudaria em qualquer outro lugar, porque a diferença acredito que a fazemos com as pessoas que nos rodeiam todos os dias.
Recentemente vivi um momento lindo, que me fez pensar nestas coisas. Fiz um pequeno curso de psicologia e aconselhamento infantil que me deu imenso prazer e que me ensinou a recorrer aos jogos e às brincadeiras para comunicar com crianças que sofrem de traumas. Pouco depois, num dia em que estava a fazer voluntariado no orfanato em Ruiru aproximei-me de uma menina que anda sempre muito caladinha mas que se agarra às nossas pernas e braços como se fosse uma questão de vida ou morte. Peguei num papel e lápis de cera de todas as cores e sentamo-nos no chão. Pedi-lhe para desenhar qualquer coisa e ela assim o fez. Pedi-lhe para explicar o que tinha desenhado e de repente vi abrir-se a porta para o coraçãozinho dela. Através do simbolismo dos desenhos com que ia enchendo a folha de papel falou-me dos medos, dos sonhos, da vida.
Claro que nada disto substitui uma terapia especializada com alguém devidamente qualificado, que infelizmente não temos e de que muitos miúdos precisam. Mas naquele momento fez a diferença, abriu uma porta, criou uma ponte para o mundo de outra pessoa. Uma ponte que permite ajudar a mudar esse mundo, a construir segurança e confiança onde só há medos, a levar explicações onde só há perguntas e confusão, a plantar afecto onde só há ressentimento e abandono. E visto assim, apesar de estar a falar apenas de uma menina de 8 anos, uma única pessoa no meio dos biliões de pessoas do mundo, parece-me muito, parece-me importante e sinto que estou mesmo a mudar o mundo; pelo menos o meu e o dela.
23/11/09
ESPIRITO DE NATAL
Quando vi isto, pensei nas cores do Natal. Os italianos de Breccia (alguns) querem um "White Christmas", sem imigrantes de outras cores e aqui no Quénia temos cestas natalícias para celebrar o "Black Christmas" que é a cor dos pobres.
E assim vai o espírito de Natal num mundo a preto e branco.
22/11/09
O QUÉNIA NO SEU MELHOR
Peço-lhe então para ver o frasquinho e leio o micro rótulo a ver se descobria o princípio activo da coisa. Basicamente o que dizia, em vez da composição era o seguinte “Este medicamento é milagroso e actua através do Espírito Santo. Caso não fique curado é porque não tem fé suficiente.”
Claro está, que a coisa só passou com uma bela dose de anti-inflamatórios, uns medicamentos muito mais democráticos, que tanto curam crentes como descrentes.
Fiz um curso prático de Psicologia e Aconselhamento infantil, muito interessante mas sofri um choque cultural violento logo na primeira sessão. Pouco depois das apresentações, pediram-nos para fazer uma lista de “Regras da sala de aula” (lembro que éramos todos adultos, formados e profissionais). A Lista de regras era infindável e, por vezes, contraditória. Não se podia interromper a aula, mas devíamos participar activamente, devíamos limitar os nossos movimentos (não sei mt bem a quê), tivemos de eleger uma espécie de delegado de turma e tínhamos de nos respeitar uns aos outros. No entanto, no momento seguinte dei por mim a assistir a uma discussão acesa sobre quantas vezes por dia deveríamos rezar durante a formação. Disse bem, não era se devíamos rezar, mas quantas vezes e a grande maioria inclinava-se para o número 5 (à chegada, antes de cada intervalo, ao almoço e à saída). Eu acho que fiquei um bom tempo paralisada a tentar perceber o que se passava até que não aguentei mais e apelei ao meu direito de não rezar ao senhor vez nenhuma. “Vocês rezem as vezes que quiserem, mas não esperem que toda a gente partilhe o mesmo sistema de crenças. Eu não rezo e quando vocês rezarem eu vou lá fora tomar um cafezinho”. Surpreendentemente, a única pessoa não africana que lá estava, uma rapariga argentina, apressou-se a dizer que me fazia companhia.
Hoje vinha do Centro de Rebilitação e uma colega de lá passou num centro comercial e parou para perguntar a que horas fechava ao domingo. Quando lhe perguntei que lugar era aquele, disse-me que era o centro comercial das Nações Unidas. Ou seja, os funcionários para além de receberem principescamente e terem regalias sociais do outro mundo, imunidade diplomática e uma polícia só para eles, também têm uma espécie de department store só deles totalmente tax free.
16/11/09
O QUÉNIA DE 5 EM 5
1 - A Aljazeera, um dos melhores canais de informação que conheço
2 - O sumo de tree tomato... divinal!
3 - Meditação... fiz um curso, comecei a praticar e fiquei agarrada
4 - Os safaris e a vida selvagem (a0 vivo é muito mais interessante que no NG)
5 - O Talismã, o meu restaurante preferido no mundo inteiro
5 DESCOBERTAS ESPANTOSAS
1 - A poderosa indústria filipina de telenovelas dramáticas onde nunca faltam ceguinhos, gémeos, bastardos mal amados e maus como as cobras, sogras do demo e heroínas românticas burras todos os dias.
2 - A poderosa indústria cinematográfica da Nigéria - Nollywood - um mundo!
3 - A comunidade Somáli e a Somália sobre as quais poucas referências tinha e que passaram a fazer parte da minha vida.
4 - O inglês do Quénia. É um facto que jamais vou entender correctamente o que as pessoas dizem.
5 - O preço das massagens e dos produtos de spa (um luxo acessível devido aos ordenados miseráveis)
5 DESCOBERTAS TRISTES
1 - A dimensão brutal da divisão social (de origem étnica, de género, económica etc)
2 - O fosso económico sem fundo entre miseráveis, pobres, ricos, muito ricos e escandalosamente ricos
3 - A corrupção paralizante e presente em todas as dimensões da vida
4 - O Norte árido, pobre e esquecido (e onde habitam algumas das tribos mais extraordinárias do continente)
5 - O fanatismo religioso e o obscurantismo alimentado por quase todas as religiões
Corrupção, batota ou apenas outsourcing num mercado competitivo?
http://www.nation.co.ke/oped/Opinion/-/440808/685850/-/4pn4d9/-/index.html
05/11/09
QUE GÉNERO DE IGUALDADE QUEREMOS CONSTRUIR?
Um dos argumentos mais utilizados e quanto a mim dos mais absurdos e desinformados, é o de a homossexualidade não existir em África e de a sua defesa ser uma forma de imperialismo ocidental. Ora o imperialismo tem as costas larguíssimas por aqui e a sua definição é bastante selectiva. Também é considerado imperialista, por muitos, a defesa dos direitos das mulheres ou a insistência da comunidade internacional na necessidade de acabar com a corrupção, ou até os direitos laborais. Claro que já não é de todo imperialista a dinâmica cada vez maior de destruição ambiental ou os padrões de consumo. A referência ao imperialismo serve sobretudo para accionar o sentimento de culpa ocidental quando se tenta promover direitos e liberdades, como se as culturas fossem estanques, fechadas ao mundo e às influências exteriores e como se fosse possível cristalizá-las. Ou seja, como se fosse possível ter telemóveis de última geração e internet e dar a volta ao mundo em algumas horas, mas continuar a viver de acordo com a sociedade do tempo de Jesus ou Maomé, sociedade esta, ainda por cima, interpretada ao bel prazer de cada um, de cada pastor, de cada padre, de cada líder muçulmano.
No Quénia, a respeito desta questão, a única coisa verdadeiramente imperialista, é a lei que criminaliza a homossexualidade, que foi introduzida no início do sec. XX pelo governo colonial britânico, baseada numa lei inglesa de 1533, que tornou o crime punido com pena de morte até 1861, altura em que foi reduzida para prisão entre 10 anos a perpétua. Em Inglaterra a homossexualidade foi descriminalizada em 1967 pelo “Sexual Offences Act”, mas mantém-se no Quénia onde esta herança do imperialismo britânico justifica, agora, um puritanismo africanista que não é mais que o resultado deste cocktail onde a uma lei caduca dos ingleses, se junta o fundamentalismo religioso (de todas religiões), o obscurantismo e o desrespeito pelo indivíduo.
O artigo de opinião de Okiya Omtatah Okoiti, com o título “Unlike Christianity and Islam, homosexuality is unAfrican”, publicado no Daily Nation resume na perfeição o tipo de posições que se esgrimiram a propósito deste assunto. Mas outros argumentos competem para a insanidade da discussão a que por cá se assiste, entre os quais, a ligação constante da homossexualidade à pedofilia com várias pessoas a afirmarem que se se aceitar um comportamento estamos a um passo de aceitar o outro. Esquecem-se, estes malabaristas da retórica, que num caso estamos a falar do comportamento sexual consentido entre dois adultos e noutro de abuso sexual de menores. Se pensarmos que esta semana foi notícia de primeira página um relatório que denuncia o abuso sexual continuado de milhares de raparigas quenianas, nas escolas, pelos próprios professores, homens supostamente heterossexuais, e que o impacto da notícia foi muito menor do que a do casamento destes dois cidadãos quenianos, algo vai muito mal. Não entendo!
Felizmente, muitas foram também as vozes que se ergueram para refutar estes argumentos violentos e defender a privacidade do casal em causa, apesar do risco, sempre presente, de serem eles próprios acusados de serem homossexuais (caso contrário não os defenderiam, no pensamento de muitos). Recordo em particular uma observação de uma das principais cronistas da imprensa queniana, uma mulher sem papas na língua, que afirmava a propósito, que o maior problema dos quenianos era preocuparem-se em demasia com o que se passa em cama alheia. Eu não podia concordar mais!
Mas a bem da discussão, independentemente dos argumentos, o melhor de tudo foi ter-se criado espaço para falar em público de tão grande tabu. Os jornais foram invadidos literalmente por e-mails e cartas veementes, contra e a favor, a questionar e a informar… enfim, a opinar sobre a homossexualidade.
Mas a defesa da homossexualidade é uma falsa questão. Não é a homossexualidade ou a heterossexualidade que deve ser defendida, mas os indivíduos que, independentemente das suas orientações sexuais, papéis sociais ou de género devem ter acesso aos mesmos direitos de cidadania e ao respeito. E é por isto mesmo que as políticas de desenvolvimento e nomeadamente os ODM, ao centrarem-se exclusivamente na promoção da igualdade de género, estão a ser insuficientes e a pactuar com uma visão redutora da sexualidade humana assente na heterossexualidade e na dicotomia do masculino e feminino. Nem sequer vou argumentar recorrendo a Foucault ou outros pensadores contemporâneos sobre a construção social do próprio sexo, que tem muito que se lhe diga, como resposta à recorrente visão funcionalista da sexualidade e sobre o que é “natural” ou não é “natural”.
Quero apenas deixar aqui um alerta preocupado, para a necessidade de se ir mais longe e com mais empenho na defesa dos direitos dos indivíduos que é tão frágil em tantos lugares do mundo. Apesar de compreender, de certa forma, a limitação dos ODM no que respeita à defesa exclusiva da igualdade de género, como forma de centrar todos os esforços e recursos nessa batalha árdua, não posso deixar de achar a estratégia perigosa e reflexo de um certo moralismo ocidental, onde apesar do muito já alcançado em termos da garantia de direitos individuais, se continua a advogar a heterossexualidade como modelo de comportamento sexual “correcto“. Acredito sinceramente que seria muito mais produtivo e justo defender a igualdade entre todos os indivíduos, independentemente da sua cor, etnia, género, orientação sexual, classe social ou religião. Seria mais difícil, é certo, pois não há sociedades perfeitas onde todos vemos expressas as nossas convicções e valores, mas promoveria o respeito pelas diferenças e o diálogo.
04/11/09
NOTÍCIA DO DIA
Na Somália, os "Rebeldes" fundamentalistas, ligados aos talibã da al-Qaeda, proibiram a utilização de toques de telemóvel com música, isto depois de recentemente terem proibido a dança, a música e o cinema, incluindo nos casamentos. Por lá os telemóveis só podem tocar pregações e canticos religiosos. Na passada semana um desgraçado mais herege levou com 25 chicotadas em público por ter sido apanhado a ver vídeos musicais indianos no telemóvel. Dizem os senhores da Lei que estas medidas são fundamentais para eliminar todas as fontes de corrupção das pessoas.
O que eu me tenho lembrado do Ahmed, que tem um Ipod recheado de boa música e que segundo ele é o único conforto que lhe resta quando está lá em reportagem.
Só me apetece chorar, não sei bem se de riso se de tristeza... talvez das duas coisas.
01/11/09
FINALMENTE OS JACARANDAS FLORIRAM
O desacerto da estação das chuvas que tardou e terminou demasiado depressa parece que teve alguma coisa a ver com o atraso deste encantamento, mas depois de estar fora mais de um mês, regressar e ver a cidade pintada de azul emocionou-me. Eu gosto de árvores, e por cá, por estas latitudes, tenho uma admiração tremenda pelos embondeiros, imensos e peculiares e um carinho especial pelas acácias que me dão sempre a sensação de estarem de braços abertos ao Sol, mas os jacarandas são as que mais me encantam, principalmente quando explodem de cor. É uma arvorezinha de aspecto frágil e delicado mas que quando floresce parece etérea e transforma-se numa espécie de nuvem azul que ofusca tudo à sua volta. Aqui ofusca a poluição, o caos urbano, o pó e põe-me a olhar para o céu.
Não podia ter recebido melhor presente de boas-vindas!
E com os jacarandas em flor parece que veio também a chuva persistente para acabar com a seca, ou pelo menos para aliviar o sofrimento dos milhões de pessoas mais afectadas pela falta de água. E se bem que a fome não acaba de um dia para o outro, a esperança trazida pelas chuvas, que segundo as previsões vão ser estáveis até Janeiro, já levou muitos agricultores a voltar a lançar sementes à terra, à espera do milagre da vida e da renovação.
Vou ver se por estes dias me aventuro num safari fotográfico, pela cidade pintada de azul, para poder mostrar-vos aquilo que com as palavras não consigo descrever.
29/09/09
A PERGUNTADORA NA TERRA DOS FIORDES
A conclusão tranquilizadora de que mudar e experimentar coisas novas ajuda a resolver quase tudo.
E a certeza de que o mundo é um lugar plural e diverso e que aí reside toda a sua beleza e encanto.
23/09/09
MASAI MARA
É o parque natural mais famoso do Quénia e um nome que nos transporta imediatamente para a África dos safaris (no verdadeiro sentido da palavra, uma vez que safari significa viagem em Swahili) e da vida selvagem.
Já lá fui duas vezes. A primeira experiência foi má. Não gostei. A segunda foi uma surpresa, um incidente que colocou o Mara no meu mapa dos afectos para sempre.
Como quase tudo na vida, o resultado final depende de nós, do nosso estado de espírito, da nossa abertura a desafios, da forma como lidamos com a vida... no entanto, quando se trata de um safari o pior safari de sempre, uma enorme desilusão e dias de tensão garantida. Eu, que sou uma rapariga calminha e ponderada tive vontade de lhe arrancar os olhos várias vezes!
Para mim é um facto que o parque está sobrevalorizado na bolsa turística, é o paradigma do safari de massas, é inexplicavelmente caro e alguns acessos são tão maus que podem estragar o espírito para a viagem antes de lá se chegar. Sobretudo a estrada de Narok, a mais usada, que liga Nairobi ao parque, representa horas e horas de buracos, pó, mais pó e mais buracos e uma viagem penosa e desmotivadora. Isto num país que, para os padrões africanos, até tem estradas decentes e naquele que é o itinerário mais usado pelo turismo, a indústria mais importante do país. Não se percebe muito bem!
Mas adiante... vamos aos aspectos mágicos e inesquecíveis e a algumas dicas para evitar os piores.
O parque de Masai Mara, no sudoeste do Quénia está ligado ao Serengeti, na Tanzania. Basicamente trata-se de dois nomes diferentes para designar uma mesma coisa, que por acaso (ou nem por isso) tem uma fronteira pelo meio e administrações diferentes e nacionalidades diferentes. Ora, nós sabemos isso, a fronteira está lá para toda a gente ver no meio da savana, mas os animais selvagens não sabem e não havendo forma de lhes ensinar coisas tão importantes como o patriotismo, o respeito pelas leis fronteiriças ou o ódio reciproco por terem pertenças territoriais diferentes, eles passeiam-se de um lado para o outro, como sempre fizeram, ignorando as fronteiras dos homens e seguindo apenas os seus instintos de sobrevivência. Esta indisciplina animal dá origem ao mais extraordinário espectáculo do parque: a grande migração, quando milhões de animais circulam entre o Serengeti e o Masai Mara, em busca de água, de alimentos, para acasalar ou para parir.
É fascinante a quantidade de animais que se podem facilmente ver de um lado para o outro durante um pequeno passeio no parque. Então se tivermos um bom guia, que conheça o parque e saiba em que zonas estão as diferentes espécies, o espectáculo é garantido.
A minha segunda visita ao Mara foi inesperada. Um belo jantar em Kisumu, junto ao lago Vitória, uns amigos em férias a conhecer o Quénia, a vontade de ir ao Mara, uma pergunta inocente ao gerente do resort “Vocês organizam safaris?”, um telefonema a um amigo dele que aluga viaturas e quando damos conta tínhamos marcado uma visita de doidos ao Masai Mara, por um preço inacreditável para dois dias depois.
Saída às 5 da manhã, 5h de viagem, por Kisii e através de vales e montanhas verdes. Uma boa estrada que se transforma em picada (e em ringue de lutas na lama se chover, como pudemos verificar no regresso!) nos últimos quilómetros. Chegamos ao Mara a meio da manhã e ficamos sem fôlego quando avistamos a imensidão da savana do topo de uma montanha depois de atravessar uma das regiões mais verdes do país. Lembro que a savana fica a 2000m de altitude e que portanto, nós estávamos bem mais altos. Não há fotografias que façam justiça ao impacto desta paisagem. O horizonte a perder de vista, a savana pintada de mil tons de ocre e amarelo pontuada por pequeninas manchas escuras, que são as acácias, o silêncio imponente, o céu sem fim e aquela sensação de pequenez que nos faz tanta falta, que não quer dizer que somos insignificantes, mas apenas que somos parte integrante de algo bem maior. É maravilhoso!
Chegados à entrada do parque e depois de desembolsar $60 cada estrangeiro e 1000Ksh (cerca de 10 euros) cada residente, que foi o meu caso (apesar de não ser verdade) porque um dos guardas não me queria fazer desconto de estudante e o outro simpatizou comigo e acabou por fazer ainda mais, o desconto de residente, achamos por bem contratar os serviços de um ranger do parque para nos guiar. É a melhor solução e a mais barata. Alugar um carro todo o terreno com motorista e depois no parque os serviços de um ranger, (a partir de 15 euros) que conhece o território e os animais como ninguém.
Depois é um desfilar interminável de espécies, paisagens, emoções e Masai Mara conquista-nos para sempre. E se juntarmos à experiência uma visita a uma aldeia Masai, um dos povos mais emblemáticos do Quénia, nativos da região, que vivem em harmonia com a savana e que andam a ser empurrados de um lado para o outro, em reservas inventadas desde que Masai Mara passou a servir o turismo, temos a cereja em cima do bolo e a garantia de uma experiência absolutamente inesquecível. Claro que como tudo no Quénia, tem um preço. É preciso negociar a entrada com o chefe da aldeia. A mim parece-me mais que justo! Afinal os Masai, que são o povo da savana, são os que menos ganham com a indústria turística e os que mais sofrem por causa dela.

